Era uma relação perfeita! Pelo menos era o que ela pensava. Um verdadeiro príncipe! Saíam para ver filmes, liam juntos na cama, ele aceitava todos os carinhos dela. Era sempre um: "eu te amo", da parte dela e um "eu sei", da parte dele. Porém, um dia, ele chegou e disse que precisava conversar. Ela, alegre, apenas pulou na cama, de joelhos, sentou sobre os calcanhares e com um sorriso largo disse: "Claro, amor. Fale".
Mas o sorriso foi escorregando da boca enquanto o escutava (apenas trechos eram ouvidos)... "não vai dar certo" ... "não te amo mais" ... "para o seu bem" ... "quero você feliz"... o corpo murchava, a alma encolhia, o coração apertava. Foi apertando tanto que explodiu em raiva: "quem é ela? Por que você está fazendo isso comigo?"
Ante a raiva dela, ele apenas se virou e foi embora, dirigindo seu corcel negro.
OK. OK. Sem desespero, pensou ela, enxugando as lágrimas.
Vivi sem ele por anos, antes de encontrá-lo.
Consigo sobreviver sem ele.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
PRIMEIRO DIA:
Não consegue parar de pensar UM segundo nele. Chora o tempo todo e tem vontade de ligar para ele a cada instante (na verdade até liga, mas quando ele atende, desliga rapidamente).
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
SEGUNDO DIA:
Conseguiu parar de ligar para ele. Mas está sempre olhando no orkut e no facebook o que ele está fazendo.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
TERCEIRO DIA: Promete para si mesma que vai parar de olhar no orkut e facebook o que ele está fazendo. Mas não tem muito sucesso.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
QUARTO DIA:
Tentando se distrair, vai caminhar um pouco pela cidade. Quase atropela um poste que destaca na sua cara a propaganda:
Calma! Brincadeira! Não era este cartaz não! Era um cartaz SÉRIO de uma vidente que prometia trazer a pessoa amada de volta em sete dias. CLARO que ela nem cogitou fazer isso, afinal, ela o queria de volta sim... mas caminhando com as próprias pernas, pedindo perdão, dizendo que ele percebeu o quanto ela é valiosa e singular. Que ninguém conseguiria fazê-lo feliz. etc etc etc
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
QUINTO DIA:
Uma amiga telefona para avisar (afinal é amiga dela) que o ex está saindo com uma amiga em comum. Ela ri histericamente e diz que isso é um absurdo. Que ela jamais vai acreditar em um boato desses. E desliga o telefone na cara da amiga!
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
SEXTO DIA:
Ela fica de tocaia desde cedo, em seu fusca vermelho, próximo da residência dele, para ver se o pega no flagra. Ainda bem que, prevenida como é, levou comida, água e uma garrafa para o xixi. Depois de quase 20 horas, ele sai de casa e ela o vê pegar uma amiga e irem ao cinema.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
SÉTIMO DIA:
Ela pega a propaganda que havia guardado e vai atrás da mulher que traz o amor de volta!
CLARO que ela não acredita nestas coisas. Mas não custa tentar, não é?
Lá, em uma sala escura, a mulher lhe dá fósforos e pede que acenda a vela, junto com ela, dizendo o nome dele. A mulher acenderá a segunda vela, dizendo o seu nome. Assim o fazem. É neste momento que algo acontece:
E ela começa a acreditar que ele voltará! A mulher, depois de receber os cem reais iniciais, diz que ela terá que fazer o segundo pagamento quando houver o reencontro, caso contrário eles se separarão para sempre.
Ela sorri, concordando e vai para casa.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
PRIMEIRO DIA:
Vai para a academia, faz cabelo e unhas no salão, compra um vestido novo.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
SEGUNDO DIA:
Fica a maior parte do tempo na janela de casa, olhando para a rua, com um sorriso besta no rosto.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
TERCEIRO DIA:
Começa a duvidar de que aquilo realmente aconteceu.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
QUARTO DIA:
Começa a pensar que é uma burra idiota que gastou cem reais à toa. Mas pretende voltar lá para pegar o dinheiro de volta!
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
QUINTO DIA:
Está cada vez mais enfurecida, imaginando que arrebentará a cara daquela trambiqueira que se aproveita do desespero das amantes.
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
SEXTO DIA:
Fica imaginando palavras e frases ferinas para jogar na cara daquela mulherzinha que teve o topete de fazer algo tão horrível!
TUM TUM (Som do seriado policial Law & Order)
SÉTIMO DIA:
Sai de casa atordoada, cheia de raiva, pega o carro e dirige à toda, pela rua quase vazia por ser um feriado.
Fica remoendo as palavras da mulher: "em sete dias você terá seu amado de volta" "de volta" "de volta" "terá seu amado"
Com raiva, chorando, quase não vê o corcel negro que vinha no sentido oposto e que perdeu a direção e que está vindo ao seu encontro.
(música de final do seriado policial Law & Order)
O conto acabou, mas... só para descontrair:
(texto: Susan Blum - totalmente fictício, CLARO. Imagens: internet)
Vídeo : Trago a pessoa de volta
novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......
convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
REAL - Ler e infância
Relendo o livro "A psicanálise dos contos de fadas", de Bruno Bettelheim, para a finalização de um artigo, acho algo que quero compartilhar!
“Para que uma história realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar a sua curiosidade. Contudo, para enriquecer a sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras as suas emoções; estar em harmonia com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam. Resumindo, deve relacionar-se simultaneamente com todos os aspectos de sua personalidade (...)” (BETTELHEIM, 2007, p. 11)
“Para que uma história realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar a sua curiosidade. Contudo, para enriquecer a sua vida, deve estimular-lhe a imaginação: ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras as suas emoções; estar em harmonia com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam. Resumindo, deve relacionar-se simultaneamente com todos os aspectos de sua personalidade (...)” (BETTELHEIM, 2007, p. 11)
Concordo também quando Bettelheim afirma que: "A aquisição de habilidades, inclusive a de ler, fica destituída de valor quando o que se aprendeu a ler não acrescenta nada de importante à nossa vida". (p. 11). A cada dia me pergunto: o que aprendi hoje? O que me foi acrescentado de bom hoje? O que li de interessante? O que desmistifiquei hoje? Se tenho alguma resposta, isso me basta. Vivi o dia de hoje!
Ou seja, leiam! Passei boa parte da infância lendo e relendo as fábulas de La Fontaine. AMAVA os contos dos irmãos Grimm. Pena que não tenho mais estes livros.
Pois, como disse Bettelheim, ao citar os contos de fadas, com raras exceções "...nada é tão enriquecedor e satisfatório, seja para a criança, seja para o adulto, do que o conto de fadas popular". E aproveite para ler os livros que analisam os contos de fadas, para compreender mais da leitura. Por exemplo: "Mulheres que correm com lobos".
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
REAL - Loucuras...
Um querido amigo solicitou que eu escrevesse algo sobre a época em que trabalhei como psicóloga.
Como faz muito tempo e não mais me atualizei sobre isso, apenas colocarei aqui lembranças vagas de uma louquinha que um dia resolveu fazer a faculdade de Psicologia.
Então, quem esperava aqui no post algo do tipo Rita Lee:
Mania de você... esqueça!
Vou contar um pouquinho de minhas experiências com a "loucura" durante a faculdade.
1. Psicologia escolar.
Estágio em uma escola próxima da PUC (na época).
Claro que peguei um caso bem diferente:
uma menininha tinha perdido o irmão mais velho há pouco, assassinado. Atendi a aluna e depois fui na sala em que nos reuníamos para contar para nossa supervisora sobre a manhã de estágio. Enquanto esperávamos a professora, cada uma contava sobre o que tinha acontecido. Quando falei que a minha "aluna-paciente" via e conversava com o irmão morto foi um tal de "uau" "você pegou um caso de esquizofrenia" "a menina está piradona" "neurose pura" etc. Ingênua que eu era, não falava o que pensava. Na época (eu tinha uns 19-20 anos) eu era uma ignorante tímida, que receava falar o que pensava (em parte resquícios de uma infância com um pai nordestino militar e uma mãe alemã, além de 3 irmãos mais velhos).
Quando a supervisora do estágio, nossa professora, chegou, elas ficaram excitadas para que eu contasse logo o meu "caso". Comentei. Ela perguntou: "o que vocês acham que é?"
Cada uma foi falando que era caso de neurose, psicose, esquizofrenia, etc.
Então a professora se virou para mim e perguntou: "e você, Susan, o que acha?"
Tomei coragem e disse que achava que não era nada disso. Ele era o irmão favorito e foi assassinado quase que na frente dela. Para mim era uma tentativa de "luto" da menina, um luto prolongado, pois ela tentava ter o irmão por perto sempre.
Enquanto comentava isso percebia pelos cantos dos olhos o ar de reprovação das colegas, mas nem liguei. Foi uma das raras vezes de juventude que me posicionei firme. Qual a minha surpresa quando a orientadora confirmou meu ponto de vista. Comentou que provavelmente era isso, mas que eu devia acompanhar o caso bem de perto e ver a evolução. Foi uma das primeiras vezes que me senti segura como profissional.
2. Psicologia clínica.
Estágio no Hospital Psiquiátrico (na época se situava no Alto da XV, hoje não sei).
Como o tempo de estágio era só um semestre, tínhamos que escolher entre a ala masculina, feminina e dos alcóolatras.
De novo, na minha inocência, achei que pegar a ala masculina seria a pior. Acreditei que poderia lidar melhor com as mulheres. Mas na primeira semana esta ala estava "lotada" de alunos e a professora resolveu fazer um pouco em cada uma. Iniciei com a feminina.
a. Ala Feminina: Nunca em minha vida fui tão tocada, assediada e cantada por mulheres em toda a minha vida. Foi difícil lidar com elas e com a sensação de repulsa que me provocavam na época (depois fui aprendendo a controlar minhas emoções).
b. Alcoolismo: Depois fiquei um tempo na ala dos alcóolatras. O dia mais impressionante foi quando eu estava tentando conversar com um deles (a polícia os levava quando os encontrava na rua, caídos). Eles ficavam deitados, recebendo soro. Teve uma hora que ele parou de me ouvir, olhou apavorado para os lençóis em cima de seu corpo e começou a gesticular desesperado para que eu o ajudasse a tirar os ratos de cima dele. Com os gritos e os gestos eu me senti acuada e comecei a "espantar" os ratos de cima dele. Não sei porque aquele foi meu último dia nesta ala.
c. Ala Masculina: aqui foram dois casos tragi-cômicos. Conto os dois: pediram que eu pegasse a chave do quarto de um paciente, disseram que eu jamais deveria deixar ele sair do quarto. OK. Fui... longo corredor cheio de portas. CLARO que o quarto do "meu" paciente era o último do longo corredor. Abri e olhei: ele sentado na cama, pernas cruzadas altas, braços ao redor das pernas, balançando o corpo e falando baixinho. Olhou-me de esguelha. Não me pareceu agressivo. Entrei e tranquei a porta. Sentei ao pé da cama e fiquei conversando com ele. Até que o mesmo vira os olhos para a parte superior da parede oposta a nós (ao lado da porta) e pede silêncio para mim com o dedo nos lábios. Fico quieta e inicio uma apreensão. Pergunto depois de algum tempo de silêncio: "o que foi?" E ele diz apontando para o local antes indicado: "é o Sol. Ele está falando comigo!". Eu por dentro: "aimeudeus... e agora? Pergunto ou não pergunto o que o sol está falando para ele?" Antes que eu me respondesse, ele se volta com olhar desconfiado e indaga: "quer saber o que ele está me dizendo?" Como sua voz me pareceu um pouco alterada, eu disse que não precisava e me levantei "calmamente". Ele também se levanta. Não me recordo (eu juro que não lembro MESMO), o que foi dito por nós naquele looongooo trajeto entre a cama e a porta (naquele cubículo que devia ter 2 ou 3 metros quadrados). Só lembro de estar do lado de fora da porta, trancando a mesma com dedos trêmulos e suspirando aliviada.
Quando termino de trancar e me viro para o longo corredor, vejo um "louco" gritando e correndo na minha direção. É final do corredor, lembra? O que devo fazer? Olho para a porta da qual acabei de sair com alívio e olho de novo para o "louco", que grita, correndo na minha direção. Quando finalmente enfio a chave na fechadura ele já está ao meu lado, bate com a mão na parede atrás de mim e volta correndo para o início do corredor (ainda gritando).
Você sabe o que é paralisia e pernas tremendo? Neste dia eu soube!
Saio dali devagar. Rezando para que o semestre acabe logo!
3. Psicologia hospitalar.
Estágio no Hospital Pequeno Príncipe e Cesar Perneta.
Quando passamos por situações ruins temos a tendência de pensar: "o pior já passou". Afinal, o que poderia ser pior do que estas situações acima citadas? Ledo engano! A área de atuação que me deram no Hospital? Crianças na oncologia! Não tinha UM dia em que eu não saísse dali abalada. Ver crianças com câncer (naquela época) era como ver um condenado à morte. Muitas que eu tratava em uma semana, em meu retorno na semana seguinte já não estavam mais ali.
Meu caso: uma menina de 13 anos que tinha que amputar a perna por causa de um tumor ósseo. Conseguem imaginar? uma menina (na idade da vaidade) ter que saber que perderá uma perna. E eu teria que preparar a paciente para receber a notícia.
Como eu gostava da ludoterapia, a levei até a sala de ludo. Coisas acontecem, que não sei explicar. Enquanto a levava para a sala, empurrando a cadeira de rodas, eu ficava imaginando como faria isso. Para minha sorte um dos primeiros brinquedos que ali vi era o E.T. (na época um filme recente).
Peguei o boneco e ficamos conversando sobre o filme, relembrei que a primeira impressão que tiveram do E.T não foi boa por causa da aparência diferente dele, mas que depois todos o aceitaram porque viram como ele era por dentro. Na verdade tudo isso eu tirei da menina sem falar nada, apenas perguntando e ela foi mostrando e percebendo que o ET por dentro era tão bonito que permitia amizades verdadeiras e etc.. um blá blá blá de dias que me permitiu que eu conversasse com ela sobre a amputação sem maiores danos. Ela mesma refletiu sobre as conversas anteriores sobre o boneco. E percebi o quanto isso a ajudou quando, no dia da cirurgia, ela pediu que o boneco fosse junto.
Como faz muito tempo e não mais me atualizei sobre isso, apenas colocarei aqui lembranças vagas de uma louquinha que um dia resolveu fazer a faculdade de Psicologia.
Então, quem esperava aqui no post algo do tipo Rita Lee:
Mania de você... esqueça!
Vou contar um pouquinho de minhas experiências com a "loucura" durante a faculdade.
1. Psicologia escolar.
Estágio em uma escola próxima da PUC (na época).
Claro que peguei um caso bem diferente:
uma menininha tinha perdido o irmão mais velho há pouco, assassinado. Atendi a aluna e depois fui na sala em que nos reuníamos para contar para nossa supervisora sobre a manhã de estágio. Enquanto esperávamos a professora, cada uma contava sobre o que tinha acontecido. Quando falei que a minha "aluna-paciente" via e conversava com o irmão morto foi um tal de "uau" "você pegou um caso de esquizofrenia" "a menina está piradona" "neurose pura" etc. Ingênua que eu era, não falava o que pensava. Na época (eu tinha uns 19-20 anos) eu era uma ignorante tímida, que receava falar o que pensava (em parte resquícios de uma infância com um pai nordestino militar e uma mãe alemã, além de 3 irmãos mais velhos).
Quando a supervisora do estágio, nossa professora, chegou, elas ficaram excitadas para que eu contasse logo o meu "caso". Comentei. Ela perguntou: "o que vocês acham que é?"
Cada uma foi falando que era caso de neurose, psicose, esquizofrenia, etc.
Então a professora se virou para mim e perguntou: "e você, Susan, o que acha?"
Tomei coragem e disse que achava que não era nada disso. Ele era o irmão favorito e foi assassinado quase que na frente dela. Para mim era uma tentativa de "luto" da menina, um luto prolongado, pois ela tentava ter o irmão por perto sempre.
Enquanto comentava isso percebia pelos cantos dos olhos o ar de reprovação das colegas, mas nem liguei. Foi uma das raras vezes de juventude que me posicionei firme. Qual a minha surpresa quando a orientadora confirmou meu ponto de vista. Comentou que provavelmente era isso, mas que eu devia acompanhar o caso bem de perto e ver a evolução. Foi uma das primeiras vezes que me senti segura como profissional.
2. Psicologia clínica.
Estágio no Hospital Psiquiátrico (na época se situava no Alto da XV, hoje não sei).
Como o tempo de estágio era só um semestre, tínhamos que escolher entre a ala masculina, feminina e dos alcóolatras.
De novo, na minha inocência, achei que pegar a ala masculina seria a pior. Acreditei que poderia lidar melhor com as mulheres. Mas na primeira semana esta ala estava "lotada" de alunos e a professora resolveu fazer um pouco em cada uma. Iniciei com a feminina.
a. Ala Feminina: Nunca em minha vida fui tão tocada, assediada e cantada por mulheres em toda a minha vida. Foi difícil lidar com elas e com a sensação de repulsa que me provocavam na época (depois fui aprendendo a controlar minhas emoções).
b. Alcoolismo: Depois fiquei um tempo na ala dos alcóolatras. O dia mais impressionante foi quando eu estava tentando conversar com um deles (a polícia os levava quando os encontrava na rua, caídos). Eles ficavam deitados, recebendo soro. Teve uma hora que ele parou de me ouvir, olhou apavorado para os lençóis em cima de seu corpo e começou a gesticular desesperado para que eu o ajudasse a tirar os ratos de cima dele. Com os gritos e os gestos eu me senti acuada e comecei a "espantar" os ratos de cima dele. Não sei porque aquele foi meu último dia nesta ala.
c. Ala Masculina: aqui foram dois casos tragi-cômicos. Conto os dois: pediram que eu pegasse a chave do quarto de um paciente, disseram que eu jamais deveria deixar ele sair do quarto. OK. Fui... longo corredor cheio de portas. CLARO que o quarto do "meu" paciente era o último do longo corredor. Abri e olhei: ele sentado na cama, pernas cruzadas altas, braços ao redor das pernas, balançando o corpo e falando baixinho. Olhou-me de esguelha. Não me pareceu agressivo. Entrei e tranquei a porta. Sentei ao pé da cama e fiquei conversando com ele. Até que o mesmo vira os olhos para a parte superior da parede oposta a nós (ao lado da porta) e pede silêncio para mim com o dedo nos lábios. Fico quieta e inicio uma apreensão. Pergunto depois de algum tempo de silêncio: "o que foi?" E ele diz apontando para o local antes indicado: "é o Sol. Ele está falando comigo!". Eu por dentro: "aimeudeus... e agora? Pergunto ou não pergunto o que o sol está falando para ele?" Antes que eu me respondesse, ele se volta com olhar desconfiado e indaga: "quer saber o que ele está me dizendo?" Como sua voz me pareceu um pouco alterada, eu disse que não precisava e me levantei "calmamente". Ele também se levanta. Não me recordo (eu juro que não lembro MESMO), o que foi dito por nós naquele looongooo trajeto entre a cama e a porta (naquele cubículo que devia ter 2 ou 3 metros quadrados). Só lembro de estar do lado de fora da porta, trancando a mesma com dedos trêmulos e suspirando aliviada.
Quando termino de trancar e me viro para o longo corredor, vejo um "louco" gritando e correndo na minha direção. É final do corredor, lembra? O que devo fazer? Olho para a porta da qual acabei de sair com alívio e olho de novo para o "louco", que grita, correndo na minha direção. Quando finalmente enfio a chave na fechadura ele já está ao meu lado, bate com a mão na parede atrás de mim e volta correndo para o início do corredor (ainda gritando).
Você sabe o que é paralisia e pernas tremendo? Neste dia eu soube!
Saio dali devagar. Rezando para que o semestre acabe logo!
3. Psicologia hospitalar.
Estágio no Hospital Pequeno Príncipe e Cesar Perneta.
Quando passamos por situações ruins temos a tendência de pensar: "o pior já passou". Afinal, o que poderia ser pior do que estas situações acima citadas? Ledo engano! A área de atuação que me deram no Hospital? Crianças na oncologia! Não tinha UM dia em que eu não saísse dali abalada. Ver crianças com câncer (naquela época) era como ver um condenado à morte. Muitas que eu tratava em uma semana, em meu retorno na semana seguinte já não estavam mais ali.
Meu caso: uma menina de 13 anos que tinha que amputar a perna por causa de um tumor ósseo. Conseguem imaginar? uma menina (na idade da vaidade) ter que saber que perderá uma perna. E eu teria que preparar a paciente para receber a notícia.
Como eu gostava da ludoterapia, a levei até a sala de ludo. Coisas acontecem, que não sei explicar. Enquanto a levava para a sala, empurrando a cadeira de rodas, eu ficava imaginando como faria isso. Para minha sorte um dos primeiros brinquedos que ali vi era o E.T. (na época um filme recente).
Peguei o boneco e ficamos conversando sobre o filme, relembrei que a primeira impressão que tiveram do E.T não foi boa por causa da aparência diferente dele, mas que depois todos o aceitaram porque viram como ele era por dentro. Na verdade tudo isso eu tirei da menina sem falar nada, apenas perguntando e ela foi mostrando e percebendo que o ET por dentro era tão bonito que permitia amizades verdadeiras e etc.. um blá blá blá de dias que me permitiu que eu conversasse com ela sobre a amputação sem maiores danos. Ela mesma refletiu sobre as conversas anteriores sobre o boneco. E percebi o quanto isso a ajudou quando, no dia da cirurgia, ela pediu que o boneco fosse junto.
Enfim, estas foram algumas aventuras de uma estudante de Psicologia.
(imagens: obras de arte, foto do Manicômio do Juqueri, imagens retiradas da internet)
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
REAL (e dolorido) - MULHERES
Quando me formei em Psicologia, em 1987, fui trabalhar em um posto de saúde de um bairro de Curitiba. A Associação era o Madalena Sofia, o bairro ficava quase em Colombo.
Lá, não eram raros os casos de mulheres que apanhavam do marido (a ponto de ter que ir na casa dela fazer curativos). Eu acompanhava a enfermeira até a casa da mulher que às vezes sequer conseguia sair da cama (quem chamava a gente era algum dos diversos filhos). Quando dizíamos que precisavam denunciar, estas mulheres ficavam com medo. Geralmente afirmavam que era o marido delas, que não podiam fazer isso. Vocês não imaginam minha tristeza, pois sequer podíamos chamar a polícia ou dar queixa (na época o flagrante tinha que ser dado).
Algumas vezes o marido era alcóolatra ( o que não é desculpa), mas em outras ele era violento pelo simples prazer de poder descontar no corpo da mulher as mazelas do dia a dia (o que sempre considerei pior).
Eu dizia para a vizinha que devia chamar a polícia quando ouvisse os berros, mas ela também tinha medo de represálias.
Hoje leio que em Curitiba a Delegacia da Mulher recebe 30 denúncias por dia. E reflito.
Pergunto-me se o número de casos aumentaram ou se é a denúncia que finalmente está sendo feita! Acho que as mulheres estão reagindo mais (finalmente).
Sobre a violência doméstica, eu penso: fui casada por 4 anos e também tive alguns relacionamentos. Em nenhum deles recebi sequer um tapa! (e jamais permitiria). Apenas em um percebi uma certa violência por parte dele (mais verbal) que já me alertou e me afastei aos poucos.
Casos de homens covardes que agridem a mulher (seja com ações ou palavras) me dão nojo. Sei, por experiência, que não é necessário um relacionamento com desrespeito. Sou do tipo de pessoa que detesta LEVANTAR a voz, quanto mais brigar e gritar. Não me sinto bem com atitudes assim.
Mas desrespeitar o outro só porque ele pensa ou sente de forma diferente. Gritar com alguém, ou mandar calar a boca, são, na minha opinião, de uma falta de respeito enorme.
Por isso, denunciem SIM!
E caso o homem que está ao seu lado levante o tom de voz, já abra os olhos e analise-o bem. Perceba como ele é. Cuide-se. E se afaste enquanto há tempo. Pois não são raros os casos de homens que não sabem "perder" uma mulher e acabam indo atrás para matar.
Por fim, um link para um conto meu (aqui do blog). Vovozinha, cadê você? E comento um pouco sobre a Marcha das Vadias (da qual faço parte, no face). Entendam o porquê desse nome! Respeitem as mulheres.
Lá, não eram raros os casos de mulheres que apanhavam do marido (a ponto de ter que ir na casa dela fazer curativos). Eu acompanhava a enfermeira até a casa da mulher que às vezes sequer conseguia sair da cama (quem chamava a gente era algum dos diversos filhos). Quando dizíamos que precisavam denunciar, estas mulheres ficavam com medo. Geralmente afirmavam que era o marido delas, que não podiam fazer isso. Vocês não imaginam minha tristeza, pois sequer podíamos chamar a polícia ou dar queixa (na época o flagrante tinha que ser dado).
Algumas vezes o marido era alcóolatra ( o que não é desculpa), mas em outras ele era violento pelo simples prazer de poder descontar no corpo da mulher as mazelas do dia a dia (o que sempre considerei pior).
Eu dizia para a vizinha que devia chamar a polícia quando ouvisse os berros, mas ela também tinha medo de represálias.
Hoje leio que em Curitiba a Delegacia da Mulher recebe 30 denúncias por dia. E reflito.
Pergunto-me se o número de casos aumentaram ou se é a denúncia que finalmente está sendo feita! Acho que as mulheres estão reagindo mais (finalmente).
Sobre a violência doméstica, eu penso: fui casada por 4 anos e também tive alguns relacionamentos. Em nenhum deles recebi sequer um tapa! (e jamais permitiria). Apenas em um percebi uma certa violência por parte dele (mais verbal) que já me alertou e me afastei aos poucos.
Casos de homens covardes que agridem a mulher (seja com ações ou palavras) me dão nojo. Sei, por experiência, que não é necessário um relacionamento com desrespeito. Sou do tipo de pessoa que detesta LEVANTAR a voz, quanto mais brigar e gritar. Não me sinto bem com atitudes assim.
Mas desrespeitar o outro só porque ele pensa ou sente de forma diferente. Gritar com alguém, ou mandar calar a boca, são, na minha opinião, de uma falta de respeito enorme.
Por isso, denunciem SIM!
E caso o homem que está ao seu lado levante o tom de voz, já abra os olhos e analise-o bem. Perceba como ele é. Cuide-se. E se afaste enquanto há tempo. Pois não são raros os casos de homens que não sabem "perder" uma mulher e acabam indo atrás para matar.
Por fim, um link para um conto meu (aqui do blog). Vovozinha, cadê você? E comento um pouco sobre a Marcha das Vadias (da qual faço parte, no face). Entendam o porquê desse nome! Respeitem as mulheres.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
REAL (ficção) - Densidades pessoais
Imagina que experiência fantástica para se fazer em sala. Não é a minha área, mas adoraria ter visto isso quando criança: colocar os líquidos e perceber a não mistura. Depois jogar o parafuso, a frutinha e a bola de ping pong. Estudar as densidades. Eu ia adorar! (foi assim que começou a minha indagação sobre esta imagem, no face... que derivou em outra... abaixo exposta)
Caso eu fizesse isso em sala, seria com outro propósito: como metáfora da psicologia de cada um. Pessoas com mais ou menos "densidade psicológica". hehe
Pessoas que são como parafusos, passando por todas as outras direto, sem parar para pedir desculpas.
Outras, mais "frutas", até atravessam os outros, mas param com pessoas mais "duras" que elas.
Há também pessoas como bolas de ping pong, que têm a delicadeza e leveza de sempre cuidar dos sentimentos dos demais.
Mas percebam que:
- o parafuso chega ao seu final.
- a fruta para no meio do caminho. Desiste de seu objetivo ao chegar em alguém mais duro.
- a bola nem sai do lugar.
Ora, não somos fruta, bola ou parafuso. Somos seres humanos, seres pensantes e emocionais. Como podemos equilibrar isso?
Sabendo o momento certo de ser parafuso, fruta ou bola.
Aprendi, na vida, que há momentos em que devemos apenas ouvir, mas que há instantes que devemos apontar para a pessoa o que ela acabou de dizer. Fazer ela pensar mais sobre o porquê de ter dito algo. Ou seja, às vezes temos que ser duros com os amigos. Mostrar os erros. Já em outras vezes temos que ser rígidos com alguém, mas só até certo ponto. E tem momentos que a pessoa precisa que apenas fiquemos quietos, ouvindo. Uma bola de ping pong sem reação. Seremos apenas um espelho dela, que SE ouvirá.
Temos que lembrar que as pessoas têm sim uma densidade. Seja emocional (aqueles que são parafuso porque em algum momento se machucaram na vida), seja física (são fortes fisicamente falando, não necessariamente psicologicamente ou emocionalmente), enfim...
O importante é saber quando agir, quando calar, e perceber a densidade de cada um. Respeitar os limites (seus e do outro). Admirar a densidade (sua ou do outro).
Caso eu fizesse isso em sala, seria com outro propósito: como metáfora da psicologia de cada um. Pessoas com mais ou menos "densidade psicológica". hehe
Pessoas que são como parafusos, passando por todas as outras direto, sem parar para pedir desculpas.
Outras, mais "frutas", até atravessam os outros, mas param com pessoas mais "duras" que elas.
Há também pessoas como bolas de ping pong, que têm a delicadeza e leveza de sempre cuidar dos sentimentos dos demais.
Mas percebam que:
- o parafuso chega ao seu final.
- a fruta para no meio do caminho. Desiste de seu objetivo ao chegar em alguém mais duro.
- a bola nem sai do lugar.
Ora, não somos fruta, bola ou parafuso. Somos seres humanos, seres pensantes e emocionais. Como podemos equilibrar isso?
Sabendo o momento certo de ser parafuso, fruta ou bola.
Aprendi, na vida, que há momentos em que devemos apenas ouvir, mas que há instantes que devemos apontar para a pessoa o que ela acabou de dizer. Fazer ela pensar mais sobre o porquê de ter dito algo. Ou seja, às vezes temos que ser duros com os amigos. Mostrar os erros. Já em outras vezes temos que ser rígidos com alguém, mas só até certo ponto. E tem momentos que a pessoa precisa que apenas fiquemos quietos, ouvindo. Uma bola de ping pong sem reação. Seremos apenas um espelho dela, que SE ouvirá.
Temos que lembrar que as pessoas têm sim uma densidade. Seja emocional (aqueles que são parafuso porque em algum momento se machucaram na vida), seja física (são fortes fisicamente falando, não necessariamente psicologicamente ou emocionalmente), enfim...
O importante é saber quando agir, quando calar, e perceber a densidade de cada um. Respeitar os limites (seus e do outro). Admirar a densidade (sua ou do outro).
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
FICÇÃO - Ora, direis, ouvir gatos!
Ora (direis) Ouvir Gatos!
"Ora (direis) ouvir gatos! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-los, muita vez desperto
E abro os olhos, colorida de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
o universo, como um relógio aberto,
canta. E, ao final da noite, quase em pranto,
Os vejo sumir pelo solo deserto.
Direis agora: "Tresloucada amiga!
Que conversas com eles? Que sentido
tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos alertarei: "Amai para entendê-los!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender gatos."
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-los, muita vez desperto
E abro os olhos, colorida de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
o universo, como um relógio aberto,
canta. E, ao final da noite, quase em pranto,
Os vejo sumir pelo solo deserto.
Direis agora: "Tresloucada amiga!
Que conversas com eles? Que sentido
tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos alertarei: "Amai para entendê-los!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender gatos."
(com o perdão de Bilac, minha homenagem aos gatos)
(Imagem: Capa New Yorker - jan 2013. Paródia: Susan Blum)
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
FICÇÃO - Capi, a fugitiva
Meu bichinho de estimação sumiu.
Pura e simplesmente sumiu daqui de casa!
Fiquei procurando feito doida, perguntando para todos se tinham visto a Capi. Nada! Nenhum vizinho a viu.
Até que um dia, no face, ela apareceu em uma foto! Descobriram onde estava a Capi.
Quando a vi apenas suspirei:
"ah! foi lá que a Capi foi! Bem que ela disse que ia fugir de casa... eu não dei bola... deu no que deu!"
Visita incomum: capivara aparece na Rodoferroviária de Curitiba e chama atenção de usuários.
O pior de tudo foi ficar ouvindo as piadinhas pelo face:
- Está iniciando a Revolução dos Animais!!
- Você tem que parar de usar a vara na Capi ! Ela foge..
O pior de tudo foi ficar ouvindo as piadinhas pelo face:
- Está iniciando a Revolução dos Animais!!
- Você tem que parar de usar a vara na Capi ! Ela foge..
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