novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

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convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

domingo, 16 de dezembro de 2012

FICÇÃO - Vovozinha, cadê você?


Noites odiosas. Deito na minha cama, com aquela maldita mancha no lençol, que não quer sair.
Tento fechar os olhos, mas os galhos - a cada passada de carro – que correm pelas paredes parecem me perseguir. Os uivos dos cachorros da vizinhança me colocam em alerta. O cheiro de mata fechada invade minhas memórias.
Fico observando ao redor, na penumbra. Um raio de farol bate na cesta de vime que minha vozinha me presenteou quando fiz 13 anos. Na época, recheada de chocolates. Ainda lembro dela, sorriso costurado na boca, olhos recheados de lágrimas:
- É para adoçar sua vida, minha netinha!
Relâmpagos de sons ressurgem. Sua avó discutindo com sua mãe.
- Você é cega!?! Não vê o que está acontecendo?
Depois disso, há dois anos, nunca mais a viu. Que saudades da vovó!
Não está frio, mas puxo as cobertas até fazer uma toca. Enrolo bem todas elas ao redor do meu corpo todo encolhido, joelhos quase entrando no pescoço.
A porta range. Sei que é papai entrando na minha floresta. Aperto os olhos e a chamo mentalmente: “Mas mamãe, eu sempre fui obediente!”
(texto: Susan Blum. Foto da cesta: Susan Blum. Outras fotos: internet)

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