novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......
convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

FICÇÃO - A Bela e o Sapo

Era uma vez (ou duas, ou três) uma moça cuja beleza rivalizava com a riqueza. Ela tinha os dois em fartura. Mas vivia entediada, pois eram inúmeros os rapazes belos e ricos que a cortejavam. Ela tinha seus caprichos e um deles era a busca do amor verdadeiro. E isso significava - pelo menos para ela - que deveria amar alguém feio e pobre.
Porém, os rapazes feios e pobres não acreditavam no interesse real dela. E ela se entristecia.
O único lugar em que ela se refugiava e se sentia bem era na beira do lago, no Barigui. Tentando encontrar o jacaré, animal que - para ela - era feliz.
Todos os dias em que a moça ia até lá, encontrava um sapo que parecia a olhar com desejos. Seus olhos pidões, aguados, rumorejavam – era o que ela sentia – solicitações amorosas.

Com o tempo ela foi se apaixonando por aquela cor de pele tão diferente, aqueles caroços viscosos, aquelas membranas finas entre os dedos. Ia comparando com sua pele alva (tão comum), seus dedos finos e longos (que lhe pareciam agora como espinhos secos), com sua pele tão lisa e macia (argh). Em um gesto de rompante, ela agarrou o sapo e o levou para sua casa.

Mal entrou no lar, o sapo se pôs a falar:
- Agradeço, bela dama. Sou na verdade um belo herdeiro, de família tradicional curitibana. Um dia uma moça que foi por mim rejeitada conseguiu que uma mulher das artes mágicas me transformasse em sapo. Para dificultar a reversão da magia, ela lançou um feitiço de que eu não poderia falar com ninguém, a não ser que me recolhessem com carinho a algum lar. E agora posso falar e pedir que você me dê um beijo. Só assim posso retomar minha antiga forma: de um belo humano.

A moça o olhou com carinho. Mas ficou pensando. De novo cairia no mesmo problema: teria ao lado um rapaz rico e belo, com outras moças a desejá-lo. Decidiu: ficaria com ele para o resto da vida. Porém, sem nunca beijá-lo!
E assim foi. Até hoje a lua e o sol os encontram abraçados na cama... Moça e sapo, felizes para sempre!!
(Texto: Susan Blum. Imagens: retiradas da internet).

domingo, 27 de outubro de 2013

FICÇÃO - Metamorfose brasileira

Este conto está no meu livro Novelos Nada Exemplares.... mas como hoje é aniversário do "muso" do conto, eu posto aqui como homenagem.


Gregory Senter acordou um bicho-preguiça.
Lentamente, muito mais lentamente que o habitual, saiu da cama e percebeu que em vez de pés e mãos tinha garras enormes e seu corpo estava peludo. Depois de horas chegou até o banheiro (ao lado do quarto) e viu seu rosto peludo através de olhinhos pequenos.
Não sabia o que pensar, pois até seus pensamentos eram lentos, pareciam vozes em baixa rotação que chegavam de muito longe e até ouvir cada uma das palavras, já havia esquecido das primeiras... e assim não completava sequer uma frase.
Como se sentia muito cansado resolveu voltar para a cama.
Após longa viagem se deitou e fechou os pequenos olhinhos, a tempo de escutar sua mãe lhe dizendo: “Gregory, você vai chegar atrasado para a escola...”
Ela sabia que seu filho sempre se enrolava na cama e só levantava no último instante a tempo de comer algo, se arrumar e sair correndo para escola. Assim, deixou-o e foi arrumar a mesa. Gregory escutava seus irmãos se levantando, a cachorrinha correndo pela casa, sentia até seu rabo abanando e seus olhos acompanhando todo o movimento, como se também ela fosse para a escola. Um arrepio instintivo de bicho contra bicho levantou seus pêlos lentamente... até mesmo o arrepio era lento!
Percebeu, depois de muito tempo pensando, que lhe era agradável escutar a mãe falando seu nome... continuou pensando porque isso acontecia.
Sua mãe bateu na porta que ele trancava desde que começou a imaginar a Sandy com ele na cama e fazia “aquilo” que era tão gostoso, mas que parecia ser errado. Acostumada a não ouvir respostas de seu filho que sempre acabava se levantando e indo para o colégio ela só dava leves batidas na porta e continuava indo para lá e para cá, vendo como os gêmeos, que eram menores, estavam lidando com as roupas e mochilas de escola, perguntando se já escovaram os dentes, confirmando se os cabelos estavam penteados.
A filha, maior que Gregory, ainda se arrumava, pois tinha que pentear os cabelos várias vezes, colocar e tirar várias roupas, até se sentir satisfeita com a aparência. Se a mãe não ficasse em cima dela, se atrasariam para a aula.
Gregory escutou todos se arrumando, tomando o café e ouviu o barulho da porta se fechando, do carro sendo ligado e depois o ronronar do motor se distanciando. Estranhou que ninguém tivesse percebido sua ausência no carro. Mas na verdade quase ninguém percebia sua presença mesmo.
Passou o dia explorando o quarto, achou migalhas de biscoitos embaixo da cama. Viu a empregada que entrava com a chave extra, ela arrumava a cama, sacudia os cobertores na janela, passava uma vassoura rapidamente e ia para os outros quartos. Ouviu a família que voltava, aos poucos, desarticulados, para o almoço. O almoço nunca era com todos ao mesmo tempo, iam chegando e almoçavam. Geralmente Gregory era o último a chegar para o almoço e ficava com o que restou. Ninguém sentiu falta dele. Gregory foi diminuindo de tamanho durante todo o dia.
No dia seguinte sua mãe sequer bateu em sua porta. Gregory estava tão pequeno que podia passar por baixo da porta e ia para a cozinha pegar restos de comida antes que a empregada lavasse o chão. Geralmente ficavam ao lado da lixeira. Apenas tinha que tomar cuidado com a cachorrinha que tentava pegá-lo. Ela sempre foi uma exímia caçadora de baratas e ratos da casa.
Semanas passaram, Gregory geralmente ficava dentro do armário, pois era seu lugar favorito: o espaço interior do armário é íntimo e não abrimos o armário para qualquer um. A empregada quase não entrava no quarto, pois a cama estava sempre arrumada e muito menos abria o armário, principalmente agora, que não havia mais roupas a serem lavadas e guardadas como no início. Um dia um dos gêmeos achou o quarto vazio e Gregory, de dentro do armário, ouviu-o dizer: “Mãe, este quarto está vazio. Posso ficar com ele?” A mãe entra e Gregory a vê pela fresta da porta depois de tempos sem a ver. “Nossa! Um quarto vazio e vocês dois lá naquele quarto, apertados! Claro que pode se mudar para cá!”
Tempos depois, cansado de ficar se espreitando em cantos da casa, Gregory foi ao quarto da mãe e ficou esperando a oportunidade. A mãe tinha um porta-jóias sem chave. Era uma caixa de madeira com segredo e sua mãe dizia que nela estavam todas as coisas inesquecíveis. Conseguiu entrar na caixa em um dos raros dias em que a mãe a abriu. Acomodou-se entre os anéis e os brincos e passou o resto de sua vida entre as jóias da mãe. Bastava uma leve pressão secreta para abrir a caixa e libertá-lo. Mas ninguém a fez. O cofre tem muitos segredos para ser aberto aleatoriamente.






domingo, 20 de outubro de 2013

REAL - entrevista antiga - quem sou eu...

Anos atrás (eu estava fazendo doutorado na USP) um homem mandou uma entrevista para mim. 
Respondi e enviei. Mas nunca vi se saiu ou não. Dias atrás, limpando a caixa de e-mails, encontrei.
Gostei do que li e resolvi postar. Não fiz mudanças (queria ter o tom sépia da época).

Boa leitura.

ENTREVISTA PARA BLOGUE DE FRANKLIN JORGE
NOME  Susan Blum Pessôa de Moura
DADOS BIOGRÁFICOS  ser humano meio gato, nasceu em Curitiba, viveu em vários lugares, retornou a Curitiba. Curiosa como gato, fez duas faculdades, leu muita coisa, trabalhou em várias coisas. Dorminhoca como gato, sempre retorna ao lar, à casa, à concha, ao ninho, à raiz de sua vida.
FOTO
QUESTIONÁRIO
Quando nasceu?  No dia 4 de setembro de 1963, quando o Paraná pegava fogo. Décimo terceiro bebê da maternidade da base Aérea (hoje cindacta), nasceu com asas. Ah... 63 é uma boa safra!
Onde?   Curitiba, Paraná... dizem que “ritiba” é do mundo... mas não é verdade! Terra do pinhão, do Vampiro Dalton e do Frankenstein Xavier.
Como se chamam seus pais? Alfredo Pessoa de Moura (falecido) e Irmgard Luisa Blum de Moura. Sou mistura boa de Nordeste com Santa Catarina.
De onde são? Ambos brasileiros, mas com antecedentes diversos.
O que você herdou do seu pai?enorme amor pelos livros, pela leitura e pela escrita. Ele me deu a intelectualidade e me ensinou a discutir.
E de sua mãe? A força de vontade, a garra, a luta e a não desistência pela vida. Ela me deu o amor e me ensinou a amar.
Dê-me fatos para esclarecimento de heranças. Meu pai deixou uma biblioteca de uns mil livros. Infelizmente eu não estava em Curitiba quando ela foi desfeita e não pude guardar alguns. Minha mãe luta até hoje, é forte, é amorosa, nunca reclama e sempre ajuda a todos.
Quem é você?  Alguém. Uma pessoa que tenta se achar, que descobre falhas, que comete erros, mas que sempre busca acertar cada vez mais. Uma pessoa em constante mutação. Um ser humano comum.
Mais fatos. Nasci. Tentei estudar e tirar notas boas (meio difícil). Esotérica, fui para outros lugares. Em outros lugares acabei casando. Depois dessa experiência acabei separando. Voltei para casa. Resolvi fazer segunda faculdade. Descobri a verdadeira paixão: Letras!!! Fui dar aulas. Tento escrever livros. Pesquiso sobre autores maravilhosos. Estou amando um homem incrível. Amo dar aulas em uma ONG para menores carentes. Ainda estou na metade de minha vida!
E sua infância? Detestava (e nunca via) os Trapalhões, preferia sair de bicicleta e me enfiar nos matos perto de casa. Escondia a bicicleta e subia em árvores para observar as pessoas. Asmática, nunca podia fazer muita coisa. Sempre amei gatos e os recolhia da rua (cachorros também) – minha mãe ficava louca! Tive periquito (meu pai me deu um casal), tive uma tartaruguinha (acharam na rua e me deram), tive alguns cachorros e tive vários gatos. Li muito desde criança. Relia avidamente todos os livros que meu pai me dava. Uma vez ele deu livros para todos os filhos: o conde de montecristo para minha irmã, os 3 mosqueteiros para meu irmão, não lembro do livro do terceiro irmão, e o meu: O corsário negro! Lia todos os livros sempre. Amava! Aos 13 ele me fez a carteirinha na Biblioteca Pública. Descobri Allan Poe e li todos os livros que existiam dele na Biblioteca! 
Como brincava?  Andar de bicicleta, ler, subir em árvores, ler, subir no armário do quarto, ler, dava aulas para as bonecas, ler, fotografar (meu pai me deu uma máquina, daquelas que eram descartáveis – tirava foto de tudo!).
Quando deixou sua terra? Deixei para dar aulas de Gnose em outras cidades, sempre voltava. Sempre viajava de novo. Por fim, retornei e estou aqui há anos.
Que coisas tem feito? Dou aulas. Escrevo. Pesquiso. Saio com amigos. Leio muito. Dou mais aulas. Estou tentando terminar a tese de doutorado, sobre o livro 62.modelo para armar, de Cortázar!

(aqui estou dando uma palestra na Petrobras, sobre um assunto que adoro: Imagem!)

sábado, 19 de outubro de 2013

REAL - Crônica TODA LETRA - Tenho, logo existo!

 Existir. Palavrinha estranha que permite que reconheçamos, ou não, os outros ou as coisas. De que forma existimos? De vários jeitos. Alguns deles, mais comuns hoje em dia, sem contar o nome e o sobrenome:

Dígitos. Quanto mais dígitos a pessoa tiver, mais ela existirá e não estou aqui falando de idade. Já se foi a época em que as pessoas com mais idade eram mais respeitadas. Hoje em dia os idosos não são centro das atenções e suas histórias repetitivas como discos arranhados apenas prolongam uma dor arrependida de termos dado atenção, de termos colocado a agulha nas primeiras ranhuras com um simples “Olá, como vai?” provocando com isso o início do derramamento da areia na ampulheta de anos empoeirados. Cada pedrinha da areia uma doença, uma dor, um arrependimento, uma reclamação...
Não. Estou falando aqui de outros dígitos. Os dígitos monetários. Como no verso de Trilussa, estou falando daquele indivíduo, aquele “um”. Que se transforma após ter vários zeros seguindo-o. Quanto mais zeros seguindo o “um”, mais ele terá outros zeros que o admiram, que puxam seu saco, que o elogiam falsamente.

Digital. Mas você também pode existir se estiver ligado a outro digital: o mundo virtual. Uma vez me disseram que se eu não achasse o meu nome no Google, eu não existiria. Como sou curiosa desde pequena (vide Menina curiosa ) fui colocar meu nome no Google. Após breve expectativa, descobri que eu existia para o mundo. Posso não existir para aquele homem que considero fantástico, mas existo para o Google.

Digital. Também existo se tenho outra digital: uma digital que abre portas para mim (literalmente, pois a porta do CELIN só abre após eu inserir meu dedo nela), apesar de por vezes demorar para me reconhecer (então não sou só eu que demoro). Bastam algumas tentativas e logo escuto o som da porta liberando minha entrada. Esta é a mesma digital que está ao lado de meu nome, na minha carteira de identidade. Um labirintozinho de sulcos em um redemoinho.

 Então, parece que até que não é difícil existir. Caso você tenha um, ou dois, ou três dos acima citados, você, sem sombra de dúvida... existe!
 Mas conheço casos de crianças que não existem. Pequenos brasileirinhos que praticamente nascem trabalhando e – consequentemente – ajudando o país a existir no cenário mundial. Mas que não existem literalmente. E digo isso não somente pela invisibilidade social (a não ser quando estão muito perto do nosso olhar e que seu cheiro é sentido pelos frágeis olfatos acostumados a cheiros de carro novo ou amaciante nas roupas, além de perfumes franceses). Mas também por outros fatores.
Quem são estas crianças?

São brasileirinhos descartados que nos ajudam a saborear uma especiaria maravilhosa: castanhas de caju.
Devido ao processo de fabricação da castanha estes seres inocentes, sem infância, perdem toda e qualquer chance de existirem. São seus dedos que deram origem aos vários nomes citados anteriormente: dígitos, digital. São seus dedos que tiraram a possibilidade de existirem. Os dedos que deviam estar ocupados com pipas, bexigas, guidão de bicicleta, segurar bolas, jogar pedras no jogo da amarelinha.
Estes seres infantis não existem. Nunca existirão. Foram descartados pela sociedade que tanto valor dá ao pensar! E os culpados disso somos cada um de nós! Porque não pensamos sobre isso. Logo, também não existimos como seres humanos!


Curioso sobre os dedos trazerem os dígitos e digitais? Veja mais em http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/odiss-ia-digital-a-aventura-do-conhecimento-humano-do-dedo-ao


Quer ler uma linda historinha sobre o caju? Procure o livro Tempo de caju, de Socorro Acioli, com ilustrações de Maurício Negro (editora Positivo – projeto Zepelim).

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

REAL - Toda Letra - Mutações

Última crônica do mês de setembro.
MUTAÇÕES.
http://www.todaletra.com.br/2013/09/mutacoes/
A crônica completa:
Mutações!

A mudança - que eu ainda não completei – está me trazendo muitas reflexões e oportunidades.
Sempre sonhei em ter meu canto, talvez pelo fato de ser a caçula de quatro, sempre ter morado com alguém (primeiro no mesmo quarto que minha irmã), depois sozinha no quarto que era dos meus irmãos (mas ainda com os pais), depois casada (com marido), separada (voltei a morar com a mãe).
E, como imaginava, estou adorando cada dia, cada minuto, cada segundo, sozinha.
Nos primeiros dias não fiquei sozinha (estava amando alguém que veio dormir comigo, jantar comigo, viver comigo – foi uma ótima iniciação no novo lar: amor), mas estraguei tudo e a pessoa evaporou. Guardo-a num cantinho de minha alma (uma sementinha para algum futuro?).
Agora, totalmente só, observo as sombras, o vento uivando nas janelas, o caminho do sol pelo apartamento, os pozinhos que se acumulam, os cheiros peculiares de cada instante do dia... são pequenas grandes descobertas de nós dois: ap e eu. Eu e ap.
Juntos admiramos o nascer do sol, o pôr-do-sol, preparamos o lanche e a pipoca, a sopa do final do dia, a rede na sacada (presente do primeiro amor do ap), o vinho na sala vazia, o licor no escritório cheio de livros, a água ao lado da cama de casal.
Sinto uma vibração diferente no corpo. Procuro olhar com vagar as transformações dentro de mim: mas quanto mais eu olho, mais eu vejo aquela menininha que ficava em cima do armário do quarto, para fugir de todos. Para poder ficar apenas olhando para a vida...  pensando na vida.
Fiz 50 anos. E descubro uma Receita de Estranhamento:
“Fique olhando para suas mãos longamente. Observe a pele que não é mais esticada, as pequenas cicatrizes (antigas das unhas de gatos e recentes da mudança), veja as unhas quebradas de tanto carregar livros, a pele puxada ao lado da unha pelo hábito antigo (resquício de quando roia unhas na infância?), as veias mais saltadas, a cor de cada pedaço da mão. Quando sentir que está olhando para algo externo e diferente, abra mais os olhos e a consciência: sim! É você mesma! Essas mãos são suas. As mesmas mãos de menininha que pegavam os gatos, que subiam nas árvores, que andavam de bicicleta e que já tinham o hábito de escrever.”
Sim. É estranho. Estranho estar dentro deste corpo, como me era estranho estar dentro do mundo quando criança. Sempre me senti deslocada, Quando criança, queria ser adulta. Agora, adulta, me descubro uma criança. Já sou vista como velha. Mas não me sinto nem um pouco velha.
Ainda tenho tanto a fazer, tanto a amar, tantas promessas a cumprir.
E, ainda agora, olho esta menininha aqui ao meu lado. A observo correndo pelo ap, dançando na sala vazia ao som de M.J., ouço suas risadas por ter realizado este sonho antigo: ter seu próprio canto.

E é admirando esta menininha que sinto que finalmente estou me encontrando!   

sábado, 7 de setembro de 2013

FICÇÃO - O ESTRANHO CASO DE GRACE UEI

Grace acordou cega.
Abriu seus olhos como sempre, mas não viu o teto de seu quarto, que era pintado de céu noturno, com aquelas estrelas e planetas que brilham após um tempo de luz incidindo sobre eles. Fechou seus olhos de novo, imaginando que estava ainda em um sonho. Mas quando os abriu novamente, lentamente, a escuridão teimou em fixar-se ao seu redor.
Apavorada, gritou pelos seus pais. Eles a vestiram rapidamente, e a levaram ao hospital de Olhos. Lá, o oftalmologista usou sua lanterninha e verificou que suas pupilas não reagiam à luz.
Fizeram uma anamnese. Descobriram que há algum tempo sua acuidade visual estava piorando. Primeiro sua visão periférica. Ela tinha que voltar seu rosto para poder realmente enxergar o que estava ao lado. Depois a sua eficiência visual foi diminuindo, e ela começou a andar mais devagar, observando mais as coisas para não tropeçar ou cair. Mas só agora estava falando isso. Primeiro porque não queria preocupar os pais, segundo porque achava que era simples stress, e que logo passaria.
Outro dia, enquanto estava na sala de espera e sua mãe havia ido ao banheiro, ela sente um cheiro estranho que se aproxima, e uma mão acaricia seu rosto dizendo: “tudo ficará bem”. Aquela sensação de uma mão estranha permanece em seu rosto.
Marcaram-se novos exames.
Ela voltou para casa, mas sua vida passou a ter novas visões literalmente. Os caminhos tão trilhados, do quarto para a cozinha ou banheiro passaram a ser labirintos obscuros e trincados, cheios de armadilhas. Tomar banho, hábito tão diário e natural, passou a ser um estranhamento constante. Para Grace era como se fosse outra mão que estivesse limpando seu corpo.
Alimentar-se. Beber água. Torturas constantes em que precisava - pessoa tão independente que era - de outros para a ajudarem. Aprendeu o sistema de relógio: arroz às seis, bife às três, batatas meio-dia, feijão às nove. Grace que tinha tanta mania de limpeza e que lavava suas mãos logo ao entrar em casa, agora tinha que enfiar um dedo em seu copo para sentir aonde a água ou suco chegava. Lavar louça! Tanto quebrou que quase pensou em comprar louça de acrílico ou plástico.
Vestir-se. Outro terrorismo da cegueira. As meias são as mesmas? As cores de roupa combinam? Percebeu que certas roupas que usava antes com frequência (segundo a família) lhe eram agora “nojentas” ao tato. Recusava-se a usar aquele vestido tão batido de outrora (hoje tão duro, tão seco, tão arranhoso no corpo). Mas a maciez de outro, que ela nunca usava antes lhe agradou tanto que preferiu usá-lo agora, pois o Sentia abraçando seu corpo, num aconchego que ela tanto necessitava. Uma segunda pele protetora.
Com o tempo ela tenta se lembrar de como é seu rosto, mas percebe que ele se desfocou e permanece como nebulosa incógnita. Desorientada, um pouco apavorada, pede para sua mãe que a descreva.
Grace, seu rosto é gracioso e feminino. Seus olhos amendoados castanho- escuros são doces como mel, suas faces rosadas são maçãs de desejos, há uma marquinha de nascença entre seus olhos -, e o seu rosto vai se desenhando com as palavras de sua mãe.

Os exames médicos foram rareando. Essa doença estranha, tratada apenas como um caso extraordinário. Chamavam-no: “O estranho caso de Grace Uei”. Ou: “a cegueira de Grace Uei”. Psicólogos, oftalmologistas, cientistas, pesquisadores do mundo todo já haviam manuseado (literalmente) Grace durante este escuro ano.
Grace acorda para mais um dia. Abre os olhos e .. surpresa! As estrelas e planetas a saúdam, como se nunca tivessem saído dali. Ou como tivessem apenas feito uma rotação ou translação e tivessem voltado ao ponto de partida. Ela olha, extasiada, suas mãos, seu quarto, o caminho até o banheiro. A alegria de poder rever todas as coisas tanto reconhecidas pelo tato. A surpresa de ver as mudanças na casa... isso tudo foi enchendo Grace de uma graça suprema.
Ao entrar no banheiro corre ao espelho.
E se assusta.
Uma criatura a encara. Uma pessoa com olhos de enxofre.    
(este conto está na coletânea "Então, é isso?" e também na revista Zunai - 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

REAL - Crônica Toda Letra - Amar pode matar.

Mais uma crônica saiu!
A primeira de setembro.
Que venha a primavera com seus renascimentos!
http://www.todaletra.com.br/cat/coluna-da-susan/

Copio aqui na íntegra, caso não queiram ir até o site. Mas recomendo que comentem por lá.

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Amar pode matar!

Por Toda Letra em 2 de setembro de 2013
Creio que todos já conheceram alguma mulher muito doce, gentil, meiga e amorosa. Cuidado! As aparências enganam. Não. Não estou dizendo que ela não é carinhosa e meiga. Ou que não ama. Sim. Ela ama. Mas este amor, esta meiguice, este carinho pode acabar matando, sufocando ou só afastando as pessoas.
Esta mulher geralmente é ótima para amizades. Mas não consegue ter um relacionamento e sempre coloca a culpa no outro. “Mas eu fiz tudo por ele!”, “Eu me dediquei. Doei-me totalmente”, “Eles são ingratos. Não sabem o que querem”. Estas são frases correntes desta mulher.
Não a culpem. Ela não tem consciência disso. Acredita de verdade que é “perfeita” e que os homens é que não sabem o que querem, afinal, eles finalmente encontraram uma pessoa incrível (inteligente, meiga, dócil, maravilhosa). Como podem não perceber isso?
Na vida, amadurecemos nos momentos certos. Conheço pessoas que são maduras com dez anos de idade. Outras com vinte. Mas a maioria amadurece quando tem trinta ou quarenta anos. Pois bem! Esta semana farei cinquenta anos. E o meu maior presente foi descobrir que sou imatura! Que ainda tenho MUITO a crescer, aprender, destruir e conhecer (de mim mesma).
É doloroso saber que tudo que acontece com você é culpa exclusivamente sua. Que de nada adianta tentar colocar a culpa nas circunstâncias, nas pessoas etc. Não devemos fazer isso nunca. Devemos perceber QUEM realmente somos.
Para estas mulheres que são Felícia (descobri um pouco dela em mim, com horror), que amam tanto que querem prender (fazendo surpresinhas, dando presentes, tentando sempre dar apoio e amor), peço que abram os olhos. Que percebam o quanto isso sufoca, o quanto acaba matando.
felícia
Deixem as pessoas e as coisas que vocês amam livres! Sei que falar é fácil. Que a mente aceita e acha bonito. Mas devemos praticar isso. Liberdade, PRATIQUEM!
Sugestão de uma mulher nada sábia? Canalizem este amor imenso com atos caridosos para quem precisa. Logo divulgarei um projeto muito bacana que espero que sirva como filete de água para diversos rios futuros.
Conhecem a velha frase de Quintana? “O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”? Alguns dizem que na verdade é outra frase: “Não corra atrás das borboletas; plante uma flor em seu jardim e todas as borboletas virão até ela” – D. Elhers. Independente da autoria, estas frases são verdadeiras!
Que o mês de setembro, com a primavera, permita esta reflexão dentro de cada um de nós! Devemos plantar amor e permitir que as flores sejam livres (não as prendam em vasos). E que venham as borboletas!
*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUC-Pr, 86) e em Letras (Universidade Federal do Paraná – UFPR, 2003). Mestre em estudos literários (UFPR, 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve quinzenalmente para a Toda Letra.