novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......
convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

FICÇÃO - Família

Resultado de imagem para velha praia



Início de noite de sábado. Na frente da televisão, o pai e a mãe – cada um no seu extremo do sofá, observam os filhos no tapete – cada um no seu celular. A avó, instalada na poltrona dura e seca, está atenta à novela. Seus olhinhos não perdiam a história de amor dos protagonistas. Inclina-se para agarrar com os ouvidos o enredo amoroso que só existe naquela tela.
De repente seus ouvidos captam outra narrativa, palavras vão se encaixando no quebra-cabeça familiar. Praia. Domingo. Viagem. Na rapidez que sua idade permite, volta-se para esta nova história que está se formando na sua frente. Os sorrisos das crianças, os olhos brilhantes do casal, a correria para separar tudo de que vão precisar para o domingo na praia: toalhas, protetores, roupas de banho, chinelos, bola, água, biscoitos... tudo devidamente ensacado em sacolas plásticas. A velha resolve abrir a boca para perguntar que horas sairiam, mas as portas dos quartos estão se fechando, pois desejam sair cedo e foram todos dormir. A velha ficou na sala, com a TV desligada por eles, e a luz acesa lhe fazendo companhia.
Ela, extasiada com este passeio inesperado, tenta lembrar qual foi a última vez que foi passear na praia. Levanta-se da poltrona tal qual tartaruga, feliz pela possibilidade. Vai arrumar um vestidinho leve, suas chinelas, separa os remédios – companheiros constantes – o protetor solar (tão necessário depois de um câncer de pele), sua toalha puída. Faz sua toilete e vai deitar para acordar cedo.
Na ansiedade com o passeio tão desejado acaba não conseguindo dormir. São recordações de quando levava os filhos para a praia, sua filha (agora mãe de seus netos) vivia pedindo para ir à praia, para pular ondas (quantas vezes ficava com ela no mar), para comer milho verde (a boca da velha se enche de água com desejos), para passear à beira-mar. Quando vê, já são cinco horas da manhã, resolve se arrumar, pois não quer atrasar ninguém para o passeio. Não quer atrapalhar a família. Mais um tempo para conseguir colocar sua roupa, calçar os sapatos, se ajeitar. Pronto. Está prontinha. Então resolve preparar o café da manhã para todos, para que possam sair cedo. Está terminando de arrumar a mesa com os pães, leite, café, tudo fresquinho; quando escuta o som de um despertador e a mulher gritando que está tarde. Acordando todos com pressa. Vão levantando e se arrumando. Olham para a mesa posta e se alimentam rapidamente.  Já levando para o carro todas as coisas. A velha observa tudo com um sorriso no rosto. Pega seu chapeuzinho de palha e vai em direção ao carro com sua sacolinha de supermercado. Todos estão no carro e dão partida. Ela ainda fala da porta.
_Me esperem!
E eles, surpresos ao perceber as intenções da velha:

- Não, vó. Você vai atrasar a gente. Tchau.

Resultado de imagem para velha na porta d ecasa
p.s. Infelizmente não encontrei mais o conto. Lembro de ter lido quando adolescente e que marcou demais a minha existência. Então, como não encontro, resolvi escrever do meu jeito. Caso achem a autoria, ou o autor descubra, peço desculpas e que me informe (para que eu possa linkar com o conto original). [Texto: Susan Blum (recordações de uma leitura). Imagens: internet]

domingo, 23 de julho de 2017

Saudades da Infância

Eu não tenho Saldade

Eu tenho Docedade.

(Texto: Susan Blum. Foto: minha irmã e eu na praia. 
Apenas consigo lembrar que estava sentindo frio.)


quinta-feira, 13 de julho de 2017

FICÇÃO - Terror Noturno


A escuridão não constitui a causa do perigo,
Mas é o habitat natural da incerteza – e, portanto, do medo.”
(Bauman in Medo Líquido)

- MÃÃEEE!!!

A mãe abre a porta, assustada e vê seu filho aterrorizado, envolto nos cobertores, chorando.

-Mããee, tem um monstro aqui no quarto! Deixa eu dormir com você?

Suspiro aliviado e voz um pouco zangada:

- Não, filho. Você tem que dormir sozinho!

- Ah, mããee. Deixa então a luz acesa!

- Era só o que me faltava! Você já é um homenzinho! Tem sete anos! Vá dormir!

Apaga a luz e ainda ouve uma última súplica:

- Deixa então a porta meio aberta, mããee...

- OK. Só por hoje! 

Noite seguinte. Novo choro. O filho mostra hematomas no corpo e diz que o monstro bateu nele.  A mãe achou estranho, mas como olhou o quarto inteiro e não achou nada, desconfiou que os hematomas foram feitos durante o dia e que seu filho agora usou o monstro como desculpa.

- Vai dormir! 

Terceira noite. O choro, de novo. O filho mostra tufos de seu cabelo entre seus dedinhos, chorando porque o monstro puxou seus cabelos. 
A mãe estranha. Observa de novo todo o quarto. Tranca de novo as janelas. E resolve deixar uma luzinha pequena próxima da cama.
Por fim, no meio da madrugada, o filho chora alto e a mãe corre para abrir o quarto de supetão.
E o filho, assustado com a entrada intempestiva da mãe, mostra seus bracinhos ensanguentados e pergunta para a mãe com voz chorosa:

- Você viu o monstro, mamãezinha?

Ao que a mãe, recuando de costas até a porta, sem tirar os olhos do filho, responde:

- Sim, filhinho amado, desta vez eu vi.


(Agradeço ao amigo Ícaro, que sempre lê e comenta meus textos)

sábado, 8 de julho de 2017

FICÇÃO - Comida também

Todos os dias era a mesma coisa. Eu cozinhava com ódio – pois odiava cozinhar - e pedia à minha filha que levasse para a avó, que morava longe, e que ela fosse a pé (assim demoraria mais).

Até dizia que ela podia se distrair com qualquer coisa no caminho. Que brincasse com as borboletas, com os esquilos, com os lobos da floresta.

E todo dia, quando a minha filha saía, eu sentia um alívio, corria para tomar banho e me arrumar, enquanto deixava a porta dos fundos aberta.


Para o caçador.
Imagem relacionada

domingo, 25 de junho de 2017

FICÇÃO - Comida.

Todos os dias acabava escutando a mesma coisa. A mãe pedindo, primeiro com doçura, e depois com impaciência, que a filha levasse comida e remédios para a avó. Se a avó morasse em outro bairro mais distante, eu até entenderia. Mas a avó morava ali mesmo, mesma casa, quartinho dos fundos. Todos os dias acabava escutando a mesma coisa. A filha/neta primeiro se fazia de surda, depois obedecia resmungando.

Isso foi cansando meus ouvidos sensíveis. Primeiro, sensíveis aos gritos, depois à indiferença da filha/neta. Sendo vizinho, isso me incomodava todos os dias. Um dia, decidi resolver aquela situação. Doía meu coração acompanhar tudo aquilo. Pulei o muro, fui até o quartinho da avó, dei a ela os remédios. 


Em uma dose capaz de matar até mesmo um elefante: livrei-a daquele suplício de sobreviver de forma tão indigna. Depois, fiquei esperando a neta, ali mesmo, deitado na cama da avó. Quando ela chegou, levantei de um pulo, a puxei para baixo das cobertas. Ensinei-lhe a sobre a importância de se atender bem ao próximo.

(Texto: Susan Blum.  Foto: internet)

domingo, 18 de junho de 2017

FICÇÃO - Convite aguardado

 Ela sempre tecia a esperança de um dia ser convidada. Ficava ouvindo seus colegas da faculdade combinando festas, churras, bares. Ela sempre ficava quieta, esperando. Mas nunca a convidavam.

É feinha... gordinha...

Fica quieta. Esperando. Sonhando.

Resultado de imagem para espelho mulher fio


Um dia, o milagre! Convidam!

É para daqui duas semanas.

Ela faz dieta, compra roupas, corta e pinta o cabelo, faz sobrancelhas, faz as unhas, está sempre na academia. Sua pele está reluzente, seu sorriso e seus olhos parecem telas bordadas de tão vívidos.

Uma verdadeira princesa.

No dia da festa, ela se arruma e fica tecendo imaginações, enquanto se admira no grande espelho do quarto: “Fulano virá conversar comigo. Vou falar sobre X coisa e ele vai dizer Y. Daí eu respondo Z. Vou sorrir (treina no espelho) e vou olhar para ele com olhos baixos e boca entreaberta (treina de novo). Vou mexer no cabelo assim (novo treino) e ele vai se aproximar. Vou sorrir timidamente e me aproximar também, bem devagarinho... daí entreabro meus lábios em um convite, e...”

Olha para o relógio. Já é a hora combinada.

Imagem relacionada


Penélope vai até o banheiro,

Lava o sonho....



E se deita!

(Texto: Susan Blum. Imagens: Internet)

domingo, 16 de abril de 2017

FICÇÃO - Páscoa 2017 - Bandido bom é bandido morto.



“Para todas as Dandaras do mundo. E que jogue a primeira pedra quem for cínico”



O governante até tentou salvar aquele bandido, fazendo com que a gente escolhesse entre ele e outro (um assassino). Mas nós não somos burros e sabemos que bandido bom é bandido morto!

Escolhemos então aquele que tinha o pecado de se achar o filho do dono do mundo.

Onde já se viu? Um absurdo. Só podia ser um lunático que queria mandar na gente através de nossas crenças, de nossa fé.

Nanananinão. Escolhemos ele. Ele deveria morrer. De preferência morrer na cruz. Torturado. Este é o ideal. A gente deve torturar muito antes de matar.

Soltamos Barrabás e deixamos à mercê dos soldados malvados o filho do dono do mundo.

Que ele sofra bastante nas mãos de nossos vingadores. Apoio soldados que batem em bandido. Que matam o bandido. Tenho minhas mãos limpas...

Mas agora eu preciso ir. Preciso comemorar a Páscoa, ganhar meus ovos de chocolate.

(Dedico este texto a todos os "cristãos" que comemoram a Páscoa indo na Igreja e que passam os outros dias do ano condenando as pessoas)



quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

FICÇÃO - Repetição

Ah. Que ministro esperto! Ah. Que detetive esperto.

Um dos contos que mais me fascinaram quando adolescente foi a Carta Roubada, de Poe.

Não sei porque me lembrei dela agora, enquanto tomo mais um café delicioso no De Lucca.

Observo as pessoas ao redor. Duas mulheres que conversam sobre literatura estão na mesa do canto. Parecem espertas, pois comentam de vários autores que leram, mas também me parecem ingênuas quando percebo que trocam livros de suas autorias. Uma troca de egos repetida provavelmente diversas vezes.

Na outra mesa um homem solitário como eu finge tomar seu café enquanto ouve com atenção a conversa das duas, mexendo em seu celular o tempo todo.

Quando percebo que as duas estão se levantando para pagar, me adianto e passo pelo caixa sorrindo e agradecendo em voz alta pelo excelente café. Eles me agradecem também e nos despedimos sorrindo.

Vão atender as duas mulheres que pagam agora e só mais tarde é que vão perceber.



E farei isso de novo em outro café.