novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......
convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

FICÇÃO - O médico e o monstro

Eugenio gostava muito de brincar de médico - profissão que pretendia seguir quando crescesse, junto com a de cientista, pois tinha a intenção de criar a máquina de viagem no tempo.
Na semana anterior brincou muito com seu priminho, de médico.
- Chickabiddy*, tire toda a sua roupa. Vou examinar você. 
E seu priminho menor, 4 anos mais novo, tirava sua roupa.
Mas hoje, Eugenio estava brincando com um boneco. Sua mãe o adorava, pois via muita bondade nele: Eugenio afirmava que adotaria uma criança quando fosse médico.
Acima de sua cama o pôster de 2001 (uma odisseia no espaço) lhe lembrava de seus sonhos científicos.
Mas neste momento ele estava mais ocupado em retirar a roupa do boneco.
Foi então que uma bola de luz forte invadiu seu santuário, materializando em sua frente um homem de barba que, sorrindo de forma meiga, lhe perguntou:
- Eugenio Chipkevitch?
Eugenio, ainda de boca aberta, apenas assentiu com sua cabecinha infantil.
Então o homem lhe disse: - eu sou você no futuro, Chickabiddy.
O menino se iluminou e foi logo perguntando:
- Que legal! E o que eu vou ser no futuro?
O homem foi até a porta, fechou-a com a chave, e com a fala mansa e doce respondeu, se aproximando de Eugenio.

(Texto: Susan Blum. Imagens: internet)  *Chickabiddy é amorzinho em ucraniano.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

REAL - Feliz 2015 a todos

Desta vez nada de reflexões mais longas ou profundas.
Apenas postarei algo que aprendi este ano (desta vez na pele).

Que o ano de 2015 seja frágil como este passarinho (um filhote de quero-quero). Porque assim nós cuidamos dele. caso contrário, se ele viesse forte e pronto, não daríamos tanta atenção. E precisamos, mais que nunca, aprender a cuidar! A ter responsabilidades. E ASSUMIR estas responsabilidades. nada vem por acaso. Tudo é fruto do que pensamos, sentimos e fazemos.
Então pense o seu melhor. Sinta o seu melhor. E faça o seu melhor.
Assim, com certeza, seu 2015 será PERFEITO (dentro do seu melhor).
Que venha o novo ano. Com MUITA LUZ!

(Texto e fotos: Susan Blum)

domingo, 21 de dezembro de 2014

FICÇÃO - No meio do caminho tinha um corpo

No meio do caminho tinha um corpo.
Tinha um corpo no meio do caminho
No meio do caminho tinha um corpo
que todos queriam fazer esquecer.
Desviavam - já de longe - para não ter que ver.
No meio do caminho tinha um corpo
Tinha um corpo no meio do caminho.
Mas a culpa não é minha.
E nem do Raimundo.
Mas do Mundo.
Para que rima Meu Deus, se eu quero solução!

(Texto e foto: Susan Blum)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

FICÇÃO - HOHOHO




Olhos lambendo a barba branca de algodão. Sorriso com pequena babinha de medo pelo grandalhão. Alma piscando de luzinhas. Ir ao Centro com a mãe e encontrá-lo em algumas lojas era sua maior alegria de Natal.
Seu sonho era ganhar um “certo” presente de Natal. Mas em nenhum ano ganhava o que queria. Mesmo assim amava cada vez mais o Papai Noel. Que delícia poder fazer a alegria das crianças. Dar presentes aos bonzinhos.
Os anos ventavam, alguns anos furacão, outros redemoinho, outros leve brisa.
Adulto, vivia de pequenos trabalhos, fazendo bicos. Casou, descasou, bebeu, deixou de beber. Chegou até a morar nas ruas por uns tempos. Seu rosto foi castigado pelas ventanias. Seus cabelos e barba compridos neblinaram. Morava de favor nos fundos da casa do filho.
Um dia, andando pelo Centro, no final do ano, o dono de uma loja o chamou. Ofereceu um trabalho. Alma piscando, sorriso com baba, presente recebido. Ganhou o que sempre quis. 

(Texto: Susan Blum. Imagens: Norman Rockwell)

sábado, 8 de novembro de 2014

REAL (com ficção) - texto e imagem (foto de Sofia Piantavani)

Por vezes me inspiro rapidamente com imagens de amigos ou textos deles.
Desta vez não foi diferente. Minha amiga Sofia Piantavani tirou esta foto hoje e inseriu um texto que reproduzo aqui:

" - E essa sujeira toda!! Quem é que vai limpar?? 

Assim falava a dona de casa com TOC 

[transtorno obsessivo compulsivo]"

Paço da Liberdade
08/11

 Daí me veio a pronta resposta:
"- E essa beleza toda!!
Quem é que vai mirar?"

"E essas flores todas!!
Quem é que vai chorar?"

"E essas falas tolas!!
Quem é que vai amar?"

FIM
(graças a Deus dirão vocês!)

sábado, 1 de novembro de 2014

FICÇÃO - A BOCA (texto de Magro)



“Tu podes ser senhor do que falas; mas serás um eterno escrevo do que dizes”
(Lao_Tsé)


 A boca, inconsequente e delirante, como era, escancarou-se num berro alto e indevido.

      - Basta!

      Foi um basta, gritado, extraído com dor do fundo do corpo, sem anestesia, sem carinho, deixando vago na alma, seu suposto espaço.
      O grito; o basta, extrapolou a barreira do corpo, ressonou nas paredes próximas, quebrou vidraças e ganhou a liberdade das ruas.
      Sujo de saliva e sangue, misto de onda sonora e corpo vivente, era um basta consistente e concreto.
      A boca, havia sido criada para aquilo, ser o que era, fazer o que vinha há séculos fazendo, quieta, resignada, calada e cordeira. Ele, menino, filho, homem, esposo e pai.
      Trabalho, casa; casa, trabalho.
      Sentiu; homem, dores de parto; nadou em amores renegados, andou descalço em saldos sem fundos, em contas, em desamores, em trabalhos e em casas. Trabalho, casa; casa, trabalho.
      Cérebro metálico, peça quase biomecânica, tão frio e controlado que era, não deixava transparecer nada, a não ser o traço de despreocupação e contentamento, na face externa e diariamente estudada.
      Mas a boca; sempre ela, tentava falar, como um vício difícil de largar, como uma praga daninha que não se aquieta e não desiste de invadir o calmo campo semeado de candura.
      Boca safada, insistente e atrevida, querendo fazer-se pensante, metida à massa cefálica.
      Boca controlada a força, camisa de força feita de nervos e remorsos; temores e preocupações. Contida com esforço em prisão domiciliar.
     Cérebro, atento a tantos outros tentos, tantos outros tortos, tantos outros outros; que se cansa, e como corpo, fraqueja e manca.
      A boca matreira, esperta e louca, aproveita a deixa e berra!
      Manda à merda a terra, a casa, a vida; a fera.
      Abre, se escancara e, como simples fosse, grita:


      - Basta! 


(Texto: Moacir Costa - Magro.  Imagens: Internet)
Gostou? Tem outros textos do Magro aqui no blog:
http://novelosnadaexemplares.blogspot.com.br/2014/04/ficcao-bala-perdida-de-moacir-costa.html

sábado, 18 de outubro de 2014

FICÇÃO - Salvador Dali

Um dos meus pintores favoritos é o surrealista Salvador Dali.

Os meus favoritos de primeiro lugar são La Tour e Van Gogh.


Os meus favoritos de segundo lugar são Escher e Banksy


Os meus favoritos de terceiro lugar são Magritte, Dali e Rockwell.




Mas, continuando, senão vou aos meus favoritos de centésimo lugar :D

Umas brincadeirinhas com Salvador Dali.

Ah. Salvador! Uma dor salva na minha alma daqui. Roda valsa com passos daqui e dali. Rosa alva de poesia. Avi Dollars.


Apenas fios soltos e bobos. Mas com um pouco de amostragem do que gosto.





sexta-feira, 17 de outubro de 2014

REAL - Crônica imaginada.

Hoje eu deveria ter ido ao encontro do Criaturas Crônicas (um grupo de pessoas de Curitiba que marca em locais diferentes para escrever crônicas). Mas a chuva foi tão tamanha e como sei que o local por ali sempre dá enchente em dia de chuva, resolvi ficar em casa. Então tentei me imaginar lá no Supermercado (local de encontro) e escrevi uma crônica imaginária. Boa leitura.

Mercado Ama.

Pelo canto dos meus olhos observo:
o velhinho não tão conservador, com os escorridos olhos de sardinha para a senhorinha pepinosa, mas conservada, que estufava seus peitinhos de codorna.
 

a criança pequena estourando em mil ois para todos que a ouviam.
o solteiro desenlatando palavras frígidas para a resfriada franguinha.
o pão fresco o é em demasia e não devolve o olhar lambido da lambisgoia que está com o namorado da peixaria.
enfim, todos saem vazios com suas sacolas cheias. Só a caixa sai de mãos vazias e entra no carro do pão que gosta de coelho, ou melhor, de gata.
(Texto: Susan Blum. Imagens: internet).

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

REAL - Sinais

Você já viu aquele filme: "Sinais"?
Pois é. Não é dele que vou falar.
Já viram esta placa em algum lugar daqui de Curitiba? 

Pois é, até vou contar um "causo" sobre algo que aconteceu comigo. Mas também não é o meu foco agora. 

O foco é só uma brincadeirinha sobre algo real. BEM real:

O meu Claro escureceu. O meu Vivo morreu. O meu Tim ficou tãtã. O meu Oi deu tchau faz tempo. Sinal que é bom ninguém quer dar. Nem o celular.

Agora o "causo": sempre que vou atravessar uma esquina, olho se nenhum carro está fazendo sinal que vai entrar na rua em que estou. Pois bem, um dia um carro entrou do nada (sem fazer sinal) e quase me atropelou. Fiquei braba e gritei:
- Faz sinal!
Para minha surpresa ele colocou a mão para fora e fez.

Porém, pensem bem: esta placa serve para diversas coisas: sinal do motorista para os ciclistas e pedestres poderem se organizar, sinais dos celulares que não existem, sinais de vida de outros planetas, sinal de entrada em alguma compra. ADORO ambiguidades.
Este post é apenas para uma pequena reflexão.
Beijos a todos e lembrem de dar sinal!
(o sinal certo!)

REAL - Lógica infantil.


Dentro do Circular-Centro vejo o pai com a menina de uns sete anos.
Ela conversa animadamente com ele e sento o mais próximo possível, pois gosto quando vejo pais que conversam com seus filhos.
Ela dizia, convicta, para seu pai:

- Quando eu crescer quero ser médica, advogada, bailarina, bombeira e veterinária.
- Mas filha, é muita coisa. Como você vai fazer?
- Ué! A semana não tem sete dias? Então. 
E daí ela abriu suas mãozinhas e foi apontando nos dedos:
- Segunda sou advogada, terça sou bailarina, quarta sou médica, quinta sou bombeira, sexta sou veterinária.



É. A lógica infantil faz sentido. E ela ainda tem o sábado e o domingo para ser fotógrafa, pintora, dançarina ou o que mais desejar. 
Pois afinal de contas, "não sabendo que era impossível, ela foi lá e fez!"
Lembrei então de minha mãe que sempre me diz que desde pequena eu mostrava o que queria ser. 
Eu voltava do Jardim de Infância e depois do almoço, colocava todas as bonecas e bichinhos que tinha em casa em "carteiras imaginárias no chão", ficava apontando para um "quadro de giz imaginário" e dava aulas. Meu pai me comprou um quadro de giz e acabei indo para o quintal dar aulas todas as tardes.
Eu era pequetita e ficava pegando a câmera fotográfica de meu pai, sempre com ele por perto. Ele viu que eu gostava e me deu daquelas câmeras que você levava ela inteira para revelar e ganhava outra no lugar. 
Ele gostava de ler minhas redações e incentivava a leitura (me dava livrinhos e mais livrinhos de historinhas).
E agora, sou professora, "fotógrafa" e "escritora".
(texto: Susan Blum. Imagens: pintura de Norman Rockwell. Foto de minha sobrinha-neta.)

Gostou do texto? Talvez goste desse outro também: http://novelosnadaexemplares.blogspot.com.br/2011/12/real-ficcao-menina-curiosa.html

domingo, 5 de outubro de 2014

FICÇÃO - Jon Time

“Como narrar a viagem e descrever o rio ao longo
do qual – outro rio – existe a viagem, de tal
modo que ressalte, no texto, a face recôndita e
duradoura do evento, aquela onde o evento, sem
começo e sem fim, nos desafia, móvel e imóvel?”
Osman Lins - Avalovara

tic  tac    tic  tac    tic  tac

Viajar, correr na autopista que se estendia à sua frente, tal qual
negro tapete aveludado...

tic  tac   tic  tac   tic  tac

os passos do tempo passavam bem devagar, mas com passadas
firmes...

Jon Time, deitado na cama do motel, acabou seu whisky e observou
a garrafinha vazia em sua mão enquanto sentia o calor da bebida saindo por todos os seus poros...


keep walk    keep walk    keep walk


Semicerrou os olhos, ainda a mirando, e – sabe diabos porque
a associação – lembrou de amigos, como Calac e Polanco, que lhe
contavam histórias de sacanagens: tirar a tampa do paliteiro, virá-lo
cuidadosamente e deixá-lo virado na mesa com a tampa em cima. Ficar observando quem pegava e derramava todos os palitos. Abrir a tampa do saleiro e deixar na mesa para ver o sal se derramando sobre toda a comida. “Batizar” com sêmen a maionese ou o ketchup que vinham acompanhando o sanduíche até o carro.

Sempre achou essas brincadeiras bobas. Nunca foi vítima delas!

tic  tac    tic  tac    tic  tac

Sentiu vontade de mijar. Já ia colocar a garrafinha no criado-mudo
ao lado, quando lhe veio a “inspiração” e levou-a junto ao banheiro.


keep  walk    keep  walk    keep  walk

No dia seguinte, indo embora, feliz de não pagar pela bebida,
ficava imaginando a cara de quem pegasse a garrafinha, sedento por um whisky.


tic  tac    tic  tac    tic  tac


Meses mais tarde descobriu sua dificuldade em urinar. Hipouremia
irreversível. Macrocistite lancinante. Cada gota que saía parecia uma espada ardente e latejante que rasgava o mais íntimo de seu ser. Gotas de suor e o calor insuportável saíam de todos os seus poros.

tic  tac    tic  tac    tic  tac

Sair por todos os seus poros. Disseram uma vez que o suor nada
mais é do que mijo.

Será?

“Então não preciso me preocupar” - sorriu sarcasticamente,
suando em bicas, sentado no vaso e esperando (lhe parecia horas) sua urina acabar de sair.

Ping   ping   ping   ping

tic  tac    tic  tac    tic  tac

keep walk    keep walk    keep walk

“pequenas provetas com sua penosa dose de urina, etiqueta
vermelha Johnnie Walker”


(este conto se encontra no livro Novelos Nada Exemplares 
e faz diálogo com um texto de Julio Cortázar).

sábado, 4 de outubro de 2014

Texto e imagem - duas rapidinhas.

Pois é. Dizem que as paredes têm ouvidos. 
Mas elas se fazem de surdas comigo. 
Me deixam falando sozinha.
**************************************************


Camuflagem:

as manchas senis
escondem
a idade que fiz.


(texto e fotos: Susan Blum)

Real - Ficção - Abel perdida


Miúda. Novinha. Todos percebiam que ela estava sozinha no ônibus. Um perigo (murmuravam alguns). 

Mas estou me adiantando. Vamos voltar um pouco no tempo. Abel estava junto com seus familiares, mas se distraiu por um momento e - ironia do destino - acabou entrando sem querer em um Expresso. As portas se fecharam e ela ficou tontinha dentro dele, esbarrando em todos. Ela parou na porta 5 e todas as vezes que o Expresso parava em um tubo, ela se batia na porta 5, tentando sair. O vidro da porta a enganava. Achava que por ali ela sairia. 
Tentava achar uma fenda ou abertura de forma louca, mas não conseguia. Porta hermeticamente fechada.
Por momentos ficava rondando as pessoas sentadas como se esperasse delas alguma ajuda (eu tinha certeza de que ninguém a ajudaria. Não com aquela aparência.)
E - de fato - ou era ignorada ou as pessoas se afastavam dela.
Chegou até mesmo a ser "enxotada" por uma ou outra. 
Não adianta. Ninguém a ajudaria.
Quando finalmente conseguiu sair, afinal era o ponto final da Estação Campo Comprido, Abel estava longe de casa.




Conseguiria Abel voar de volta para sua colmeia?

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

REAL - Tiponite

São apenas alguns minutos, poucos minutos, mas por vezes é uma tortura aos meus ouvidos. Ônibus Positivo. Algumas pérolas...

- Daí o cara tipo... vomitou tudo. Tá ligado cara? Tipo vomitou enorme. Nossa. Tipo, todo mundo com nojo. Tá ligado? Ele bebeu todas. Tipo misturou umas. Tá ligado? Tipo, muito nojento. Cara. Eu já vomitei assim. Minha mãe não sabe que eu bebo...

- Mas, e quando você volta pra casa? Sua mãe não vê?

- Não. Tipo, vou dormir na casa de uma amiga. Tipo volto bem mais tarde, quando tô bem já, tá ligado? 

- ...

- Nossa.... tipo a professora tirei uma nota tipo. .. nem estudei. Tá ligado? Quando vi a nota... tipo... nossa... tirei isso?  

- O que ela deu em sala?

- Ah. Ela deu tipo um texto pra gente ler. Tipo da matéria. Tá ligado aquela prova? Então. Não sabia nada. Tipo nada mesmo.

E graças aos céus tipo, cheguei no Terminal tipo ... e pude sair correndo daquela tipo...  tiponite sufocante. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

FICÇÃO - Presa.


- Oi amor.

- Tudo bem. Estou no ônibus.

- Claro.

- Não amor hihihihihi (com a mão na boca)

- Não amor. Não posso falar isso.

- Porque não posso. hihihihi

- Não posso falar isso amor.

(nesta altura, muitos próximos da moça se entreolham e sorriem).

- Não posso falar amor hihihihihi

- Não posso falar isso porque tenho a língua presa.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

FICÇÃO - Oh céu.... lular

Paraná. Curitiba. Expresso Centenário-Campo Comprido. 20:30. -25.438026, -49.331899



- Oi amor.

- Não. Saí mais cedo de lá.

- Não. Estou no ônibus.

- Estou sim amor! Saí mais cedo de lá e estou no ônibus!

- Não amor. Não vou passar o celular para alguém do ônibus dizer que estou no ônibus.

- Porque não.

- Porque EU tô dizendo!

- Não amor. Calma amor. Não. Eu não vou até aí.

- Amor, para!

- Amor, não grita.

- Não. Eu não quero apanhar (sussurrando)

- Não amor, não vou pagar um táxi para chegar antes.

- Não amor.

- Amor?

- Eu vou dormir na casa dos meus pais hoje! Amanhã a gente se fala! (voz mais firme)

- Não amor. Não vá para lá!

- Amor?!?

Ela fecha o celular, olha para todos e suspira baixinho:
- aiai. Oh céus!

(Texto: Susan Blum. Imagem: internet).

terça-feira, 23 de setembro de 2014

FICÇÃO - Chapeuzinho Roxo

Era uma vez... não. Esta não começa assim.
Roxo. Meio roxo. Muito roxo. E dolorido. Em uma meia moldura inchada e dolorida, o olho semi-aberto se observa no espelho.
Pega a maquiagem e tenta, com meio sucesso, esconder o roxo do olho.
Sentia raiva, MUITA raiva, dos covardes que fizeram aquilo. Enfrentou-os com meia coragem. Agora engolia o choro, porque não se deve chorar. E relembra da surra. Aqueles animais!
O ódio parecia evaporar as meias lágrimas que insistiam.
Pegou seu chapéu roxo para sair de casa. Andar sempre ajudava. Antes de sair, no entanto, o ritual de sempre: pegar uma meia, dobrar algumas vezes, passar por dentro de um lado, afofar para parecer um pênis e enfiar por dentro da calça. Agora sim! Ficava mais confiante!
Viu os meninos da vizinhança brincando de futebol. Pediu para entrar. Depois de um tempo jogando bola, resolveu voltar para casa.
Mas ao entrar no quarto rosado, com babados, bichinhos e estampas florais, sentiu de novo a raiva aflorar.
Será que sua mãe não enxergava?
Que droga! Novamente infeliz, se jogou na cama e mais uma vez chorou.
Passados meses, soube de uma cirurgia que poderia ajudar. Guardou dinheiro e fez!
Sentia cansaço de escutar o de sempre:
"Não importa se você é diferente. Amo você mesmo assim".
Como assim MESMO assim? É uma doença por um acaso? Um defeito? Que horrível dizer isso!
Mas agora, com o tratamento que estava fazendo, tinha certeza de que iria ser feliz!
Depois de meses, entrou no quarto ainda rosado, correu para o espelho, arrancou as roupas do corpo e deixou-as em frangalhos jogadas no chão.
Por fim, tirou o chapéu roxo e viu, satisfeit@:
Finalmente era lobo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

REAL - Jack o estripador.

Não é o príncipe, não é um maçom...
é um judeu.
Perseguição?
Poderia ser se não estivesse comprovado por exames de DNA.
Jack era Aaron Kosminski. Um barbeiro judeu vindo da Polônia!
Acabou-se o suspense, 126 anos dele ter matado 5 mulheres inglesas, no distrito londrino de Whitechapel, no final de 1888.
Poderia ter escrito um conto sobre isso... mas agora perdeu-se a graça.
O suspense era o que mantinha o mito.
É como se descobrissem o monstro do Lago Ness e eu quisesse escrever sobre ele.
O inacabado, o suspense, o ar preso na garganta, a respiração parada, o ouvido atento para o nada... isso é a graça.
Mas, já que foi desvendado...
Fica aqui a notícia!
Jack, o estripador.




sábado, 6 de setembro de 2014

FICÇÃO - Poemas de Cezar Joukovski

ADORO minha profissão
Uma das coisas mais gostosas é conhecer bons poetas.
Não foi diferente!
Um aluno me procurou para mostrar os escritos.
Sem comentários!


Repeti que ia ser diferente
mil vezes.
Sou um ab-surdo.

Eu já perdi o controle dessa saudade,
e cansei de ter que ser aquele
que sempre se levanta para
trocar de canal.

Para vencer a pelada:
confiança nu dez.

Alguém me disse 
que a verdade é transparente
eu duvidro.

A tristeza que vacinou
minha doçura,
tinha bala na agulha.

uma bordôleta:
duas taças de vinho
fazendo tim-tins no céu.


Nota final sobre a vida:
acenda uma luz antes de sair.

(Textos: Cezar Joukovski. Imagens: Internet)

sábado, 16 de agosto de 2014

FICÇÃO - Insuspeida


 Sete e quinze da manhã, ônibus lotado (como sempre). Tanto frio que as janelas estão fechadas apesar do ônibus atochado. De repente um cheiro pútrido preenche os poucos vazios. Uma voz feminina se manifesta:
- Alguém pode abrir alguma janela? Já não chega o frio e a lotação, ainda isso! Um porco dentro do ônibus!
Um rapaz abre uma das janelas próximas. Ela agradece e continua olhando feio para os homens ao redor. Em um ponto, a velhinha que estava na frente da moça consegue se sentar e olha para a moça com seus olhinhos azuis cândidos.

- Foi você que reclamou do pum?

- Sim! Sou bocuda mesmo! Ah! Onde já se viu? Além deste aperto todo, do frio, vem um porco soltar pum?

- Pois é. Tem gente mal-educada mesmo! Coisa horrível. ADOREI o que você falou. Não é possível que ele não tenha sentido vergonha!

- Ah! Espero mesmo que tenha sentido vergonha. Poxa, não sou obrigada a respirar as fezes aéreas dele. Porque é isso mesmo que o pum é: fezes aéreas!

A velhinha torce o nariz.
Logo depois chega o tubo da jovem que se despede da senhorinha e sai.
Percebo o olhar da senhorinha que segue a moça. Um risinho sapeca eclode em sua boquinha enrugada  e um novo perfume fétido preenche o ar do ônibus.


 (Texto: Susan Blum. Imagem: retirada da internet.)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

FICÇÃO - DORMENTE

Volta e meia eu faço um texto baseado em alguma foto de um amigo. Hoje não é diferente.
Meu amigo Faisal postou uma foto que me inspirou e solicitei a permissão de usar a imagem para fazer a escrita.
Obrigada, Faisal. Espero que goste do conto que foi inspirado em sua foto.
Feliz Aniversário, querido amigo.

********************

♪♫♩♫♭♪♯♬♮♫♩♫♭♪♯♬♮♬♪♫ 
- Nana nenen, que a Cuca vem pegar.
Se não nanar direito...
  ♪♫♩♫♭♪♯♬♮♫♩♫♭♪♯♬♮♬♪♫ 

Com a trouxinha nos braços, o corpo no balanço cadenciado, a voz melancólica se repetia hora após hora.
Desde o parto ela só vivia no seu quarto, com o berço do nenen ao lado da cama.
A família até tentava fazer com que ela parasse um pouco.
Mas ao lado do berço de madeira, construído pelo próprio pai com o carinho de meses trabalhando a madeira bruta, ela permanecia.
Uma manhã acordou sobressaltada porque havia sonhado que seu nenen estava morto. Não viu o berço a seu lado e, apavorada, saiu correndo para o quarto do nenen. UFA. Lá estava ele.
Ela fez a trouxinha dentro do berço e a trouxe consigo cantarolando a música de sempre.  ♭♪♯♬♮♬

Sair? Não queria sem o nenen. O marido insistia, mas ela negava. Ou iam todos juntos ou ela ficava em casa (e abraçava com mais força a trouxinha em seu peito, como se fossem tirar à força). "Que vergonha mulher! Imagina a minha cara!" 
Nada feito. Então ela permanecia em casa. Dor no peito, hora de dar de mamar. Leite retirado, hora de nanar o nenen. Era sempre a mesma música, desde sua gravidez de risco. Ela ficava acariciando sua barriga crescente e enquanto via o marido construindo o berço com aquela linda madeira, pensava na família verdadeira que estava construindo.
Toda a família (dele e dela) lhe dizia para deixar um pouco o nenen, sair, se divertir. Ela, revoltada, retrucava que jamais abandonaria seu bebê.
Um dia o marido cansou. Gritou com ela, chamando-a de louca. Levou o berço até o quintal. Ela gritava insanamente ao ver que ele jogava álcool e acendia o fósforo.
O berço estalava, dormente.

(Texto: Susan Blum. Foto: Faisal.)



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

FICÇÃO - Presente de grego


Eu estava para entrar no meu edifício quando a vi. Minto. Na verdade eu já a observava quando virei a esquina, pois seu corpinho encurvado, seus passos trôpegos e seu olhar assustado, já me indicavam uma boa personagem.
Quando eu estava para abrir meu portão, ela estava bem próxima e me perguntou com seus olhinhos azul mar calmo e uma voz límpida: “Eu moro aqui?”.
Aquela pergunta me perturbou profundamente. Respondi calmamente: “Não sei, mas vamos perguntar ao meu porteiro”.
Recebi uma negativa junto com uma colocação que me deixou ainda mais perturbada: “ela está andando a manhã toda por aqui por perto. Vai, volta, fica olhando os prédios e balbuciando algo. Acho que está perdida.” Novamente a olhei. Percebi que por baixo do grosso e longo casaco preto ela estava de pijamas e pantufas.
E ninguém a procurou até agora? Pergunto eu, recebendo nova negativa. Bom, era meu horário de almoço. Então resolvi que iria com ela de prédio em prédio até achar onde morava. Iniciei pela minha rua mesmo, que tinha uns seis prédios só na minha quadra. Depois fui dando a volta no quarteirão, fazendo um redemoinho com a senhorinha a tiracolo, o que prolongava mais o tempo, pois os passos incertos me preocupavam. Suas mãos trêmulas, com dedos magros e quase azulados, volta e meia passavam por seus cabelos branquíssimos desalinhados.
Na terceira volta do redemoinho, a três quadras de minha casa, o porteiro de um prédio me chamou ao me ver quase entrando no prédio da frente. “Dona Endaira, aqui!” Vi que a senhora parou. Parei também. O porteiro veio e me disse que a senhorinha morava ali, no Edifício Creta. Que eu podia deixar com ele. 
Ao ver o olhar assustado da senhorinha resolvi que deveria entregar eu mesma à família e insisti neste ponto com ele. Após um tempo ele interfonou para o apartamento do sétimo andar, dizendo que a Dona Endaira estava acompanhada.
Permitiram a minha subida. Ao entrar no elevador percebi que a senhorinha tremia muito. Fiquei imaginando que as ondulações que percorriam seu corpo era por estar reconhecendo o ambiente.
Toquei a campainha e um rosto juvenil escancarou a porta, sorrindo pra mim e para a senhorinha. “Vovó querida! Que susto que me deu!” E me explicou que a vó havia saído enquanto ela dormia de manhã cedo. Feliz por ter cumprido meu dever, por ter dado àquela senhorinha um presente (seu retorno ao lar), sorri e me despedi dela, que me deu um abraço tão forte que jamais imaginaria para um corpo tão frágil.

Fecharam a porta e apertei o botão do elevador ao mesmo tempo que escutei um barulho surdo vindo de dentro do apartamento, seguido de uma voz ríspida: “Que merda vovó. Já falei pra você não sair daqui!”
(Texto: Susan Blum. Imagem: retirado de http://studio58cartoons.blogspot.com.br/2012/09/velhinha.html)

domingo, 10 de agosto de 2014

REAL - dicas de leitura

Já que a gripe não me permite sair de casa para dar aulas para os haitianos, sair para fotografar com amigos, sair com amigos, sair para fotografar os croquis urbanos... então aproveito para ler, estudar, pesquisar e pensar.
E também para dar dicas legais.
Aqui posto algumas delas:

Quer algo legal para ler? Então que tal conhecer “A origem do mundo” de Jorge Edwards (ele foi amigo de Cortázar e de Garcia Márquez). Neste romance ele conta a história de amor e ciúmes entre exilados sul-americanos em Paris.

Ou então, se quer algo mais politizado e deseja ver como a corrupção pode realmente matar, leia o e-book “Estação Terminal”. Nele, a autora Graciela Mochkofsky fala sobre o acidente de trem que matou mais de 50 pessoas em Buenos Aires.

Mas se gosta de pensar na diversidade e na difícil aceitação de filhos “diferentes”, leia o fabuloso “Longe da árvore”. Título mais que sugestivo de um livro no qual o autor Andrew Solomon busca entender e tolerar as diferenças (anões, surdos, autistas, transexuais).

Enfim... apenas leituras que eu gostaria de fazer.


sábado, 9 de agosto de 2014

FICÇÃO (ou real?) - Necessidade (de Magro)



Às vezes, é preciso meter o pé na porta,
arrebentar o trinco e fugir.

Às vezes, é preciso desligar a tomada,
e lembrar  que a vida não se mede em bits.

Às vezes, é preciso quebrar a vidraça do décimo andar,
chegar na janela e respirar um ar puro.

Às vezes, é preciso, na estrada, acelerar mais que o permitido
e sentir o coração  batendo.

Às vezes, é preciso esquecer as responsabilidades
e fazer amor só pelo prazer.


Às vezes, é preciso mandar o saldo à merda
e comprar aquele supérfluo que você tanto sonha.

Às vezes, é preciso esquecer-se de você mesmo,
e amar intensamente alguém.

Às vezes, mas só às vezes mesmo;

é extremamente preciso ser feliz.
(Texto: Moacir Magro. Imagens: internet)
Quer ler outro texto do Magro?
Veja Bala perdida