novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

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convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Real - mimimi no BBB

Ontem eu assisti BBB, pela primeira vez..

Vendo algumas postagens de amigos no facebook e vendo certas hashtags no twitter, eu acabei assistindo ontem BBB, pois queria entender o que tinha acontecido para gerar uma certa “briga”, falando de Sai Rodolffo, Fica Rodolffo e mimimi.

Pois bem. Graças que o programa faz uma certa “retrospectiva” (não sei se fazem isso sempre). Assim pude ver tudo que aconteceu. E sim, fiquei na torcida pela saída do Rodolffo.

Vamos lá. Em primeiro lugar quero dizer que não tenho insônia, geralmente durmo muito bem, indo deitar lá pela meia-noite e acordando cedo. Mas esta noite fiquei até 3 da manhã, pensando, sentindo, refletindo. Foram várias memórias ativadas, desde as lembranças e sentimentos até as memórias visuais, auditivas e até olfativas.

Espero conseguir resumir aqui o que foi esta noite com tudo isso...

Em primeiro lugar, quero dizer que não é mimimi.

Bom, logo que entrei na faculdade de Psicologia uma professora disse algo que marcou minha vida pessoal e profissional: a escuta livre de preconceitos. Para mim pode parecer bobagem uma mulher sofrendo por ser acima do peso, com tanta fome no mundo (estou falando de 1982). Mas é um sofrimento dela e devo respeitar. Ou, uma mulher muito rica sofrendo a perda do cachorro a ponto de procurar ajuda psicológica. Esta é a dor dela. As dores são únicas e particulares, devemos ouvir e ajudar a minimizar esta dor. E não ficar falando que é mimimi. Sempre lembro de um ex-namorado que se irritava quando ele reclamava de alguém e eu ficava “defendendo” a pessoa, dizendo que não sabíamos o motivo desta pessoa agir assim, que poderia ser um trauma.

Agora quero partir para o assunto em si. Meu pai era nordestino de pele mais escura, minha mãe uma catarinense filha de alemães. Tiveram 4 filhos, dois claros (de pele, olhos e cabelos claros) e dois mais morenos (de pele, olhos e cabelos escuros e crespos). Em toda a minha vida eu odiava a hora de escovar os cabelos (porque doía), e sempre escutei (até hoje) quando estou com minha irmã: “nossa, mas vocês são irmãs? Não parece!” Claro, ela, de pele clara, cabelo mais claro, olhos verdes. Eu, mais morena, olhos quase pretos, cabelo escuro e crespo. E, para meu “azar”, eu não me maquio (nunca gostei, só passo batom nos lábios e lápis nos olhos) e minha irmã e mãe são chiques ao extremo, se arrumam, se maquiam, etc... gosto de viver de forma mais simples (amo vestidos, mas minhas roupas são mais práticas). Então a diferença é grande mesmo. Uma “piadinha” de meu irmão claro era, quando visitávamos minha mãe: “Chegou o navio negreiro”.

Uma vez, eu estava na casa de praia da família de minha irmã, com ela e outras pessoas (fica em um condomínio fechado). E uma amiga da sogra de minha irmã veio visitar. Ela entrou, cumprimentou a todos e deu uma olhada rápida para mim. Achei que fosse porque não nos conhecíamos, mas minha irmã apresentou e levantei a mão (que foi ignorada). Ela disse, “sua irmã? Nossa, não parece”, e ficou conversando com elas. Não me senti bem e fui para os quartos. Não queria ficar ali. Minha irmã sequer percebeu. Esta é apenas uma situação que passei.

Em várias vezes, dentro de lojas, supermercados, shoppings, eu percebi coisas como: em um supermercado geralmente um segurança me segue; uma vez, em uma loja do shopping, duas mulheres viram que entrei na loja e uma delas segurou a bolsa. E quando eu comentava com a minha irmã ou outras pessoas elas geralmente diziam: “ah, você está imaginando”, “cisma sua”, “não é bem assim”, etc. Gente, eu não sou louca. Eu percebo. E tive a confirmação disso quando passei a alisar o cabelo. A diferença de tratamento é enorme.

Já que falei do alisamento, vamos lá. Em um de meus empregos (em uma editora) conheci uma mulher que me mostrou uma foto antiga dela e reparei que ela tinha um cabelo crespo como o meu (na foto), mas agora era bem liso, solto e brilhante. Perguntei o que ela fazia e ela me deu endereço de um salão afro, onde alisava. Durante vários anos seguintes eu fui alisar meu cabelo lá. Lembram que falei de memórias olfativas? Pois é. Eu sentia o cheiro forte (como se meus cabelos estivessem sendo queimados). Lembro muito bem da primeira vez que saí de lá. Jurei que nunca mais faria isso. No primeiro dia o cabelo ainda ficava meio duro, mas no dia seguinte ele estava liso, caído, balançava quando eu andava... pentear o cabelo? Que facilidade! Quase nem precisava. Eu acordava e ele caía sobre os ombros. Gente! Que maravilha. E os elogios das pessoas? “Nossa, como seu cabelo está lindo!”, “como você está bonita”, etc...

Isso mexe muito com a gente. Foi ali que percebi que não me seguiam mais no supermercado e nas lojas, e as pessoas riam mais para mim. Então percebi claramente a diferença de tratamento e sei que não é imaginação minha, não é loucura minha, não é mimimi meu. Não é a toa que aquele meu juramento de nunca mais alisar, que eu fiz ao sair do salão, se transformou em anos de alisamento. Mas um dia cansei. Resolvi que deixaria meu cabelo crespo de novo. Uma transição difícil já que você tem parte do cabelo liso e a raiz crespa. Mas consegui.

Sobre este caso específico do BBB, quando li comentários de manhã e falei com uma pessoa do caso, ela falou que levam muito a sério, que é semelhante mesmo. Eu me calei (não deveria). Pois é, né? Bombril é semelhante, mas o cabelo não é Bombril! Percebo que é difícil falar certas coisas com quem não passa por isso. Quem é branco, rico, se veste bem, nunca entenderá o que é isso. E como estas coisas vão machucando... aos poucos. Estas coisas vão se infiltrando nos nossos ossos, roendo as nossas bases, até desmoronarmos (como foi o caso no BBB). Imagina se eu ficasse falando do cabelo liso de pessoas loiras: “nossa, seu cabelo parece cu de vaca lambido” É semelhante, então tudo bem, né? Não. Não está tudo bem. Parem com estas “brincadeiras”.

Outra coisa que costumo escutar de pessoas que fazem “piadinhas” e brincadeiras com amigos negros: “ah, mas ele mesmo faz piada de si”. Gente, conhecem o termo introjetar? Temos muitas coisas introjetadas em nós. Isso não significa que são boas. Por vezes podemos fazer piadas para sermos “aceitos”, por vezes fazemos sem perceber o mal disso, por vezes ficamos quietos quando deveríamos falar (pesquisem sobre racismo recreativo). Por exemplo: lembram do me irmão que falei que “brincava” do “navio negreiro que chegou”? Eu sinto uma certa dor ancestral destes negros que foram forçados a vir em navios que muitos morriam no caminho e eram jogados ao mar. Os oceanos são túmulos de várias histórias. Terríveis.

Por que resolvi falar tudo isso e mais um pouco? Vejo meninas (como minha sobrinha-neta) que tem os cabelos bem crespos e se sentem tristes com comentários. Parem! Parem de maltratar as pessoas! Parem de julgar por roupa, cabelo, maquiagem, etc. As pessoas são muito mais que isso tudo. Eu via muitas alunas ricas da Universidade que ficavam fazendo prancha todos os dias nos cabelos para terem os cabelos lisos, que pintavam os cabelos, uma padronização de bonequinhas loiras de cabelo liso. Gente! Somos diferentes. Somos seres humanos. Não se robotizem porque a “sociedade” assim quer. Perdi o número de quantas vezes escutei (e escuto) “por que você não corta o cabelo?” “por que você não arruma o cabelo?” “por que não alisa o cabelo de novo?” de amigos, de familiares. Eu quero o meu cabelo assim. Não me importa se vocês gostam ou não. Chega! Cansa ser julgada pela aparência.

Eu não sou só cabelo, roupa, maquiagem. Não sou só profissão, feitos, formação. Eu sou muito mais. Consegui me “rebelar”, mas tenho 57 anos. E se eu tivesse esta liberdade de hoje (que me dei) nos tempos de adolescência? Quão diferente teria sido minha história de vida?

Parem de querer padronizar. Graças que hoje em dia há negras em comerciais e não só aquelas loiras com cabelos esvoaçantes... eu alisei, meus cabelos balançavam com o vento, mas no fundo eu não era feliz. As crianças merecem que vejam a beleza de seus cabelos e corpos do jeito que são. Não destruam a alma destas crianças. Tenho por hábito elogiar as crianças negras que vejo nas ruas, porque sempre vemos as pessoas elogiando as crianças loiras de olhos claros. E toda vez que eu fazia isso, via os olhos brilhando dos pais, orgulhosos de escutarem um elogio para seus filhos.

Enfim, retornando ao BBB, para finalizar, eu gostei da fala do Thiago lembrando da luta, da resistência. E eu percebia que o Rodolffo não estava entendendo, pois voltava na justificativa do cabelo dele ou do pai negro. Gente, não interessa se eu tenho amigos negros, familiares negros, etc.. se não respeito, se não escuto, se não acolho a causa, estou errada. Vejam que eu não disse que é para dar voz. Nós temos voz. Precisamos de escuta. E isso eu não vi ali. Escutar não é ouvir. Escutar é refletir.

Para terminar, não basta não ser racista. Temos que ser antirracistas. E não, definitivamente, não é mimimi.




segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

FICÇÃO - Sinfonia do caos

 

Sinfonia do caos

 Dezembro de 2020

Madrugada - de novo acordo, quando durmo, com os latidos dos cachorros do bairro. Todos latem, em todas as casas e apartamentos, como se algo quisesse entrar.

Ou então eles sentem o cheiro.

O cheiro da morte.

É uma sinfonia sem ordem. Latidos que nos arrepiam. Colocam nosso corpo em estado de alerta e nossa alma em estado de dúvida.

Dúvida se estamos bem.

Dúvida do número de mortos.

A sinfonia recebe, de vez em quando, novos acordes: as ambulâncias que não sabem para onde ir, já que os hospitais estão lotados. Um ou outro carro ou moto passam em velocidade exacerbada, como que fugindo de algo.

Rolo na cama e vejo o horário no celular: 03:00.

Minhas gatas acordam com meu movimento e me encaram, com ceticismo.

Minha barriga ronca. Não tenho me alimentado bem. Um mosquito zumbe. Era só o que faltava!

Levanto, acendo a luz, procuro um pouco por ele.

Desisto e vou até a cozinha beber água. Não há muito o que comer. Minha fome é outra.

Vou até a sacada, meu único ar nestes últimos dez meses.

Vejo as luzes coloridas de algumas poucas janelas. Farejo o ar, confiante que estou protegida no 17º andar, sem máscaras.

Respiro fundo. Suspiro.

A partitura canina é longa. E dá espetáculos todas as madrugadas.

Começo a observar as estrelas, em busca de um OVNI. 

Uma solução?

Relembro noites ancestrais de acampamentos. As matas, os rios, as estrelas.

Um tempo antigo que não cabe mais em meus dias.

De repente meus pelos se eriçam... minha respiração se suspende... minhas pernas ficam moles...

O que houve? Por um tempo fico perdida.

Até que encontro o motivo:

Silêncio!

Total. Apavorante. Sepulcral.  

Nenhum latido. Nenhuma sirene. nenhum motor.

Até as estrelas parecem ter parado de piscar.

Me sinto sufocada naquela sacada.

Ando de costas, devagar, e entro no apartamento, fechando a porta de vidro.

Coração esmagado.

Deito...

e tento dormir...



para desanuviar um pouco:



quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Ficção (ou real?) Era uma vez...


 Era uma vez um país fervorosamente religioso onde a "pastora" matava, o "padre" roubava e o "espírita" estuprava. Os Centros de religião africana como candomblé eram massacrados e os "diferentes" (negros, homossexuais e bandidos) recebiam punições desde surra até morte. 

Os "cristãos" não usavam máscaras em plena pandemia, compartilhavam inverdades e destilavam discursos de ódio.

FIM. 


LoboMauro no Twitter: "Ficam bradando que a bandeira do Brasil não ...

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Ficção -Lua Cheia

O homem estava apressado, corria muito, queria entrar no mirante da torre panorâmica a todo custo.
Estava tão inquieto que o guarda ficou preocupado. O segurança não queria deixar o homem subir no mirante. Disse que estava fechado por causa da quarentena. 
Mas o homem, ansioso, empurrou o guarda e correu para as escadas....

(texto: Susan Blum. Foto: Daniel Castellano)
Este fotógrafo é maravilhoso e tem muitas fotos belíssimas, recomendo visita ao instagram dele e ao facebook.
Instagram: @dicastellano

sexta-feira, 24 de julho de 2020

REAL-FICÇÃO - Eu não consigo respirar


Eu não consigo respirar
Aos que têm fome de comida, de saúde e de justiça.

Tenho fome.
Não há comida. Então pego terra.
O senhor me castiga.
Este ferro pesa, meu rosto sua e, como tenho sede, bebo o suor que escorre.
Não consigo respirar.

Tenho fome.
Não há saúde. Então uso máscara.
O vírus me pega.
A cama cansa, o tubo machuca, mas ele traz ar que caço sofregamente.
Não consigo respirar.

Tenho fome.
Não há justiça. Então grito por ela.
O policial me sufoca.
O joelho aperta, meu corpo clama, minha bexiga solta, eu sussurro
Não consigo respirar...

ϟ○• História e Sociedade •○ϟ: A máscara de flandres
Máscara de Flanders

Este texto eu escrevi um dia depois da morte de Floyd, nos EUA, em 25 de maio de 2020.
Nos dias seguintes, várias manifestações no mundo todo aconteceram, trazendo luz e reflexão sobre as vidas dos negros e o tratamento dispensado à eles pelos policiais.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Ficção - Isolamento

Em 23 de abril de 2020 o Jornal Plural publicou um conto meu.
Pioneira neste jornal, abri a seção de contos que continuou depois.
Feliz por este feito.
Somente agora trago para vocês este conto.


Isolamento

2020.

Curitiba.

23 de março.

Coronavírus COVID-19

Isolamento voluntário.

Campainha. Desconfiada. Olho mágico. Surpresa. Depois de meses. Ali está o ex-namorado.

Apesar de saber, pergunta:

“Quem é?”

“Sou eu”

A voz ainda mexe com ela.

Abre a porta e quase o cumprimenta. Mas lembra de manter distância. Abaixa a mão. O abraço fica na vontade.

Isolamento social mexe com a gente.

Distância. Álcool gel. Lavar as mãos.

Sentam-se então no sofá. Nos extremos.

Ele pede desculpas, avisa que cortaram a água do seu bairro: precisa tomar um banho.

Que não tem familiares. Que os amigos não abriram a porta. Que lembrou dela.

Estas palavras foram um banho de água fria em seus desejos ardentes. Vontade de expulsá-lo.

O cheiro dele – que sempre a fascinou – fez mudar de ideia.

Isolamento social mexe com a gente.

Ofereceu box, água, sabonete e toalha.

Enquanto ele assoviava feliz no banho, abriu a caixa que estava embaixo da cama. Lá ainda estavam o robe e chinelos.

Deixou em cima da cama. Avisou em voz alta. Foi para a cozinha.

Lá, colocou o vinho na geladeira e preparou noisettes congelados.

“É só para mim” – tentava se convencer.

Mal ouviu o chuveiro desligando, gritou sobre os comes e bebes.

Mordeu a língua…

… mas isolamento social mexe com a gente.

Aquele sorriso gostoso, com cheiro de homem, entrou na cozinha.

Tentou se concentrar na conversa leve sobre cinema, livros e amenidades.

Não queriam falar do assunto recorrente.

As risadas apagaram as distâncias profiláticas.

De repente, já estavam se abraçando.

Isolamento social mexe com a gente.

Abriu os olhos depois do beijo, e já estavam na cama.

Corpos suados felizes repousavam esquecidos do mundo.

Era só um banho. Mas a noite foi brindada com sonos entrelaçados.

Isolamento social mexe com a gente.

Acordam cedo, com os pássaros – agora se escutam até os pássaros!

Vão para a cozinha. Ovos mexidos, chocolate, suco, frutas, coisas da despensa.

Ela nunca vê TV nesta hora, mas é o hábito dele, e ela permite.

Ali a realidade mata o sonho.

Que a pandemia piorou. Que agora é decretada quarentena forçada. Que NINGUÉM deve sair de casa. Que o número de mortos triplicou. Que o número de infectados explodiu. Que o cheiro da doença e da morte parece penetrar em todos os poros.

Sem ar ela vai até a sacada e observa o vazio.

Atrás dela, cheira o medo dele.

Não sabe se é medo da situação lá fora ou aqui dentro.

Isolamento social, não… quarentena mexe com a gente.

Não podem burlar a regra.

Ele fica.

Mas os mantimentos que ela comprou eram para UMA pessoa.

E os dias passam.

E começa a implicar toda vez que ele pega algo para comer ou beber.

E os banhos parecem demorados.

E a TV ligada vai irritando.

E começam a discutir por qualquer coisa.

Quarentena mexe com a gente.

Não precisavam mais da distância. Mas a raiva não permite mais uma aproximação.

Cada refeição, cada banho, cada briga pelo canal diferente, traz distanciamento.

Alimenta a raiva, o ressentimento, o ódio.

Uma noite, ela vai até a cozinha e … ele está comendo o último chocolate.

Ela pula em cima dele.

Leoa feroz com instinto de preservação.

Quarentena mexe com a gente.

No dia seguinte, ela acorda com o som da TV. Nela, avisam que tudo se acalmou.

A quarentena foi revogada.

Levanta devagar do chão da cozinha, pegajosa pelo líquido avermelhado.

Quarentena mexe com a gente.







(Texto e Foto: Susan Blum) Link para o Jornal Plural: https://www.plural.jor.br/noticias/cultura/isolamento/

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

#MulheresExtraordinárias2 - Hipátia

Hoje quero trazer uma mulher que admiro muito e que conheci um pouco tarde na minha vida.
Só fui conhecer Hipátia com 40 anos de idade. Mas foi amor à primeira vista, ou melhor, ao primeiro conhecimento.
Devo isto a um ex-namorado.
Para começar a apresentar esta mulher incrível, trago uma citação na Suda.
"Articulada e lógica nas palavras, prudente e voltada para o bem público nas ações... a cidade acolheu-a apropriadamente e lhe concedeu um respeito especial". (Suda).

Um parênteses se faz necessário? Então lá vai:"A Suda (em grego: ἡ Σοῦδα; transl.: i̱ Soúda) é a primeira enciclopédia do mundo, surgida no século X, em Constantinopla. Compila obras e personagens de forma inovadora, isto é, em ordem alfabética"

Voltemos para esta mulher fantástica. 
Ela foi uma das primeira mulheres a estudar e ensinar matemática.
Aparentemente nasceu em algum momento entre 351/ 370 em Alexandria (Egito) e "faleceu" em 8 de março de 415. 
Por que coloquei faleceu entre aspas?
Simples. Ela foi covardemente assassinada. E, aqui o ponto relevante, principalmente pensando nos tempos atuais do Brasil: por causa da fúria de fundamentalistas cristãos. Ela já poderia ser famosa pela sua vida, mas a morte a transformou em uma lenda.
Mas, vamos por partes. Falei que ela era matemática, mas ela era muito mais que isso.
Especialista em Filosofia e Astronomia também, ela se tornou um símbolo do esclarecimento e do feminismo. O pai dela, Teón, era um erudito que não somente deu uma educação primorosa para a filha, como fez questão de que ela respeitasse a herança e os valores gregos. Teón foi um dos últimos membros da Biblioteca de Alexandria. 

Outro parênteses: a Biblioteca de Alexandria suportou revoltas e guerras, mas foi destruída em 391  D.C., quando o Império Romano tornou o paganismo ilegal.
Vejam os riscos de não se ter tolerância e não se apoiar os estudos e pesquisas.  

Ela lia e estudava muito, sendo curiosa em relação as coisas, buscava conhecimento onde podia. Inclusive gostava de repassar seus conhecimentos, buscando que todos tivessem acesso aos estudos. Ela chegou a discursar em público sobre Aristóteles e Platão.
Um dos retratos dela está no famoso quadro de Rafael, "A Escola de Atenas".

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Algumas curiosidades: Hipátia inventou uma nova versão do Hidrômetro. Trabalhou com o pai em teorias sobre o Sistema Solar. Era conhecida como "A egípcia inteligente".
Ela teve a chance de viver em uma cidade (Alexandria) que era famosa por sua biblioteca e por ser um lugar de aprendizagem.
Mas, infelizmente também era um lugar em que tensões religiosas entre pagãos, judeus e cristãos acabavam em violência.
Justamente por isso era perigoso Hipátia e seu pai Teón concretizarem suas tradições gregas.

Parênteses: não podemos nos esquecer que os gregos estabeleceram tradições de justiça e liberdade individual, que viriam a se tornar base da Democracia contemporânea.

O pai lhe ensinou matemática e astronomia, mas em pouco tempo ela superou o pai, se tornando especialista nas duas ciências (com contribuições importantes à teoria dos números e Geometria).
Mas não era apenas na matemática e astronomia que Hipátia tinha interesses. A Filosofia também a impressionava (principalmente a Platônica).
Ela se tornou uma das primeira professoras de Alexandria e muitas pessoas viajavam de longe para a ouvir e aprender. Os homens que eram seus alunos a respeitavam e eram leais.
Mas... como muitas histórias. Algo muda.

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Com o tempo ela se tornou um alvo, por seus ensinamentos pagãos.

Não devemos nos esquecer que toda religião deve ser respeitada, quando não se respeita alguma religião, estamos cometendo o pior delito. (opinião minha)

Hipátia foi assassinada da pior forma possível. Ela foi morta de forma cruel e torpe. Seu crime? Fazer as pessoas pensarem além de suas crenças, fazer as pessoas refletirem sobre a vida. Mas os que são fechados em suas crenças, veem ao outro como inimigo.
Em 415, uma multidão de extremistas religiosos, com conchas e pedras afiadas, a esfolaram viva. Rasgaram sua pele, como que tentando tirar todo o conhecimento e amor pelas pessoas que ela tinha. A professora foi assassinada por não aceitar crenças fechadas. Por manter a mente aberta. 

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Sua morte foi horrível. Mas sua vida se transformou em um símbolo da EDUCAÇÃO diante da IGNORÂNCIA. Um símbolo de luz e conhecimento.

Trouxe a história de Hipátia pensando nos tempos de hoje no Brasil, quando o estado "deixa" de ser laico, para que um grupo de evangélicos (não todos) sejam levados por um "presidente" que coloca Brasil acima de Tudo, Deus acima de todos.

Parênteses: na Alemanha de Hitler, uma das frases mais repetidas era "Deutschland über alles", que quer dizer "Alemanha acima de tudo"

Uma dica de leitura (clique na frase):
“Deus acima de todos é expressão fascista que esconde sede de poder”

Outra dica de leitura: BBC - assassinato de Hipátia 


Enfim, procurem saber mais sobre esta mulher maravilhosa. Aliás, assistam ao filme Alexandria (link para trailler)

Também há livros e vídeos sobre Hipátia. Uma GRANDE mulher que foi morta pela intolerância. Reflitam sobre isso.



Hipatia de Alejandría (Spanish Edition) por [Luna, Luis De la]