novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

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convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

segunda-feira, 3 de junho de 2019

REAL - Boas e más razões para acreditar (texto de Richard Dawkins)


(Carta para sua filha Juliet)



Querida Juliet,



Agora que você fez dez anos, quero lhe escrever sobre algo que é muito importante para mim.

Você já se perguntou sobre como sabemos as coisas que sabemos? Como sabemos, por exemplo, que as estrelas, que parecem pequenos pontos no céu, são na verdade grandes bolas de fogo como o Sol e ficam muito longe? E como sabemos que a Terra é uma bola menor, girando ao redor de uma dessas estrelas, o Sol?

A resposta para essas perguntas é “provas”. Às vezes “prova” significa realmente ver (ou ouvir, ou sentir, cheirar...) que algo é verdade.

Astronautas viajaram longe o suficiente da Terra para ver com seus próprios olhos que ela é redonda. Às vezes nossos olhos precisam de ajuda. A “estrela-d’alva” parece uma sutil cintilação no céu, mas com um telescópio você pode ver que ela é uma linda bola – o planeta que chamamos de Vênus. Uma coisa que você aprende diretamente vendo (ou ouvindo, ou cheirando...) é chamada de observação.

Freqüentemente, a prova não é só uma observação por si só, mas há sempre observações em sua base. Se aconteceu um assassinato, é comum ninguém (menos o assassino e a pessoa morta!) ter visto o que aconteceu. Mas os detetives juntam diversas observações que podem apontar na direção de um suspeito. Se as impressões digitais de uma pessoa coincidirem com as encontradas num punhal, isso é uma prova de que ela tocou nele. Isso não prova que ela cometeu o assassinato, mas pode ser uma informação útil, junto com outras provas. Às vezes um detetive consegue pensar sobre várias observações e então de repente perceber que todas se encaixam e fazem sentido se fulano de tal cometeu o crime.

Os cientistas – os especialistas em descobrir o que é verdade sobre o mundo e o universo – freqüentemente trabalham como detetives. Eles dão um palpite (chamado de hipótese) sobre o que talvez seja verdade. Depois dizem para si mesmos: “Se isso realmente for verdade, devemos observar tal coisa”. Isso é chamado de previsão. Por exemplo, se o mundo realmente for redondo, podemos prever que um viajante que caminhar continuamente numa mesma direção acabará no ponto de onde partiu.

Quando um médico diz que você está com sarampo, ele não olhou para você e viu sarampo. A sua primeira observação lhe fornece a hipótese de que você talvez tenha sarampo. Então ele diz para si mesmo: se ela realmente está com sarampo, devo encontrar... E ele então consulta sua lista de previsões e testa-as usando seus olhos (você está com pintas?), mãos (sua testa está quente?) e ouvidos (seu peito está com um chiado?). Só então ele toma a decisão e diz: “Meu diagnóstico é que essa criança está com sarampo”. Às vezes, os médicos precisam fazer outros testes, como exames de sangue ou raios-X, que ajudam seus olhos, mãos e ouvidos a fazer observações.

O modo como os cientistas usam provas para aprender sobre o mundo é muito mais engenhoso e complicado do que consigo dizer numa breve carta. Mas agora quero deixar de lado as provas, que são uma boa razão para crer em algo, e alertá-la sobre três más razões para acreditar em algo. Elas se chamam “tradição”, “autoridade” e “revelação”.

Primeiro, a tradição. Alguns meses atrás, fui à televisão para ter uma conversa com cerca de cinqüenta crianças. Essas crianças foram convidadas por terem sido criadas segundo diferentes religiões: algumas como cristãs, outras judias, mulçumanas, hindus ou sikhs. Um homem com um microfone ia de criança em criança, perguntando no que acreditavam.
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O que elas responderam mostra exatamente o que quero dizer com “tradição”. Suas crenças não tinham nenhuma relação com provas. Elas simplesmente papagaiavam as crenças de seus pais e avós que, por sua vez, também não eram baseadas em provas.

Elas diziam coisas como: “Nós, hindus, acreditamos em tal e tal”; “Nós, muçulmanos, acreditamos nisso e naquilo”; “Nós, cristãos, acreditamos numa outra coisa”.

Como todas acreditavam em coisas diferentes, nem todas poderiam estar certas. O homem com o microfone parecia achar que isso não era um problema, e nem tentou fazê-las discutir suas diferenças entre si. Mas não é isso que quero enfatizar no momento. Eu simplesmente quero analisar de onde vieram as crenças. Vieram da tradição. Tradição significa crenças passadas do avô para o pai, deste para o filho, e assim por diante. Ou por meio de livros passados através das gerações ao longo dos séculos. Crenças populares freqüentemente começam de quase nada; talvez alguém simplesmente as invente, como as histórias sobre Thor e Zeus. Mas depois de terem sido transmitidas por alguns séculos, o simples fato de serem tão antigas as faz parecer especiais. As pessoas acreditam em coisas simplesmente porque outras pessoas acreditaram nessas mesmas coisas ao longo dos séculos. Isso é tradição.

O problema com a tradição é que, independentemente de há quanto tempo a história tenha sido inventada, ela continua exatamente tão verdadeira ou falsa quanto a história original. Se você inventar uma história que não seja verdadeira, transmiti-la através de vários séculos não vai torná-la verdadeira!
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A maioria das pessoas na Inglaterra foi batizada pela Igreja anglicana, mas esse é apenas um entre muitos ramos da religião cristã. Há outras divisões, como a ortodoxa russa, a católica romana e as metodistas. Todas acreditam em coisas diferentes. A religião judaica e a mulçumana são um pouco diferentes; e há ainda diferentes tipos de judeus e mulçumanos. Pessoas que acreditam em coisas um pouco diferentes umas das outras vão à guerra por causa discordâncias. Então você talvez imagine que eles têm boas razões – provas – para acreditar naquilo que acreditam. Mas, na realidade, suas diferentes crenças são inteiramente decorrentes de tradições.

Vamos falar sobre uma tradição em particular. Católicos romanos acreditam que Maria, a mãe de Jesus, era tão especial que ela não morreu, mas acendeu ao Céu. Outras tradições cristãs discordam, e dizem que Maria morreu como qualquer pessoa. Outras religiões não falam muito nela e, de modo diferente dos católicos romanos, não a chamam de “Rainha do Céu”. A tradição segundo a qual o corpo e Maria foi levado ao Céu não é muito antiga. A Bíblia não diz nada sobre como ou quando ela nasceu; aliás, a pobre mulher mal é mencionada na Bíblia. A crença de que seu corpo foi levado ao Céu não foi inventada até cerca de seis séculos após a época de Jesus. No início, só foi inventada, da mesma forma que qualquer história, como “Branca de Neve”. Mas, no transcorrer dos séculos, ela se tornou uma tradição e as pessoas começaram a levá-la a sério simplesmente porque a história havia sido transmitida ao longo de tantas gerações. Quanto mais velha a tradição se tornava, mais as pessoas a levavam a sério. Ela foi por fim escrita como uma crença católica romana oficial muito recentemente, em 1950, quando eu tinha a idade que você tem hoje. Mas a história não era mais verdadeira em 1950 do que quando foi inventada, seiscentos anos após a morte de Maria.

Vou voltar à tradição no fim de minha carta, e olhá-la de outro modo. Mas antes preciso tratar das outras duas más razões para crer em alguma coisa: autoridade e revelação.
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Autoridade enquanto razão para crer em algo significa acreditar porque alguém importante ordenou que você acreditasse. Na Igreja católica romana, o papa é a pessoa mais importante, e as pessoas acreditam que ele deve estar certo só porque ele é o papa. Num dos ramos da religião muçulmana, as pessoas importantes são velhos barbados chamados de aiatolás. Muitos muçulmanos se dispõem a cometer assassinatos simplesmente porque aiatolás de um país distante deram essa ordem.

Quando digo que só em 1950 os católicos romanos foram finalmente informados que tinham que acreditar que o corpo de Maria havia subido para o Céu, quero dizer que em 1950 o papa disse que isso era verdade, e então tinha que ser verdade! É claro que algumas coisas que o papa disse ao longo de sua vida devem ser verdade e outras não. Não há nenhuma boa razão para você acreditar em tudo que ele diz mais do que você haveria de acreditar nas coisas que muitas outras pessoas dizem, só porque ele é o papa. O papa atual ordenou às pessoas que não controlasse o número de filhos que vão ter. Se sua autoridade for seguida com a obediência que ele deseja, os resultados poderão ser uma terrível escassez de alimentos, doenças e guerras, causadas por superpopulação.

É claro que, mesmo na ciência, às vezes nós mesmos não vemos as provas e temos de acreditar no que foi dito por outra pessoa. Eu não vi, com os meus próprios olhos, que a luz viaja à velocidade de 300 mil quilômetros por segundo. Mas acredito em livros que me dizem qual é a velocidade da luz. Isso parece “autoridade”. Mas na realidade é muito melhor que autoridade, porque as pessoas que escreveram o livro viram as provas, e qualquer um de nós pode examinar as provas com atenção no momento que quiser. Isso é muito confortante. Mas nem mesmo os padres afirmam que há provas para a história de que o corpo de Maria subiu para o Céu.

A terceira má razão para acreditar em algo é “revelação”. Se você tivesse perguntado ao papa, em 1950, como ele sabia que o corpo de Maria tinha subido ao Céu, ele provavelmente teria dito que isso lhe fora revelado. Ele se fechou num quarto e rezou, pedindo orientação. Sozinho, ele pensou e pensou, e na sua intimidade teve mais e mais certeza de suas idéias. Quando pessoas religiosas têm uma simples sensação de que algo deve ser verdade, mesmo que não haja provas de que o seja, eles chamam sua sensação de “revelação”. Não só os papas afirmam ter revelações. Isso também acontece com muitas pessoas religiosas. É uma de suas principais razões para acreditar naquilo que acreditam. Mas isso é bom ou ruim?
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Suponha que eu lhe dissesse que seu cachorro está morto. Você provavelmente ficaria muito triste, e talvez dissesse: “Você tem certeza? Como você sabe? Como aconteceu?”. Suponha então que eu respondesse: “Na verdade, eu não sei se Pepe está morto. Eu não tenho provas. Só tenho uma sensação esquisita, bem dentro de mim, de que ele está morto”. Você ficaria muito zangada comigo por tê-la assustado, porque você sabe que uma “sensação” por si só não é uma boa razão para acreditar que um cachorro está morto. Você precisa de provas. Todos temos sensações e pressentimentos de tempos em tempos, e descobrimos que às vezes estavam certos, às vezes não. De qualquer forma, pessoas diferentes podem ter sensações opostas, então como decidir quem teve a intuição correta? O único jeito de ter certeza de que um cachorro está morto é vê-lo morto, ou ouvir que seu coração parou de bater, ou obter essa informação de uma pessoa que viu ou ouviu alguma prova de que ele está morto.

As pessoas às vezes dizem que devemos acreditar em sensações íntimas, senão você nunca teria certeza de coisas como “Minha esposa me ama”. Mas esse é um argumento ruim. Pode haver muitas provas de que alguém ama você. Durante todo o dia em que você está com alguém que a ama, você vê e ouve pequenas provas, e elas se somam. Não é somente uma sensação interior, como a sensação que os padres chamam de revelação. Há outras coisas para apoiar a intuição: olhares, um tom carinhoso de voz, pequenos favores e gentilezas; tudo isso serve de prova.

Certas pessoas têm forte sensação de que alguém as ama sem que isso esteja baseado em provas, e então é provável que estejam completamente enganadas. Há pessoas com uma forte intuição de que um astro do cinema está apaixonado por elas, mas na realidade o astro de cinema nem sequer as encontrou. Pessoas assim são doentes da cabeça. Sensações íntimas ou intuições precisam ser apoiadas por provas, senão você simplesmente não pode confiar nelas.

As intuições são valiosas na ciência também, mas só para lhe dar idéias que você então testa, procurando provas. Um cientista pode ter um “pressentimento” sobre uma idéia que ele “sente” estar correta. Por si só, isso não é uma boa razão para acreditar nela. Mas pode ser uma razão para passar algum tempo fazendo experimentos, ou à busca de provas. Cientistas usam a intuição o tempo todo para ter idéias. Mas elas não valem nada até que sejam apoiadas por provas.

Eu prometi que voltaria à tradição, para examiná-la de outro modo. Quero explicar o que a tradição é tão importante para nós. Todos os animais são construídos (pelo processo chamado de evolução) para sobreviver no local em que seus semelhantes vivem. Leões são construídos para sobre sobreviver nas planícies da África. O lagostim é construído para sobreviver na água doce, enquanto as lagostas são adaptadas para a vida na água salgada. As pessoas também são animais, e somos construídos para viver bem no mundo cheio de... outras pessoas. A maioria de nós não caça para obter comida, como as lagostas ou os leões; nós a compramos de pessoas que, por sua vez, a compram de outras pessoas. Nós “nadamos” num “mar de pessoas”. Assim como um peixe precisa das brânquias para sobreviver na água, as pessoas precisam do cérebro que as torna capazes de se relacionarem umas com as outras. Assim como o mar está cheio de água salgada, o mar de pessoas está cheio de coisas difíceis de aprender. Como a linguagem.

Você fala inglês, mas sua amiga Ann-Kathrin fala alemão. Cada um de vocês fala a língua que lhes permite “nadar” no seu “mar de pessoas”. A linguagem é transmitida por tradição. Não há outra alternativa. Na Inglaterra, Pepe é um dog. Na Alemanha, ele é ein Hund. Nenhuma dessas palavras é mais correta ou verdadeira do que a outra. As duas foram transmitidas ao longo do tempo, só isso. Para serem boas em “nadar no seu mar de pessoas”, as crianças têm que aprender a língua de seu país, e muitas outras coisas sobre o seu povo; e isso só quer dizer que elas precisam absorver, como papel mata-borrão, uma enorme quantidade de informações sobre tradições (lembre que essas informações são aquelas passadas dos avós para pais e deste para filhos). O cérebro da criança tem que absorver informações sobre tradições. Não é de se esperar que a criança consiga separar a informação boa e útil, como as palavras de uma língua, das informações ruins e tolas como acreditar em bruxas, demônios e virgens imortais.

É uma pena – mas não deixa de ser assim – que, por serem sugadoras da informação sobre tradições, as crianças possam acreditar em qualquer coisa que os adultos lhes digam. Não importa se é falso ou verdadeiro, certo ou errado. Muito do que os adultos dizem é verdadeiro e baseado em provas, ou pelo menos sensato. Mas se parte do que é dito é falso, tolo ou até malvado, não há nada para impedir as crianças de acreditarem naquilo também. E quando as crianças crescerem o que farão? Bom, é claro que contarão as histórias para a próxima geração de crianças. Então, uma vez que uma ideia se torna uma crença arraigada – mesmo que seja completamente falsa e nunca tenha havido uma razão para acreditar nela –, pode durar para sempre.

Será isso o que aconteceu com as religiões? A crença de que há um Deus ou deuses, crença no Céu, crença em que Maria nunca morreu, que Jesus nunca possuiu um pai humano, que as rezas são respondidas, que vinho se torna sangue – nenhuma dessas crenças é apoiada por boas provas. E, no entanto, milhões de pessoas acreditam nelas. Talvez isso ocorra porque elas foram levadas a acreditar nessas coisas quando eram tão jovens que aceitavam qualquer coisa.

Milhões de pessoas acreditam em coisas bem diferentes, porque diferentes coisas lhes foram ensinadas quando eram crianças. Coisas diferentes são ditas para crianças muçulmanas e cristãs, e ambas crescem totalmente convencidas de que estão certas e as outras erradas. Mesmo entre cristãos, católicos romanos acreditam em coisas diferentes dos anglicanos ou de pessoas como os shakers [adeptos da Igreja milênio] ou quacres, mórmons ou Holy Rolers, e todos estão plenamente convencidos de que estão certos e os outros errados. Acreditam em coisas diferentes exatamente pela mesma razão que você fala inglês e Ann-Kathrin fala alemão. Ambas as línguas são, em seu próprio país, a língua certa para se falar. Mas não pode ser verdade que religiões diferentes estão corretas em seus próprios países, pois religiões diferentes afirmam que coisas opostas são verdadeiras. Maria não pode estar viva na Irlanda do Sul (um país católico) e morta na Irlanda do Norte (que é protestante).

O que podemos fazer sobre tudo isso? Não é fácil para você fazer alguma coisa, porque você só tem dez anos. Mas você pode experimentar o seguinte. Da próxima vez que alguém lhe disser algo que parecer importante, pense: “Será que isso é o tipo de coisa que as pessoas sabem por causa de provas?

Ou será o tipo de coisa em que as pessoas acreditam só por causa de tradição, autoridade ou revelação?”. E, da próxima vez que alguém lhe disser que uma coisa é verdade, por que não perguntar: “Que tipo de prova há para isso?”. E, se ela não puder lhe dar uma boa resposta, eu espero que você pense com muito carinho antes de acreditar em qualquer palavra daquilo que foi dito.

De seu querido Papai



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Sobre o autor: Richard Dawkins é evolucionista; docente no departamento de zoologia da Oxford  University; membro do New College. Começou sua carreira de pesquisador na década de 60, como um aluno etólogo agraciado com o premio Nobel Nico Tinbergen, e desde então seu trabalho tem focalizado principalmente a evolução do comportamento. Desde 1976, quando seu primeiro livro, O Gene Egoísta, sintetizou tanto a substância como o espírito daquilo que hoje é chamado de revolução sócio-biológica, ele se tornou muito conhecido, tanto pela originalidade de suas idéias como pela clareza com que as expõe.

Num livro posterior, O Fenótipo Estendido, e numa série de programas de televisão, expandiu a ideia do gene como unidade de seleção. A ideia foi aplicada a uma série de casos biológicos tão diversos quanto a relação entre hospedeiros e parasitas e a evolução da cooperação. Seu livro seguinte O Relojoeiro Cego, é amplamente lido, citado e um dos trabalhos intelectuais de nossa época realmente influente. Ele é também autor do recém-publicado O Rio Que Saía do
Éden.

sábado, 4 de maio de 2019

REAL - para entender os bolsominions

Um bolsominion me enviou - pelo facebook - uma entrevista em que o presidente do BB afirma que pensa como o Bolsonaro. Que a esquerda "fabricou" as minorias (negros, mulheres e homossexuais). 
Meu querido, eu imagino a sua felicidade ao encontrar uma fala tão preconceituosa e obtusa como a sua.
Veja, você não tem culpa de pensar desta forma. Provavelmente você teve pais, religiosos, e até alguns professores que ensinaram você a pensar desta forma.
Pensar como? Pensar que você é superior aos outros. Que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Que se o negro não fez na entrada vai fazer na saída. Que mulher serve para servir você.
Provavelmente você teve um pai que era grosseiro com sua mãe. Que batia em você dizendo que era para seu bem. E se por acaso você chorasse, ele dizia: "engole este choro. Homem não chora".
Um pai que traía sua mãe  com outras mulheres porque macho que é macho transa com todas que quiser e nenhuma mulher pode dizer NÃO para o macho, afinal está sendo agraciada com a atenção dele. Provavelmente você escutou que há mulheres para casar e outras para usar. 

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Você não tem culpa de ter estudado em um colégio que obrigava você a perfilar e cantar o Hino e bater continência para a bandeira; em vez de criar amor pela pátria e pela humanidade.
Você não tem culpa de não parar para pensar nas coisas já que sua escola não tinha Filosofia e Sociologia, mas apenas OSPB e EMC.
Você não tem culpa de não ter conseguido entrar em uma Universidade Pública que poderia levar você a refletir sobre a verdade, ensinando Filosofia e Sociologia.
Você não tem culpa de não poder conversar com a família nos almoços porque afinal o único que tinha voz e palavra era seu pai. Você tinha que ouvir quieto.
Você não tem culpa de ter tido um pai que disse para você ficar quieto e obedecer porque era apenas um filho.
Você não tem culpa de ter escutado (e acreditado) que bandido bom é bandido morto.
Você não tem culpa de terem ensinado você a ter medo de negro, de bandido, de homossexual (homofobia é MEDO dos homossexuais).
Sim, eu entendo você.
Eu entendo sua forma de agir agora, porque afinal de contas, você esperou a vida toda para estar agora no lugar de seu pai, mandando todos calarem a boca, sem argumentos. "Você vai fazer isso porque eu estou mandando e sou seu pai".
Sim, você esperou a vida toda para ser o "rei do pedaço". Um homem, hetero (será?), branco (sem dúvida) e agora chegou sua vez. Mas agora que chegou sua vez vêm algumas pessoas e mudam as "regras" do "jogo". 

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Passam a dar valor e voz para as mulheres, para os negros, para os pobres, para os homossexuais...
Isso tudo lhe desconcertou. Agora você não sabe mais qual é o seu lugar (que seria o primeiro, o melhor) porque viu que não basta apenas ser homem, branco, hetero porque há muitos negros, mulheres e homossexuais que são mais inteligentes que você, são mais capazes que você. E você não é. Você é apenas um aposentado, um divorciado, um desempregado, um velho... que nada fez de bom e significativo. Você percebe que não é nada.
Mas fica quieto porque percebe que há muitas pessoas que mostram que é politicamente incorreto não aceitar as minorias. Você não aceita, mas fica quieto.
Porém, quando surge uma figura "política" que se coloca como alguém do "bem", nas tradições, família e propriedade (você se regojiza), pois se sente representado.  
Então, como criança pequena e birrenta, você cria "coragem" e esperneia, você grita.
Assim como no Nazismo, as pessoas foram cooptadas por mentiras, você também foi. Porque quer acreditar que você É alguém.
E, melhor ainda, ele coloca a culpa em outros. UFA... você não é culpado de nada. A culpa é "deles". "Eles" querem que todos sejam iguais. "Eles" querem que mulheres, negros, homossexuais tenham voz. Que absurdo!
E você vai na onda das mentiras. CLARO que a Universidade não é algo legal. Seu filho que antes ficava quieto quando você mandava, agora questiona. Agora seu filho traz reflexões que você sequer compreende. A culpa é da faculdade (pensa você). Não quer ver que seu filho agora quer pensar por si. Quer experimentar outras coisas. Quer refletir. 
NÃO! Que é isso? Filho meu? Não pode!
Você perdeu o controle sobre seu filho e isso lhe angustia. Claro que a culpa é da faculdade!

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Sim, eu entendo você, bolsominion.
MAS...
...não compreendo. 
Não compreendo como você pode continuar nesta onda conservadora. Por quê? Porque ser conservador é ser CONTRA a Natureza. Onde TUDO se renova, se modifica, se transforma.
Você não tem culpa de ter sido criado desta forma. Mas tem culpa por decidir continuar assim.
Por achar que é melhor que alguém. Por achar que mulheres, negros, homossexuais e pobres não tem Direitos.
Por se posicionar contra a Educação. Contra os Direitos Humanos. Contra as coisas boas da vida.
Por isso mesmo que prefiro NÃO ter amizade com você.
Mas, quando abrir os olhos e o coração, pode me procurar.
Escolhi ter ao meu lado pessoas do BEM... e não pessoas "de bem".
Estou cansada de ter que ajudar pessoas muito boas e legais que não estão aguentando tanto preconceito, tanto ódio, tanta ignorância, tanta perseguição.
Viva e deixe viver. Eles não estão fazendo NADA de mau para vocês. Eles estão vivendo e amando.   Que tal você fazer o mesmo?

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domingo, 28 de abril de 2019

REAL - Carta aberta ao presidente

Coloquei em meu face uma carta aberta ao "presidente" que muitos compartilharam. Então resolvi colocar aqui também.
(foi postado em meu face no dia 26 de abril, às oito e quarenta e seis da manhã).
Isso porque acordei com uma mensagem de um amigo sobre o comercial do BB que Bolsonaro refutou e por ele ter dito sobre o Brasil ter famílias e não poder ser do mundo gay (além de ter dito que os turistas podem vir sim, mas para pegar as mulheres).

O que postei:

Carta Aberta ao Jairzinho.
Caro senhor "presidente".
Sim, temos famílias. Temos famílias em que alguns membros são homossexuais. Temos famílias de homossexuais. O senhor deveria governar para TODO o povo brasileiro. Muitos brasileiros que foram às ruas com o #EleNão sabiam muito bem quem era o senhor: um homem preconceituoso, racista, misógino, etc e por isso mesmo NÃO queríamos (NÃO QUEREMOS o senhor). Mas, os homens, brancos, hetero, misóginos, preconceituosos e ricos (como o senhor) entenderam muito bem o seu recado. Nós, que temos olhos abertos sabíamos de suas intenções. Nós conhecemos o senhor e por isso fomos contra. Graças que meus amigos, sejam hetero ou homo, homens ou mulheres, negros ou brancos, também tem olhos abertos (com raras exceções) e NÃO votaram no senhor. Mas ouvi dizer que alguns negros, algumas mulheres, alguns homossexuais votaram. Pena. Devem estar começando a se arrepender. Quem sabe de uma próxima vez escutem e leiam o que mostramos. 
Sim, temos famílias. Famílias que choram desde a época das eleições com as mortes (sejam homicídios, sejam suicídios) de mulheres, negros, homossexuais, palestinos, pobres. O senhor deveria governar para TODOS os brasileiros. Mas, na sua concepção tacanha de povo brasileiro estão apenas HOMENS BRANCOS, HETERO, RICOS (e mulheres que obedeçam a estes).
Na época, eu e vários amigos pedimos pelo face: se você vai votar no coiso (#EleNão) pode deixar de ser meu amigo porque não se trata de um partido e sim de votar no preconceito, na misoginia, no racismo, na não diversidade (que nós somos). E que não queríamos amigos assim (ainda penso desta forma). Não quero "amigos" que são como "ele" (o senhor).
Na época, coloquei no face os diversos órgãos e grupos que eram CONTRA o senhor: cristãos, judeus, palestinos, psicanalistas, mulheres, negros, homossexuais, etc... Ou seja, MUITOS grupos, países, intelectuais que avisavam do perigo de se colocar um ser abjeto no governo. Infelizmente escutei coisas como: "ah, Susan, ele até pode ser um pouco, mas será presidente do Brasil, terá que governar para todos". Santa ingenuidade. Afinal, se um ser é asquerosamente misógino, preconceituoso, discriminador... óbvio, que não mudará. E já percebíamos que seus "seguidores" estavam mandando vídeos de ameaças para todos estes grupos. Vemos os "maridos" que batem ou matam suas esposa, namoradas. Vemos os casos de agressões que aumentaram. Mas, também ouvi de bolsominions: "ah, Susan, isso sempre existiu". sim, mas eu avisava que ia aumentar. E vai aumentar mais. Infelizmente.
Sim, temos famílias. Famílias que queriam paz, estabilidade e que estão assistindo ao circo dos horrores com agrotóxicos, matança de animais de da Natureza, briguinhas de rede social, palavras ditas de forma torta, um (des)governo enorme. Vamos morrer trabalhando, vamos morrer sem remédios, as taxas de suicídio de idosos vai aumentar. Isso NÃO é torcer contra ... é apenas VER o que está acontecendo.
Sim, temos famílias. E algumas vão ter o sangue de todos estes inocentes em suas mãos, porque votaram no senhor.
Não votei "nele" (no senhor) e por isso vou usar duas frases que sei que vocês odeiam: "Eu avisei" e "esta culpa não carrego". Mas mesmo assim isso me dói muito. Porque, diferente de quem votou "nele" (no senhor), eu sinto dor. Sinto dor e desesperança. Estou perdendo meu lindo país.
Estou perdendo seres humanos maravilhosos.

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Sim, Jairzinho. O Brasil tem famílias. Mas não sei como será o futuro destas famílias com o senhor aí.
Adoraria poder fazer algo, mas infelizmente só posso me manifestar (enquanto não houver censura) aqui e nas ruas.
E é o que farei enquanto viver.
#BolsonaroPiorPresidente
#EleNunca
#HELPBrazil
P.s. somente depois li uma outra frase sua sobre o assunto... que os turistas que quiserem fazer sexo com mulheres podem vir. Caso não saiba, "senhor presidente", isso é apologia ao turismo sexual. É crime. Mas são tantos crimes que o senhor comete que mais um não faz diferença ao senhor, né?


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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

#MulheresExtraordinárias1 - Madalena Caramuru


Como avisei anteriormente, vou iniciar estas postagens femininas com a grande Madalena Caramuru.
Antes, queria introduzir quem é esta mulher. De onde ela veio? Bom, antes de mais nada tenho que perguntar se lembram da época da escola em que aprendíamos a História do Brasil. Lembram de Caramuru? Então, uma caravela portuguesa afundou próximo da costa. Vários portugueses, inclusive o náufrago português Diogo Álvares Correia, foram resgatados por uma tribo indígena. Os tupinambás eram canibais e os companheiros de Diogo foram “absorvidos” por eles. Existem diversas “lendas” para o fato de Diogo não ter sido comido por eles. Entre elas a de que ele era muito magro (nota para fazer dieta hehe).
Mas outra lenda diz que ele atirou com sua arma e – daí veio o apelido dele: Caramuru, que significa “homem do fogo” – e assim os índios respeitaram ele.  
Bom, para encurtar a história, ele se casa com a índia Paraguaçu (que vive mais 26 anos após a morte dele). Tiveram quatro filhas. Uma delas é a Madalena Caramuru.
Ela foi a primeira brasileira alfabetizada. Apesar dos indígenas terem uma visão diferente dos portugueses – e aqui abro um parêntese importante:

“ [...] o indígena que via na mulher uma companheira não via razão para as diferenças de oportunidades educacionais. Não viam o perigo que pudesse representar o fato de suas mulheres aprenderem a ler e a escrever, como os brancos os preveniam. Condenar ao analfabetismo e à ignorância o sexo feminino lhes parecia uma ideia absurda” ( Arilda Inês Miranda Ribeiro, em A educação das mulheres na Colônia)

Ela foi alfabetizada e foi em 1534, quando ela se casou com Afonso Rodrigues, que aprendeu mais ainda as Letras. Depois de instruída Madalena se manifestou em defesa do povo diante dos portugueses. Com seu olhar cuidadoso, ela percebia o tratamento dado aos indígenas e sabia que através das palavras poderia ajudar. Então escreveu uma carta ao Padre Manuel da Nóbrega (aparentemente em 1561), exigindo o fim dos maus-tratos às crianças indígenas além de solicitar o início da educação feminina (inclusive oferecendo ajuda financeira para tal) e também condenar os negociantes negreiros.  Ou seja, ela foi a primeira ativista brasileira!
O padre, diferente dos outros homens brancos, abraçou esta causa, levando para a rainha de Portugal e justificando que as mulheres eram maioria nos cultos e que assim poderiam aprender a ler e escrever. Porém a Corte portuguesa julgou a iniciativa perigosa, vetando a solicitação.
Foi apenas em meados do século XVIII que as meninas passaram a frequentar as escolas, mas ainda assim com restrições.
Nós, mulheres, não podemos deixar de conhecer e de propagar esta mulher à frente de seu tempo. Que teve empatia por todas as mulheres e pelos negros.

Madalena Caramuru!

 (em 2001 os Correios homenagearam com um selo).
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(QUER SABER MAIS? LEIA "EXTRAORDINÁRIAS MULHERES QUE REVOLUCIONARAM O BRASIL" - de Duda Porto de Souza e Aryane Cararo - tirei muitos dados daqui).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

REAL - Mulheres Extraordinárias


Pensando em revelar as mulheres à frente de seu tempo, as mulheres que fizeram o mundo mudar, as mulheres que – mesmo com seus defeitos (que atire a primeira pedra quem não tem defeito algum) – fizeram algo por outras pessoas. Mulheres que não ficaram apenas na fala, mas que revolucionaram o seu redor.
Não farei por ordem de tempo (cronologicamente), nem por espaço (determinados países antes de outros), nem por importância ou tema. Serão diversos temas, diversos espaços e tempos. Para não abrir novo site com este material, pretendo diferenciar estas postagens colocando a hashtag #MulheresExtraordinárias . Pensei em colocar #MulheresRevolucionárias , mas sei que isso melindraria algumas pessoas que estão com a visão cega pelo real significado desta palavra. Revolução significa mudança e isso é ótimo. Ficar no igual traz entropia, ou melhor, isso a entropia já traz. Eu quero e acredito na mudança.
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Para iniciar este Mulheres Extraordinárias 1, vou trazer a maravilhosa – e na minha opinião a primeira mulher a pensar nos Direitos Humanos básicos – Madalena Caramuru.
Mas também pretendo trazer (apenas alguns exemplos): Hipatya, Indianara Siqueira, Leila Diniz, Rosaly Lopes, Zuzu Angel, Pagu, Manuella Kaster, Chiquinha Gonzaga, Assionara Souza, Tábita Hünemeier, Maria Firmina dos Reis, Ana Néri, Dandara, Joana D´Arc Félix, Joana D´Arc, Bertha Lutz, Carolina Maria de Jesus, irmãs Brönte, Auta de Souza, Angelina Jolie, enfim... apenas algumas das centenas que pretendo trazer.
Uma pequena homenagem e um breve relato com possibilidades de mais pesquisas, pois pretendo trazer links para mais sites que falem sobre elas.
Espero que apreciem.
Um abraço para todas as mulheres que não ficam apenas falando, mas que buscam realizar algo para outras pessoas. Afinal, fazer por nós é fácil. Fazer por outras é que são elas. Espero que isto inspire mais mulheres a provocarem mudanças positivas.
Assim, aguardem a primeira postagem de #MulheresExtraordinárias.

(Texto: Susan Blum. Imagem: internet)

sábado, 24 de novembro de 2018

REAL - Vídeo do poema Curitiba Metafísica do Blues

Para quem não viu o vídeo em que recito parte de meu poema "Curitiba metafísica do Blues"

Veja o vídeo aqui

VÍDEO CURITIBA METAFÍSICA DO BLUES - SUSAN BLUM
https://www.youtube.com/watch?v=6ub4yMm7ipo

e o poema completo aqui:

CURITIBA METAFÍSICA DO BLUES

http://novelosnadaexemplares.blogspot.com/2011/09/ficcao-curitiba-blues-texto-e-imagem.html

terça-feira, 6 de novembro de 2018

FICÇÃO - MERCADO

Estava em casa um pouco incomodado. Algo em mim parecia errado. Fui ao mercado. 

Peguei um carrinho de compras. Andei pelos corredores. Nada me chamava a atenção, o carrinho permanecia vazio. Precisava comprar algo. Algo me fazia falta, mas eu não sabia o que era.


Resolvi pegar algumas uvas. Não era o que queria, mas talvez ficasse com fome de tanto procurar. Pelo menos, teria algo para comer.


Andei por mais algumas horas. Um guarda me disse que o mercado estava para fechar. Dei de ombros e continuei a procurar. As luzes se apagaram, segui minha procura graças a uma lanterna que estava à venda. Uma noite toda e nada. Não sabia o que precisava. Não achava nada.



Pela manhã, chegaram alguns funcionários. Perguntei se eles sabiam o que eu procurava. Ninguém respondeu. 


Continuei procurando o dia todo. Depois o mês todo. Por 65 anos eu procurei e nada. No carrinho, somente aquelas uvas já apodrecidas. Eu não encontrava o que procurava.

Não desistiria. Não sem que algo diferente acontecesse.
Foi então que uma moça de traços conhecidos apareceu por ali. Ela gritava comigo, dizendo que me procurou por toda parte. Que eu não apareci para o jantar um dia, e nem nos próximos dias dos 65 anos. Ela disse que depois de 40 anos ficou preocupada. Algo poderia ter acontecido comigo. Eu nunca demorei tanto.

Eu pedi desculpas. Ela me apresentou meu filho. Meu filho me apresentou um neto. Eu entrei no carro e fui para casa. Do mercado, não levei nada. E morrerei sem saber o que fui buscar ali, mas que faz falta faz.


Conto de Martel Alex