A mulher é uma fingidora.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é orgasmo
O prazer que deveras sente.
E os que sentem o sexo,
No orgasmo sentido sentem bem,
Não os dois que são sem nexo,
Mas só o que eles não têm.
E assim nos corpos enrolados
Gira, a entreter a razão,
novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......
convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais
domingo, 16 de outubro de 2016
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
REAL - São outros tempos.
Onde já se viu?
Que absurdo!
Usarem esta roupa que não pertence ao gênero dessas pessoas!
ABSURDO!
Saias são para mulheres e calças são para homens!
Nunca imaginei que estaria viva para ver este absurdo!
Homem é homem! E mulher é mulher! E devem se vestir como tais.
Um verdadeiro escândalo! Estas pessoas deveriam ser presas! Vai contra a moral, os princípios e a sociedade!
São trajes obscenos!
Isto está errado!
A verdade é outra!
..........
Estas foram frases da época em que as mulheres começaram a usar calças....
Que absurdo!
Usarem esta roupa que não pertence ao gênero dessas pessoas!
ABSURDO!
Saias são para mulheres e calças são para homens!
Nunca imaginei que estaria viva para ver este absurdo!
Homem é homem! E mulher é mulher! E devem se vestir como tais.
Um verdadeiro escândalo! Estas pessoas deveriam ser presas! Vai contra a moral, os princípios e a sociedade!
São trajes obscenos!
Isto está errado!
A verdade é outra!
..........
Estas foram frases da época em que as mulheres começaram a usar calças....

É! Parece que o mundo não evoluiu.
Uma pena!
Uma pena!
sábado, 20 de fevereiro de 2016
REAL - Adeus, Eco eco eco eco eco eco
Que tristeza! Primeiro a GRANDE Harper Lee e hoje Eco.
Ah! Eco. Por quê ? Mas agradeço profundamente pelos seus textos. Pelos seus livros que me inspiraram a escrever a bobagem que segue:
HOJE BRILHOU A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA ILUMINANDO O CAMINHO DO JOVEM YAMBO, QUE, JUNTO COM BAUDOLINO BUSCAVA DESCOBRIR SE É MOUSE OU RAT AS APOCALÍPTICAS E INTEGRADAS HISTÓRIAS. SEJAM HISTÓRIAS DA BELEZA OU DA FEIURA. OU A HISTÓRIA DAS TERRAS E LUGARES LENDÁRIOS ONDE PODEMOS ACHAR O PÊNDULO DE FOUCAULT NO NÚMERO ZERO. VOU PASSAR O DIA INDO DA ÁRVORE AO LABIRINTO ESCREVENDO TESES.
EM NOME DA ROSA EU PROMETO! VAMOS NOS ENCONTRAR! QUEM SABE NO CEMITÉRIO DE PRAGA. OU NA ILHA DO DIA ANTERIOR.
AFINAL, A OBRA É ABERTA...
Grata
Ah! Eco. Por quê ? Mas agradeço profundamente pelos seus textos. Pelos seus livros que me inspiraram a escrever a bobagem que segue:
HOJE BRILHOU A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA ILUMINANDO O CAMINHO DO JOVEM YAMBO, QUE, JUNTO COM BAUDOLINO BUSCAVA DESCOBRIR SE É MOUSE OU RAT AS APOCALÍPTICAS E INTEGRADAS HISTÓRIAS. SEJAM HISTÓRIAS DA BELEZA OU DA FEIURA. OU A HISTÓRIA DAS TERRAS E LUGARES LENDÁRIOS ONDE PODEMOS ACHAR O PÊNDULO DE FOUCAULT NO NÚMERO ZERO. VOU PASSAR O DIA INDO DA ÁRVORE AO LABIRINTO ESCREVENDO TESES.
EM NOME DA ROSA EU PROMETO! VAMOS NOS ENCONTRAR! QUEM SABE NO CEMITÉRIO DE PRAGA. OU NA ILHA DO DIA ANTERIOR.
AFINAL, A OBRA É ABERTA...
Grata
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
REAL - Adiós, Gran Cronópio!
Na faculdade de Letras tive contato com um conto que jamais esqueci: Casa Tomada. Então me apaixonei pelo escritor e comecei a ler de tudo sobre ele e dele. Julio Cortázar povoou minha mente e alma com seus coelhinhos vomitados, sua máquina de matar formigas, os motecas, a continuidade dos parques.... mas principalmente pelo romance 62 modelo para armar (o meu romance favorito e tema do doutorado). Infelizmente ele se foi. Há 32 anos, neste dia de 12 de fevereiro, ele se juntou ao seu amor, no cemitério de Montparnasse.
Não tenho tudo que ele publicou (infelizmente), mas o que tenho está bem guardado e volta e meia releio.
Para ele, hoje, farei uma pequena homenagem.
Não tenho tudo que ele publicou (infelizmente), mas o que tenho está bem guardado e volta e meia releio.
Para ele, hoje, farei uma pequena homenagem.
Deixo aqui um conto dele.
*****************
NINGUÉM TEM CULPA
O frio sempre complica as coisas, no verão se está tão próximo do mundo,
tão pele contra pele, mas agora, às seis e meia, sua mulher o espera em uma loja
para escolher um presente de casamento; já é tarde e percebe que está frio, tem
que vestir o pulôver azul, qualquer coisa que combine com a roupa cinza, o outono é
um pôr e tirar pulôveres, ir se fechando, afastando. Sem vontade, assobia um tango,
enquanto se afasta da janela aberta, busca o pulôver no armário e começa a vesti-lo
diante do espelho. Não é fácil, talvez por culpa da camisa que adere à lã do pulôver,
mas custa-lhe fazer passar o braço; pouco a pouco vai enfiando a mão, até que por
fim assoma um dedo fora do punho de lã azul, mas à luz do entardecer o dedo tem
um aspecto como de enrugado e encolhido, com uma unha negra terminada em
ponta. Com um puxão, arregaça a manga do pulôver e olha para a mão como se
não fosse sua, mas agora que está fora do pulôver vê-se que é sua mão de sempre
e ele a deixa cair na extremidade do braço solto, e pensa que o melhor será meter o
outro braço na outra manga para ver se assim fica mais fácil. Pareceria que não é
porque, apenas a lã do pulôver se grudou na fazenda da camisa, a falta de costume
de começar pela outra manga dificulta ainda mais a operação, e, ainda que tenha
recomeçado a assobiar para se distrair, sente que a mão avança lentamente e que,
sem alguma manobra complementar, não conseguirá nunca fazê-la chegar à saída.
Melhor tudo ao mesmo tempo, abaixar a cabeça para enfiá-la à altura da gola do
pulôver, enquanto mete o braço livre na outra manga, endireitando-a e puxando
simultaneamente com os dois braços e o pescoço. Na repentina penumbra azul que
o envolve, parece absurdo continuar assobiando. Começa a sentir como um calor no
rosto, ainda que parte da cabeça já devesse estar de fora, mas a testa e todo o rosto
continuam cobertos e as mãos só andam pela metade das mangas; por mais que
puxe nada vem para fora e agora pensa que talvez se tenha enganado nessa
espécie de cólera irônica com que reiniciou a tarefa, e que cometeu a bobagem de
meter a cabeça em uma das mangas e uma mão na gola do pulôver. Se fosse
assim, sua mão teria que sair facilmente, mas, ainda que puxe com todas as suas
forças, não consegue fazer avançar nenhuma das mãos, embora, em troca, pudesse
parecer que a cabeça está a ponto de abrir caminho, porque a lã azul aperta-lhe
agora com uma força quase irritante o nariz e a boca, sufoca-o mais do que tivesse
podido imaginar, obrigando-o a respirar profundamente enquanto a lã vai se
umedecendo junto à boca; provavelmente desbotará e manchará seu rosto de azul.
Por sorte, nesse mesmo momento, sua mão direita assoma ao ar, ao frio de fora,
pelo menos uma já está fora, ainda que a outra continue presa na manga. Talvez
fosse certo que sua mão direita estivesse metida na gola do pulôver; por isso, aquilo
que ele pensava fosse a gola, lhe está apertando dessa maneira o rosto, sufocando-o
cada vez mais, e, em troca, a mão pôde sair facilmente. De todos os modos, e
para estar certo, o que unicamente pode fazer é continuar abrindo caminho,
respirando fundo e deixando escapar o ar pouco a pouco, ainda que seja absurdo,
porque nada o impede de respirar perfeitamente, só que o ar que respira está
misturado com penugens de lã da gola ou da manga do pulôver, e além disso há o
gosto do pulôver, esse gosto azul da luz que deve estar manchando o rosto, agora
que a umidade do respirar se mistura cada vez mais com a lã, e ainda que não
possa vê-lo, porque se abre os olhos as pestanas tropeçam dolorosamente com a lã,
está convencido de que o azul vai envolvendo sua boca molhada, os buracos do
nariz, toma conta das bochechas, e tudo isso o vai enchendo de ansiedade, e
gostaria de pôr de uma vez o pulôver, sem contar que deve ser tarde e sua mulher
estará se impacientando à porta da loja. Diz a si mesmo que o mais sensato é
concentrar a atenção em sua mão direita, porque essa mão fora do pulôver está em
contato com o ar frio do quarto, é como um aviso de que já falta pouco e além disso
pode ajudá-lo, ir subindo pelas costas até agarrar a borda inferior do pulôver, com esse movimento clássico que ajuda a vestir qualquer pulôver, puxando
energicamente para baixo. O pior é que ainda que a mão apalpe as costas,
procurando a fímbria de lã, parece que o pulôver ficou completamente enrolado
perto do pescoço e a única coisa que a mão encontra é a camisa cada vez mais
enrolada e até um pouco saída das calças, e de pouco serve trazer a mão e querer
puxar pela frente do pulôver, porque sobre o peito não sente mais que a camisa, o
pulôver mal deve ter passado pelos ombros e estará aí enrolado e tenso, como se ele tivesse os ombros largos demais para esse pulôver, o que, em definitivo, prova
que realmente se enganou e meteu uma mão na gola e a outra em uma manga, com
o que a distância que vai da gola a uma das mangas é exatamente a metade da que
vai de uma manga a outra, e isso explica que ele tenha a cabeça um pouco caída
para a esquerda, do lado onde a mão continua prisioneira na manga, se é a manga,
e que, ao invés disso, sua mão direita, que já está fora, se movimente com toda
liberdade no ar, embora não consiga fazer baixar o pulôver, que continua como que
enrolado no alto do seu corpo. Pensa, ironicamente, que se houvesse uma cadeira
perto poderia descansar e respirar melhor, até vestir inteiramente o pulôver, mas
perdeu a orientação depois de haver girado tantas vezes nessa espécie de ginástica
eufórica, que inicia sempre a colocação de uma peça de roupa e que tem algo de
passo de ballet dissimulado, que ninguém pode recriminar, porque corresponde a
uma finalidade utilitária e não a culpáveis tendências coreográficas. No fundo, a
verdadeira solução seria tirar o pulôver, pois não pôde vesti-lo, e verificar a entrada
correta de cada mão nas mangas e da cabeça na gola, mas a mão direita continua
indo e vindo desordenadamente, como se já fosse ridículo voltar atrás a essa altura
das coisas, e em dado momento até obedece e sobe à altura da cabeça e puxa para
cima, sem que ele compreenda a tempo que o pulôver grudou no seu rosto, com a
gomosidade úmida do respirar misturado com o azul da lã, e quando a mão puxa
para cima é uma dor como se lhe despegassem as orelhas e quisessem arrancar-lhe
as pestanas. Então, mais devagar, é preciso utilizar a mão metida na manga
esquerda, se é a manga e não a gola, e para isso, com a mão direita, ajudar a mão
esquerda, para que possa avançar pela manga ou retroceder e se livrar, embora
seja quase impossível coordenar os movimentos das duas mãos, como se a mão
esquerda fosse um rato metido em uma gaiola e de fora outro rato quisesse ajudá-lo
a fugir, salvo se, em vez de ajudá-lo, o esteja mordendo, porque, de súbito, dói sua
mão prisioneira e, ao mesmo tempo, outra mão se crava, com todas as suas forças,
nisso que deve ser sua mão e que lhe dói, dói a tal ponto que desiste de tirar o
pulôver, prefere tentar um último esforço para pôr a cabeça fora da gola, e o rato
esquerdo fora da gaiola, e tenta lutando com todo o corpo, atirando-se para diante e
para trás, girando no meio do quarto, se é que está no meio, porque agora consegue
pensar que a janela ficou aberta e que é perigoso continuar girando as cegas.
Prefere parar, ainda que sua mão direita continue indo e vindo sem se ocupar do
pulôver, ainda que sua mão esquerda doa cada vez mais, como se tivesse os dedos
mordidos ou queimados e, entretanto, essa mão o obedece. Contraindo pouco a
pouco os dedos lacerados, consegue agarrar, através da manga, a fímbria do
pulôver enrolado no ombro, puxa para baixo quase sem força, dói muito e faria falta
que a mão direita ajudasse, em vez de subir ou baixar inutilmente pelas pernas, em
vez de lhe beliscar a coxa, como está fazendo, arranhando-o e o beliscando através
da roupa, sem que o possa impedir, porque toda a sua vontade acaba na mão
esquerda; talvez tenha caído de joelhos e se sente como que pendurado da mão
esquerda, que puxa ainda uma vez mais o pulôver e, de repente, é o frio nas
sobrancelhas e na testa, nos olhos. Não quer abrir os olhos absurdamente, mas
sabe que pulou para fora, essa matéria fria, essa delícia é o ar livre, e não quer abrir
os olhos e espera um segundo, dois segundos, deixa-se viver em um tempo frio e
diferente, o tempo do lado de fora do pulôver, está de joelhos e é belo estar assim,
até que, pouco a pouco, reconhecidamente entreabre os olhos livres da baba azul
da lã do lado de dentro, entreabre os olhos e vê as cinco unhas negras suspensas
apontando para seus olhos, vibrando no ar antes de saltar contra seus olhos, e tem
tempo de baixar as pálpebras e jogar-se para trás, cobrindo-se com a mão esquerda
que é sua mão, que é tudo o que lhe resta para se defender de dentro da manga,
para que puxe para cima a gola do pulôver e a baba azul envolva outra vez seu
rosto, enquanto se levanta para fugir a outra parte, para chegar afinal a alguma parte
sem mão e sem pulôver, onde somente haja um ar ruidoso que o envolva e o
acompanhe e o acaricie e doze andares.
Espero que tenham gostado do conto de Cortázar. Ele é assim. Um "tenebroso domiciliar". hehe
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
FELIZ ANO NOVO - 2016
O ser humano tem a tendência de sempre reclamar do ano que passou, desejando que no ano seguinte seja tudo diferente.
Mas o interessante é que geralmente não percebemos que o ano que passou foi ruim ou bom por causa de nós mesmos... e o ano que virá será a mesma coisa.
Temos a tendência de esperar que ALGO aconteça, que ALGUÉM faça algo para as coisas melhorarem.
Mas... e a NOSSA responsabilidade?
Enquanto não tivermos a consciência que MUITO depende de nós mesmos (nem que seja a forma diferente de ver algo ruim), nada mudará.
Falamos da mineradora que não cuidou dos dejetos. E nós? Cuidamos de nossos dejetos? Este ano que passou escutei uma amiga dizendo que não sabia que ao colocar o lixo que não é lixo no local correto, deveria lavar antes (exemplo: a caixa de leite) - isso porque ela me ouviu dizendo que eu sempre lavava (sejam latas, caixas, etc.. que vão para a reciclagem, eu sempre lavo e seco.)
Este é só um exemplo de como podemos achar que fazemos tudo certo, mas não fazemos.
Devemos levar isso para outras coisas, como por exemplo, o que falamos e como falamos com as pessoas.
Assim, devemos cuidar de nossas ações sim, além dos pensamentos e sentimentos. Pois tudo que está dentro de nós, nos contamina.
Mas na verdade o que quero deixar aqui como mensagem é um texto que li quando criança pequena e que sempre me fascinou.
Artigo I
Mas o interessante é que geralmente não percebemos que o ano que passou foi ruim ou bom por causa de nós mesmos... e o ano que virá será a mesma coisa.
Temos a tendência de esperar que ALGO aconteça, que ALGUÉM faça algo para as coisas melhorarem.
Mas... e a NOSSA responsabilidade?
Enquanto não tivermos a consciência que MUITO depende de nós mesmos (nem que seja a forma diferente de ver algo ruim), nada mudará.
Falamos da mineradora que não cuidou dos dejetos. E nós? Cuidamos de nossos dejetos? Este ano que passou escutei uma amiga dizendo que não sabia que ao colocar o lixo que não é lixo no local correto, deveria lavar antes (exemplo: a caixa de leite) - isso porque ela me ouviu dizendo que eu sempre lavava (sejam latas, caixas, etc.. que vão para a reciclagem, eu sempre lavo e seco.)
Este é só um exemplo de como podemos achar que fazemos tudo certo, mas não fazemos.
Devemos levar isso para outras coisas, como por exemplo, o que falamos e como falamos com as pessoas.
Assim, devemos cuidar de nossas ações sim, além dos pensamentos e sentimentos. Pois tudo que está dentro de nós, nos contamina.
Mas na verdade o que quero deixar aqui como mensagem é um texto que li quando criança pequena e que sempre me fascinou.
Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que, sobretudo, tenha sempre o quente sabor da ternura.
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que, sobretudo, tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Por fim, faça suas promessas para 2016. Mas pense bem no que pretende prometer para vc mesmo. Afinal, você não vai querer deixar de cumprir para a pessoa mais importante de sua vida, não é?
(Texto e fotos: Susan Blum)
terça-feira, 20 de outubro de 2015
FICÇÃO - Expresso
Passos rápidos porém abafados e antes que ela pudesse se virar uma mão fedida tapa a sua boca. Uma mão com cheiro de mijo podre.
Entre o Mossunguê e o Imperial. Uma faca fria é encostada em sua garganta. Bem que a avisaram que não devia ir a pé por ali. Mas sua carona se enganou na quadra e a deixou por ali indo embora... A mão libera a sua boca e vai para os seus seios.
Desespero. Rua vazia. Dez e quarenta da noite. Lâmpada queimada.
Ou quebrada?
Nojo. Vontade de gritar. Vontade de vomitar.
Ela sente um réstea de esperança ao ver as luzes de um Expresso que se aproxima. É puxada um pouco mais para dentro do mato, mas resiste um pouco e observa os passageiros na esperança de fazer algum sinal.
Porém, tudo o que vê são 13 pares de olhos dormindo (com a cara amassada na janela), 137 pares de olhos grudados em seus celulares (com o cérebro amassado no visor) e um par lendo um livro.
Novo desespero. O expresso está passando e não há mais esperança.
Mas....
ali!
No fundo do ônibus!
Dois olhos cravados nela e no seu estuprador que já lhe arrancou a blusa e está tirando sua saia.
Ela quase que sorri achando que algo será feito. O passageiro irá gritar! Irá pedir que o motorista pare para todos ajudarem a pobre moça! Está salva!
Até que percebe, na última curva do Expresso: o olhar tem cheiro de mijo podre.
Entre o Mossunguê e o Imperial. Uma faca fria é encostada em sua garganta. Bem que a avisaram que não devia ir a pé por ali. Mas sua carona se enganou na quadra e a deixou por ali indo embora... A mão libera a sua boca e vai para os seus seios.
Desespero. Rua vazia. Dez e quarenta da noite. Lâmpada queimada.
Ou quebrada?
Nojo. Vontade de gritar. Vontade de vomitar.
Ela sente um réstea de esperança ao ver as luzes de um Expresso que se aproxima. É puxada um pouco mais para dentro do mato, mas resiste um pouco e observa os passageiros na esperança de fazer algum sinal.
Porém, tudo o que vê são 13 pares de olhos dormindo (com a cara amassada na janela), 137 pares de olhos grudados em seus celulares (com o cérebro amassado no visor) e um par lendo um livro.
Novo desespero. O expresso está passando e não há mais esperança.
Mas....
ali!
No fundo do ônibus!
Dois olhos cravados nela e no seu estuprador que já lhe arrancou a blusa e está tirando sua saia.
Ela quase que sorri achando que algo será feito. O passageiro irá gritar! Irá pedir que o motorista pare para todos ajudarem a pobre moça! Está salva!
Até que percebe, na última curva do Expresso: o olhar tem cheiro de mijo podre.
domingo, 11 de outubro de 2015
FICÇÃO - Mors janua vitae
O amor é vida quando
não é morte; é berço e também sepultura.
(Victor Hugo)
Paz. Era o que sempre sentia quando passeava pelo campo
santo, de noite. Muita paz. Gostava destes passeios noturnos, pois o fazia
esquecer um pouco da perda terrível que tivera anos antes. Em um acidente de
carro perdera toda a família: pai, mãe e irmãos. Ele ficou sozinho. De repente
a sombra do grande ser alado inundou seu espaço. Desceu e pousou suavemente -
apesar de tão grotesco - na sua frente. Assustou-se, achando que a coisa era
com ele. Mas a dor que seguiu foi bem maior!
– Sonatta, vou ter que levar sua amada, a sua Alma.
– Minha alma? Ou minha amada Alma? – perguntou, finalmente
reconhecendo quem era.
– Não confunda as coisas. Está na hora dela. Sei que vocês
se amam, por isso acho melhor ser você a avisá-la. Diga que se prepare, pois em
sete noites a levarei. É apenas um ritual, uma introdução, uma revelação. Ela
nada deve temer. É apenas uma passagem.
– Não pode ser 13 noites? Pretendíamos viajar um pouco. –
Segurou a tempo a piadinha de humor negro – mas não segurou a tempo a
raiva diante daquele ser mais que grotesco –
Oh, ser funesto! O que queres com minha amada Alma?
O ser que ele chamou de funesto parecia ter dado um sorriso
e um leve dar de ombros (como se tivesse rosto) – Está na hora de eu levá-la.
- NÃO! – gritou Sonatta. NÃO vou permitir isso!
- Tenha calma meu amigo. Apenas sigo ordens superiores. Não
sou eu quem decide.
- Mas vocês não podem fazer isso! Ela está aqui há bem menos
tempo que eu. Não é justo! Ela chegou aqui depois de mim. Teve pouco tempo
aqui! Não é justo!
- Justiça? Não se trata de justiça, meu amigo. A vida e a
morte nem sempre são justas. Tenho consciência de que nem todos querem ser
levados daqui para lá. Mas apenas cumpro minha obrigação. É a lei natural das
coisas. E sobre o pouco tempo dela aqui com você: se o amor de vocês é
verdadeiro, vocês vão se reencontrar do lado de lá. Em outras vidas. Não
acredita nisso?
- O que posso fazer? Peça! Peça o que quiser! Por mais que
tenhamos outros encontros, é nesse que quero permanecer com minha amada, pelo
menos por mais um tempo.
– Calma... logo vocês terão um reencontro de carnes. Já lhe
disse que nada posso fazer. Caso não tenha percebido, aqui não há corrupção. Já
perdi muito tempo aqui. Apenas avise-a que em 7 noites voltarei para buscá-la.
Que ela esteja pronta. Que a alma dela esteja pronta para ser levada ao outro
lado.
Finalizando suas palavras, este ser gigantesco abriu as asas
enormes e voou. Sonatta lá permaneceu, como uma daquelas estátuas de mármore, tentando
se convencer de que tudo foi uma ilusão dele. Que aquele ser era uma das
artes cemiteriais imóveis - como ele naquele momento. Totalmente petrificado pelo
horror da perda que logo teria. Mas como um sinal da realidade, uma pluma
branca daquele Ser pairou no ar, quebrando a pétrea atmosfera, encontrando Sonatta
mortificado pela notícia.
O peso da pluma lhe abriu os olhos e tentou tomar consciência do fato. A
leveza habitual que ele sentia no campo santo se transformou em um lodaçal
profundo que lhe tragava os pés como se houvessem bolas de chumbo acorrentadas
neles.
Foi se arrastando para casa, sentindo um odor fétido por
todo o caminho. Sentia-se entrando em uma cova funda. Enterrou-se em sua dor.
Lá dentro, acabou recordando de vários contos que sua
mãe contava. Ela era uma mulher incrível, amava música e poesia (daí o
nome dele) e vivia lhe contando histórias. Sonatta não recordava o nome do conto
"creio que era Minha vida querida" - pensava, mas falava de um homem que amava sua noiva e que um dia a Morte viera buscá-la. Ele propôs dar metade de sua vida para a futura esposa. E assim foi feito, até que um dia...
Mas agora não era hora dele pensar em historinhas. Este Ser alado de hoje de noite não aceitaria que ele doasse metade dos seus anos aqui. Ele foi bem categórico.
"creio que era Minha vida querida" - pensava, mas falava de um homem que amava sua noiva e que um dia a Morte viera buscá-la. Ele propôs dar metade de sua vida para a futura esposa. E assim foi feito, até que um dia...
Mas agora não era hora dele pensar em historinhas. Este Ser alado de hoje de noite não aceitaria que ele doasse metade dos seus anos aqui. Ele foi bem categórico.
O que poderia fazer? Pensou então em fugir com ela. Viajar
pelo mundo, sempre escapando do olhar tenebroso daquele ser alado. Ah, se
tivesse a capa da invisibilidade do conto dos três irmãos. Poderia então fugir
deste destino fatal. Mas então lembrou de novo de sua mãe, e de uma certa história
de "alguma coisa em Samarra". Com esta história recordou que ninguém
foge do destino maldito. Isso tinha que
acontecer justo com ele? Estava enterrado em uma sepultura escura quando
finalmente Alma o resgatou dali depois do acidente de sua família. E agora
teria que perder Alma? Não aguentaria!
Ali permaneceu por dois dias, não queria pensar no assunto, enterrou-se
em seus próprios pensamentos e dores. Não queria falar sobre isso com ninguém. Este sumiço preocupou Alma que foi procurá-lo.
Ela de novo o alforriou, como na vez do acidente. Foi depois dele que Sonatta
conheceu Alma. Foi um encontro de almas.
Eles não estavam juntos há muito tempo (apesar do tempo
ser algo relativo). Assim, em respeito à ela, Sonatta procurou ficar alegre
ao lado dela, mas a cada instante sentia o peso e o vento do pêndulo do relógio
como uma foice prestes a cair sobre os dois.
Passou a contar o tempo somente a
partir desta remissão.
Então, nesta primeira noite, saí com Alma e ficamos
passeando pelo terreno santo do amor e da paz. Foi uma noite memorável, com
imensas trocas de energias de nossas almas e espíritos. Senti a Alma dentro de
mim com todas as nossas forças. E sei que ela sentiu o mesmo. Nada haveria de acontecer. Foi tudo um sonho.
Terei a Alma comigo para sempre. Declamei para ela o Soneto de Fidelidade, ela
me abraçou forte e lá ficamos, admirando a Lua Cheia. Nada iria nos separar! - Minha
Alma! Minha Alma! Eu suspirava de
prazer.
Na segunda noite senti que a raiva se apossou de mim com uma
força destruidora. Blasfemava, praguejava contra Ele. Por que comigo? Por que
com ela? Por que conosco? Não era justo! Ela estava aqui há menos tempo que eu.
Não merecia isto! Eu queria bater em todos que se aproximassem dela (se isto
fosse possível). O ódio que eu sentia era imortal. Se fosse possível acho que
mataria o ser alado para que ele não levasse Alma de mim. Lembrei-me do conto
Mineirinho, de Clarice Lispector. Fazer justiça com as próprias mãos. Era justo
que Alma ficasse aqui comigo. - Minha Alma! Minha Alma! Eu rosnava entre os soluços!
Na terceira noite eu me lembrei de um conto de Malba Tahan
que minha mãe contou certa vez. Comentei sobre ele lá no início, lembra? E comecei
a pensar na possibilidade de doar metade de minha existência ali (metade de
meus anos), para que ela pudesse permanecer comigo. Cheguei a cogitar esta
possibilidade diversas vezes. Afinal, ela era “minha vida querida”. Implorei
que o Ser alado viesse ao meu encontro para discutirmos possibilidades. Mas
eles sequer apareceram para conversar comigo. Devem ter ouvido meus lamentos e
lamúrias. Mas não se dignaram a negociar comigo. - Minha Alma! Minha Alma! Eu me lamentava.
Na quarta noite me enfiei em uma cova profunda. Nada me
tirava de lá. Sequer a voz da doce Alma que me alcançava lá no fundo do poço
conseguiu me trazer à tona. Eu apenas queria o sono eterno. Eu queria apenas
vestir o paletó de madeira. A impotência perante os fatos me deixava melancólico.
Neste momento funesto apenas recordava de poemas de Poe, como Ulalume, Anabell
Lee e o corvo. Nunca mais veria Alma. Nunca mais. - Minha Alma! Minha Alma!
Sussurrava com melancolia.
Na quinta noite algo estranho aconteceu. Uma certa calma e lucidez
começaram a transbordar em mim. Uma doce e suave aceitação começou a penetrar
em meu espírito. Um suspiro imensíssimo como se fosse o último alento iniciou
dentro de mim. Lembrei-me do conto Amor, de Clarice Lispector. Eu sabia que não
era justo que eu afastasse Alma da Vida. Ela merecia viver. Fui ao encontro de minha Alma. Eu queria apenas a
felicidade dela. Eu queria apenas... Minha Alma! Minha Alma!
Quando ela me viu indo ao seu encontro soltou a velha piadinha que sempre achei sem graça, mas que hoje me causou arrepios. "ora, ora, quem é vivo sempre aparece" e deu sua risadinha suave de sempre. Resolvi que deveria contar para ela. Estava decidido. Tudo
já estava decidido! Passeando com Alma, naquele vermelho-celta do final do dia que
anunciava o fim de um amor tão lindo, eu sabia que devia contar para Alma de sua partida desse
mundo.
Justamente quando me veio este alívio imenso, esta aceitação
tranquila, para contar para minha Alma sobre o Ser alado que viria buscá-la, a
sombra dele apareceu, e com um golpe de seu instrumento longo e afiado, ele
sibilou: – Alma, chegou sua hora!
Em um relance vi o olhar surpreso e assustado de Alma. Eu
queria contar. Sério! Eu ia contar hoje. Mas era tarde demais. Não percebi como
os grãos de areia caíram rápido na nossa ampulheta do amor. E então só me
restou isso: vê-la sendo levada para o outro mundo.
Era tarde demais! Ela já estava com um pé no berço!
(Texto: Susan Blum. Imagens: retiradas da internet).
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