novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......
convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

sábado, 7 de setembro de 2013

FICÇÃO - O ESTRANHO CASO DE GRACE UEI

Grace acordou cega.
Abriu seus olhos como sempre, mas não viu o teto de seu quarto, que era pintado de céu noturno, com aquelas estrelas e planetas que brilham após um tempo de luz incidindo sobre eles. Fechou seus olhos de novo, imaginando que estava ainda em um sonho. Mas quando os abriu novamente, lentamente, a escuridão teimou em fixar-se ao seu redor.
Apavorada, gritou pelos seus pais. Eles a vestiram rapidamente, e a levaram ao hospital de Olhos. Lá, o oftalmologista usou sua lanterninha e verificou que suas pupilas não reagiam à luz.
Fizeram uma anamnese. Descobriram que há algum tempo sua acuidade visual estava piorando. Primeiro sua visão periférica. Ela tinha que voltar seu rosto para poder realmente enxergar o que estava ao lado. Depois a sua eficiência visual foi diminuindo, e ela começou a andar mais devagar, observando mais as coisas para não tropeçar ou cair. Mas só agora estava falando isso. Primeiro porque não queria preocupar os pais, segundo porque achava que era simples stress, e que logo passaria.
Outro dia, enquanto estava na sala de espera e sua mãe havia ido ao banheiro, ela sente um cheiro estranho que se aproxima, e uma mão acaricia seu rosto dizendo: “tudo ficará bem”. Aquela sensação de uma mão estranha permanece em seu rosto.
Marcaram-se novos exames.
Ela voltou para casa, mas sua vida passou a ter novas visões literalmente. Os caminhos tão trilhados, do quarto para a cozinha ou banheiro passaram a ser labirintos obscuros e trincados, cheios de armadilhas. Tomar banho, hábito tão diário e natural, passou a ser um estranhamento constante. Para Grace era como se fosse outra mão que estivesse limpando seu corpo.
Alimentar-se. Beber água. Torturas constantes em que precisava - pessoa tão independente que era - de outros para a ajudarem. Aprendeu o sistema de relógio: arroz às seis, bife às três, batatas meio-dia, feijão às nove. Grace que tinha tanta mania de limpeza e que lavava suas mãos logo ao entrar em casa, agora tinha que enfiar um dedo em seu copo para sentir aonde a água ou suco chegava. Lavar louça! Tanto quebrou que quase pensou em comprar louça de acrílico ou plástico.
Vestir-se. Outro terrorismo da cegueira. As meias são as mesmas? As cores de roupa combinam? Percebeu que certas roupas que usava antes com frequência (segundo a família) lhe eram agora “nojentas” ao tato. Recusava-se a usar aquele vestido tão batido de outrora (hoje tão duro, tão seco, tão arranhoso no corpo). Mas a maciez de outro, que ela nunca usava antes lhe agradou tanto que preferiu usá-lo agora, pois o Sentia abraçando seu corpo, num aconchego que ela tanto necessitava. Uma segunda pele protetora.
Com o tempo ela tenta se lembrar de como é seu rosto, mas percebe que ele se desfocou e permanece como nebulosa incógnita. Desorientada, um pouco apavorada, pede para sua mãe que a descreva.
Grace, seu rosto é gracioso e feminino. Seus olhos amendoados castanho- escuros são doces como mel, suas faces rosadas são maçãs de desejos, há uma marquinha de nascença entre seus olhos -, e o seu rosto vai se desenhando com as palavras de sua mãe.

Os exames médicos foram rareando. Essa doença estranha, tratada apenas como um caso extraordinário. Chamavam-no: “O estranho caso de Grace Uei”. Ou: “a cegueira de Grace Uei”. Psicólogos, oftalmologistas, cientistas, pesquisadores do mundo todo já haviam manuseado (literalmente) Grace durante este escuro ano.
Grace acorda para mais um dia. Abre os olhos e .. surpresa! As estrelas e planetas a saúdam, como se nunca tivessem saído dali. Ou como tivessem apenas feito uma rotação ou translação e tivessem voltado ao ponto de partida. Ela olha, extasiada, suas mãos, seu quarto, o caminho até o banheiro. A alegria de poder rever todas as coisas tanto reconhecidas pelo tato. A surpresa de ver as mudanças na casa... isso tudo foi enchendo Grace de uma graça suprema.
Ao entrar no banheiro corre ao espelho.
E se assusta.
Uma criatura a encara. Uma pessoa com olhos de enxofre.    
(este conto está na coletânea "Então, é isso?" e também na revista Zunai - 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

REAL - Crônica Toda Letra - Amar pode matar.

Mais uma crônica saiu!
A primeira de setembro.
Que venha a primavera com seus renascimentos!
http://www.todaletra.com.br/cat/coluna-da-susan/

Copio aqui na íntegra, caso não queiram ir até o site. Mas recomendo que comentem por lá.

************************

Amar pode matar!

Por Toda Letra em 2 de setembro de 2013
Creio que todos já conheceram alguma mulher muito doce, gentil, meiga e amorosa. Cuidado! As aparências enganam. Não. Não estou dizendo que ela não é carinhosa e meiga. Ou que não ama. Sim. Ela ama. Mas este amor, esta meiguice, este carinho pode acabar matando, sufocando ou só afastando as pessoas.
Esta mulher geralmente é ótima para amizades. Mas não consegue ter um relacionamento e sempre coloca a culpa no outro. “Mas eu fiz tudo por ele!”, “Eu me dediquei. Doei-me totalmente”, “Eles são ingratos. Não sabem o que querem”. Estas são frases correntes desta mulher.
Não a culpem. Ela não tem consciência disso. Acredita de verdade que é “perfeita” e que os homens é que não sabem o que querem, afinal, eles finalmente encontraram uma pessoa incrível (inteligente, meiga, dócil, maravilhosa). Como podem não perceber isso?
Na vida, amadurecemos nos momentos certos. Conheço pessoas que são maduras com dez anos de idade. Outras com vinte. Mas a maioria amadurece quando tem trinta ou quarenta anos. Pois bem! Esta semana farei cinquenta anos. E o meu maior presente foi descobrir que sou imatura! Que ainda tenho MUITO a crescer, aprender, destruir e conhecer (de mim mesma).
É doloroso saber que tudo que acontece com você é culpa exclusivamente sua. Que de nada adianta tentar colocar a culpa nas circunstâncias, nas pessoas etc. Não devemos fazer isso nunca. Devemos perceber QUEM realmente somos.
Para estas mulheres que são Felícia (descobri um pouco dela em mim, com horror), que amam tanto que querem prender (fazendo surpresinhas, dando presentes, tentando sempre dar apoio e amor), peço que abram os olhos. Que percebam o quanto isso sufoca, o quanto acaba matando.
felícia
Deixem as pessoas e as coisas que vocês amam livres! Sei que falar é fácil. Que a mente aceita e acha bonito. Mas devemos praticar isso. Liberdade, PRATIQUEM!
Sugestão de uma mulher nada sábia? Canalizem este amor imenso com atos caridosos para quem precisa. Logo divulgarei um projeto muito bacana que espero que sirva como filete de água para diversos rios futuros.
Conhecem a velha frase de Quintana? “O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”? Alguns dizem que na verdade é outra frase: “Não corra atrás das borboletas; plante uma flor em seu jardim e todas as borboletas virão até ela” – D. Elhers. Independente da autoria, estas frases são verdadeiras!
Que o mês de setembro, com a primavera, permita esta reflexão dentro de cada um de nós! Devemos plantar amor e permitir que as flores sejam livres (não as prendam em vasos). E que venham as borboletas!
*Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUC-Pr, 86) e em Letras (Universidade Federal do Paraná – UFPR, 2003). Mestre em estudos literários (UFPR, 2004). Possui publicações acadêmicas em revistas literárias como Fragmentos (UFSC), Letras (UFPR), Magma (USP) e Alpha (Unipam). Autora do livro de contos Novelos Nada Exemplares (2010) e participante da coletânea de contos (de autores paranaenses) Então, é isso? (2012). Pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início em 1999, ministra cursos de criação literária no CELIN da UFPR (desde 2008) e escreve quinzenalmente para a Toda Letra.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

REAL - Cortázar e Bix Beiderbecke

Uma breve leitura de Bix Beiderbecke


Se o caro leitor dessas cronópias linhas ainda não leu o conto inacabado de Cortázar, por favor, procure-o imediatamente. Finalmente traduzido, por Cassiano Viana, e lido no Odeon (Cinelândia - Rio de Janeiro) em 12 de julho de 2006, Bix Beiderbecke é considerado o último conto escrito por Cortázar.
O conto, como já dito, é inacabado. Ele termina em reticências porque foi impossível decifrar as últimas palavras, conforme citação de Cassiano na publicação de Bix: “Cortázar escrevia à máquina, mas fazia suas correções à mão e nesse conto específico foi impossível decifrar as quatro últimas palavras na última página elaborada; assim, ficou resolvido que iriam publicá-lo finalizando com reticências” (Viana, 2006, p. 14). Mas, na verdade, pouco importa se Cortázar terminaria o conto com um ponto final ou até com uma exclamação! Pois as reticências e as interrogações são elementos recorrentes em sua obra (se não textualmente, com certeza em seu contexto).
Inacabado! Essa palavra incomoda. Ao lermos as últimas palavras do conto ficamos esperando mais. É típico do ser humano gostar de linearidade em sua vida, e não estou aqui falando apenas de literatura. Começo, meio e fim são importantes, seja em um caso de amor, em um trabalho ou em situações familiares. Procuramos sempre um ponto final. Aceitamos uma exclamação! Mas as interrogações e as reticências incomodam... coisas inacabadas são como promessas desfeitas. São uma situação suspensa no ar.
Apesar disso, o fato de estar inacabado não desvaloriza o conto, pois, como disse o personagem de Cristóvão Tezza em Breve espaço entre cor e sombra: “Não se surpreenda: as obras de arte também obedecem às leis do DNA. Um pedaço contém potencialmente todo o resto. (...) Eu acho que isso acontece com todas as artes. Na literatura, por exemplo. Kafka tinha o costume de não acabar os livros; não precisava. A parte contém previamente o todo” (Tezza, 1998, p. 19). Também no conto encontramos o DNA de Cortázar: um DNA visual-sonoro, um DNA espaço-tempo, um DNA erótico.
E são esses DNA minúsculos, essas reticências, que passam a povoar o interior do leitor, fazendo-o sentir-se perdido em um meio-termo, em um entre-lugar. Somos deslocados por Cortázar e empurrados através de um ponto vélico que nos revela outras realidades possíveis. Cito o ponto vélico e me coloco na obrigação de explicar o termo, ainda desconhecido para a grande maioria das pessoas. Cortázar o cita em um ensaio intitulado “do sentimento do fantástico”[1] aproveitando a escrita de Victor Hugo: “ ‘Ninguém ignora o que é o ponto vélico de um navio; lugar de convergência, ponto de intersecção misterioso até para o construtor do barco, no qual se somam as forças dispersas em todo o velame desfraldado’ (...) O fantástico força uma crosta aparente, e por isso lembra o ponto vélico; há algo que encosta o ombro para nos tirar dos eixos” (Cortázar, 1993, p. 179). Assim, considero ponto vélico qualquer elemento (pessoa, objeto, fala, acontecimento) que nos desloca, que nos faz refletir sobre novas possibilidades e sobre encontros fortuitos (que, como afirma Cortázar, não o são), que nos faz abrir os olhos para outras realidades[2].
No caso desse conto o ponto vélico é a música, que carrega em suas notas o espírito da panamenha (e do leitor) para outro espaço e tempo, mantendo contato com o músico Bix (e de certa forma, também com o político Omar). Cassiano Viana teve o cuidado profissional de levantar dados sobre os dois personagens. Descobriu que Omar é, provavelmente, Omar Torrijos Herrera, presidente do Panamá, morto em um acidente de avião em 1981. Lembrem-se que Cortázar deixou de brincar, nesta realidade, em 1984. Já Bix, músico de jazz, faleceu em 1931. Cinquenta anos separam a morte dos dois personagens do conto. Mas, e daí? Tempos e espaços são apenas formalidades. Formalidades essas que Cortázar dispensa com todo o prazer de uma criança que está brincando...
Retornando à questão musical, é interessante observar que a vida da panamenha é como um filme (imagens e sons). O visual, tanto dos olhares de Omar para ela (assim ela o achava), quanto os reflexos no espelho, de sua família que vinha observá-la “entretida” no discurso político da TV. E o sonoro com as músicas de Bix, já falecido, mas ainda vivo e presente (talvez mais do que nunca) através de sua música. Essa passagem temporal, que a música permite, já foi abordada por Cortázar em outros instantes de sua obra (“el perseguidor”, por exemplo); além da gravação que fez de alguns de seus contos em cd, e que brinca que está falando para pessoas que não estão presentes, e que depois ele pode não estar mais presente quando as pessoas o escutarem.
É o famoso estranhamento na obra de Cortázar: desordem do tempo e do espaço cotidianos. Quem garante que a panamenha não está ainda em um terceiro tempo e espaços, diferente do de Bix e diferente do de Omar? Pode-se ler o conto como o devaneio da jovem panamenha, de imaginação fértil, fantasiando Omar com seus discursos políticos e, após a morte dele, transferindo seu desejo para Bix. Afinal ela conheceu a ambos na mesma época (cf. p. 06): Omar pela televisão, (outro ponto vélico?) em que, para ela, ele apenas o fazia para observá-la no sofá. E Bix através do disco que um primo mostrou. A panamenha afirma: “Claro que Bix não podia me olhar como Omar; nos tempos de Bix não havia televisão, mas que importava?” (Viana, 2006, p. 07). Para ela, Bix a olhava como Omar, mas através da música. Assim como certas palavras de Omar eram escolhidas por ela para serem exclusivas à si própria, também certas notas ou solos eram somente para ela. Típico de adolescentes que se creem o centro do universo.
Um a olhava pela TV aos domingos e o outro na casa da namorada do primo. Quando soube da morte de Omar (desfazendo assim toda e qualquer esperança de algum dia se encontrarem de verdade, supondo que os tempos e espaços sejam os mesmos), ela abraçou o disco (a única esperança que lhe restou), mas o largou logo em seguida. Com este ato sabia, de antemão, que também perderia Bix, pois seus pais o jogariam fora (como de fato ocorreu).
Nesse ponto houve a transformação, como se Omar lhe mostrasse outras possibilidades de contatos, o próprio corpo da panamenha se revela (em outra menstruação) mostrando-lhe como ter contato com Bix de outra forma, que não a platônica. Nesse momento ela fica com Pedro (apenas porque era jovem como Bix), e, ouvindo a música de Bix, Royal garden blues, transformou a dor da penetração em gozo.
Quando a panamenha comenta que estava em Ohio ou Maryland com Bix e seus rapazes ela cita a drogadição com hash, e isto pode levar o leitor a pensar nas alucinações de pessoas que estão sob o efeito dessa droga. Esta ideia pode ser corroborada pela repetição de que é panamenha e logo em seguida está em Ohio ou Maryland. O amalgamento de não somente tempos, mas também de espaços, provoca novo estranhamento. Além disso ela também usa as palavras como uma droga, para se aproximar do leitor/ouvinte, como se nos acariciasse ou nos lambesse (cf. p. 10).
Ao encontrar Bix ela afirma que não aguenta mais o fato dele estar sempre observando-a. Esta afirmação provoca uma troca de papéis, pois ele sugere que ela o observe, o que ela fará, seguindo a Bix em suas excursões. É interessante quando ela comenta da vida de Bix, que lá pelas cinco da tarde “os olhos iam ficando de vidro” (p. 11), pois esse comentário tanto pode ser relacionado com o problema com álcool ou drogas, quanto pode remeter ao olhar vitrificado, porque televisivo, de Omar.
Outro ponto interessante é quando a panamenha fala do show de Bix da noite anterior e diz que o verá no próximo, ao que ele rebate: “espero que não sejas uma dessas fanáticas que não perdem um. É algo que nunca pude suportar, duas vezes o mesmo rosto no meio da platéia me tira até a vontade de viver. Sinto como se fosse necessário repetir os solos que toquei na noite passada e isso é algo que não farei jamais na vida”. (Viana, 2006, p. 11). Essa não repetição, esse viver diferente a cada instante, essa necessidade de se observar coisas novas é o que, de certa forma, a panamenha faz ao colocar-se vivendo junto com Bix. Mas a repetição pode ocorrer. Não sabemos ao certo onde nos situamos, em que espaço e tempo nos deslocamos. Tal qual em uma fita de Moebius[3], podemos crer piamente que vivemos uma única e “real” realidade. Quando na verdade estamos pisando em duas faces de uma “realidade”. Assim, a panamenha está em uma realidade em que Bix não mais vive, mas consegue penetrar em outra, na qual Bix está mais vivo do que nunca e convive com ela. É um caminho novo e ao mesmo tempo recorrente. Como disse Bix: “quem sabe numa dessas noites não começo a copiar a mim mesmo, não seria o primeiro” (Viana, 2006, p. 12).
Enfim, ao repensar a questão do visual/sonoro, lembro de Cortázar, em uma carta à sua amiga Duprat, falando de pintura e de música. Na carta, Cortázar diz que talvez pintar à óleo seja como copiar a realidade mais imediata da paisagem, sua correspondência mesma. Já a aquarela captaria mais o “espírito” da paisagem, seria mais o voo da andorinha do que ela em si. Nesse sentido, ele compara essas pinturas com a música, dizendo que a pintura à óleo seria uma orquestra sinfônica e que a aquarela seria um quarteto de cordas, mais íntimo, mais sumido e menos exterior (cf. Cócaro, p. 21). Esse conto inacabado, é um quarteto de cordas, uma aquarela diluída que Cortázar nos brinda, simbolizando talvez a vida e a obra inacabadas de Bix. E agora, coincidentemente, sem Cortázar, a ponte inacabada entre autor e leitor, a ponte sobre um infinito de possibilidades.
Por fim, podemos agora fechar os olhos, aguçar os ouvidos e... escutaremos um dueto. Um dueto formado por Bix e Cortázar, tocando para Omar, para a panamenha e para nós!


Referências bibliográficas:

Cócaro. N. El joven Cortázar. Argentina: ediciones del Saber, 1993.
Cortázar, J. Bix Beiderbecke. (trad. Cassiano Viana). Incluso os textos “O último solo?” de Viana e “Sobre traduções e textos inacabados” de Löis Lancaster. Rio de Janeiro: Pocket Cat/Carlota edições, 2006.
Cortázar, J. Valise de cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1993.
Moura, S. B. P. Abrindo as portas para ir brincar nos espaços de Final del juego. Dissertação. Curitiba: UFPR, 2004.
Tezza, C. Breve espaço entre cor e sombra.



[1] Que o leitor encontra no livro Valise de Cronópio.
[2] Sobre essa concepção favor ler a dissertação “Abrindo as portas para ir brincar nos espaços de Final del juego”, na internet.
[3] Coloco aqui a fita de moebius para que se possa observar como, se estivéssemos andando nela, estaríamos sempre andando em uma única face, quando na verdade são dois lados que existem. Basta perfurar a fita com uma agulha para ter esta certeza de duas “realidades” ou então nos afastarmos um pouco para vermos (do lado de fora da situação se observa melhor, não é o que dizem?). O mesmos e dá com a panamenha. Ela tem certeza de que vive um único “caminho” quando na realidade percorre duas facetas. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

FICÇÃO - ANA

Para C.L., que no interior é G.H., com amor.

A explosão do chicle na sua cara fez Ana se aprumar, com um susto na sua meia distração.
Ela olhou rapidamente ao redor para ver se seus colegas de sala viram e estavam rindo dela.
Mas alguns poucos observavam com atenção a fala do professor e a maioria estava entretida em seus celulares, seja no face ou outra atividade virtual. O real estava fora do alcance para eles.
Procurou então, rapidamente, antes que alguém visse e tirasse foto com o celular, postando na internet, retirar a gosma rosenta do rosto.
Porém, quanto mais procurava retirar os fiapos rosáceos, mais eles grudavam em seus dedos, cabelo, roupa, bochechas.
Não compreendia como ninguém tinha ainda a olhado, rido, tirado foto e postado a ridícula situação na internet.
Tentou fingir que prestava atenção no professor, mas quanto mais tentava, mais lhe parecia estarem em um quadro de Bruegel. Olhou de novo para os colegas, cada um na sua própria brincadeira de celular, candy crush, facebook, etc. Estava em um segundo quadro de Bruegel? 
Voltou a atenção para si mesma.
A goma estava cada vez mais entranhada em seu rosto. Parecia que ela estava se aproveitando da desatenção de todos para ir dominando o seu ser. Seus olhos estavam totalmente colados. Com força e dor conseguiu ir descolando suas pálpebras. Parecia-lhe que seus cílios estavam sendo arrancados.
Finalmente conseguiu abrir os olhos! E voltou a ver tudo cor de rosa chicle.  




sexta-feira, 9 de agosto de 2013

REAL - O que é, o que é...

Viver e não ter a vergonha de ser feliz!
...
mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita!

Conheço muitas pessoas que se preocupam em demasia com o que os outros pensam ou falam. Sei que dizer para eles que isso é besteira e que deveriam viver suas vidas e esquecer os outros, é fácil. Pois no fundo todos nós, em algum grau, nos preocupamos com os outros. Com a idade tenho percebido que, cada vez mais, menos me importuno com o que os outros falam ou pensam. Afinal, não são eles que serão felizes ou não com o que vivo. A gente vai aprendendo. Principalmente observando pessoas que deixam de viver por causa dos outros.
Eu quero viver a minha vida, ser feliz. AMAR, fazer o que quero e gosto.
Quer saber minha opinião sobre este assunto? Viva e deixe viver!
Os outros (que gostam de pensar e falar da gente) sempre vão existir. Independente do que façamos, sempre vão falar.
Então, para que se importar com o outro?
SEJA FELIZ!  Não ligue para os outros!
A vida é MUITO curta para deixar de viver e ser feliz por causa dos outros.
Não faça o mal a ninguém, esta é a única regra. 
De resto, ame, grite, chore, abrace, beije. Seja FELIZ!
A vida é realmente muito curta.
Mas, claro, o ditado de: "quando um não quer dois não fazem" cabe também aqui.
De nada adianta um querer, querer amar, beijar, ser feliz. Se o outro tem medo do que os outros vão falar ou pensar.
Daí, quem quer, tem que acabar ficando na sua. 
E azar dos dois. Pois se perde a chance de um belo amor.
Mas... tudo bem. Porque mesmo assim... é bonita, é bonita e é bonita!
Segundo o psiquiatra Roberto Shinyashiki as pessoas se importam com o que os outros pensam porque: 
Fazemos isso porque a solidão é apavorante para a maioria das pessoas. O ser humano precisa se sentir importante e, por isso, a opinião dos outros vira referência do quanto é amado. A partir daí, infelizmente, muita gente faz o que não quer só para agradar e se sentir aceito”.
O que é melhor? Ser "aceito" por uma maioria ou ser aceito por quem a gente ama?
Para finalizar: Ando Devagar! Porque já tive pressa. Mas agora, quero desfrutar de cada momento, de cada instante de forma intensa... sendo feliz. E, se quiser me acompanhar, seja bem-vindo!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

REAL - BRASIL inconformado - um ponto de vista

Tenho estado em alternância de sentimentos contraditórios ultimamente. FELIZ porque percebo que a visão que eu tinha da maioria dos jovens (geração coca-cola e facebook) estava errada. Eles estão saindo às ruas. Antes eu via poucos alunos nas passeatas. Hoje vejo muitos deles.
(início da concentração do dia 17 de junho - Curitiba - foto: Susan Blum) 
Mas ao mesmo tempo triste e receosa com certas "convicções" que são passadas e repetidas sem um mínimo pensamento sério e reflexivo.
Um exemplo são de dois blogs que cito para que se tenha imparcialidade (afinal, o que desejo é que as pessoas leiam não somente meu ponto de vista, mas sim os outros e que consigam - minha esperança - ter SEU próprio ponto de vista!).
http://incandescencia.org/2013/06/18/isso-e-sim-sobre-20-centavos-conservadorismo-nos-movimentos-sociais/
http://papodehomem.com.br/corrupcao/
Algumas questões que considero relevantes:
Não concordo que ser do "movimento anti-corrupção" seja inválido porque não há movimento pró-corrupção. Ora, é uma coisa óbvia que não haverá um movimento pró-corrupção. Mas isto não significa que ela não exista! Ao contrário. E TODOS sabemos disso!
Idem para movimentos pró-vida, ou educação, ou saúde. CLARO que NÃO há movimentos contra a vida, contra a saúde. Mas há pessoas que vão contra isso, sim.
PENSEM!!!
Qual o objetivo de pessoas que escrevem desta forma, que NÃO querem que outras bandeiras sejam levantadas ?
Falam que estes que levantam estas bandeiras são reacionários. Calma lá. PENSEM! Acham que é algum partido político por trás. PENSEM!
POR FAVOR!
CLARO que temos que ter exigências pontuais. Ótimo! Conseguiram que os preços das passagens fossem diminuídos. Agora ficamos em casa quietos, sem mais passeatas porque ganhamos os "centavos"? 
Por favor, gente. Sejam reflexivos!
Não deslegitimizem os grupos que têm propostas diferentes das suas. Se querem salvar as baleias e os elefantes... que o façam!
Se você é a favor de uma saúde e educação com qualidade, faça sua bandeira.
Se você é a favor do aborto, faça a sua bandeira. Se você é contra o aborto, faça a sua bandeira. 
Mas vamos DIALOGAR! E não virarmos inimigos.
É justamente a desunião que eles querem provocar. Como eu disse: CLARO que devemos ter pautas objetivas e concretas. Mas não podemos deixar de lutar pelo resto.
Se você é pela educação (e aqui pergunto ao grupo radical: alguém aí é contra a educação?)  lute por ela. Principalmente porque li cartazes com MUITOS erros nos protestos. Um deles, aqui em Curitiba (só como exemplo): "Descupe o inconveniente, estamos construindo um Brasil melhor". O quê?? DESCUPE?? Deveriam ao menos deixar as pessoas que sabem escrever fazer os cartazes.
Mas, voltando ao ponto: LUTE pelo que acredita! Mas com argumentos!
Legal ser "politizado", querer que todos tenham lido Marx, Abrams, Smith, Somers, Hechter, Deflen, Lemmert, Steinmetz, Weber,  Hall, Pomeranz, Bendix, Tilly, Calhoun, Moore, Huntington, Blum, Putnam, Kohli, etc etc etc
Mas ao mesmo tempo é um ser que fala e se manifesta por palavrões, com violência, e ainda incitando os outros a isso.
Politizado?? Incitando à violência? à depredação? 
AMIGO, quem é que paga os impostos??
ACORDA, meu!
Outra questão, voltando aos que dizem que ser contra algo que não existe os pró é besteira:
- sou contra quem bebe e dirige, quem mata por dirigir alcoolizado. Há alguém aqui que acha que todos devemos beber e dirigir?? Por favor, se manifeste!
Mas há pessoas que bebem e dirigem? UM MONTE! 
Até a hora que fazem besteira no trânsito e matam inocentes. Né? ou até a hora que alguém de SUA família morre por causa de inconsequentes desses. 
A falta de EMPATIA ainda é o pior defeito do ser humano.
Colocar-se no lugar do outro!
Bom, como eu disse, esta é a MINHA opinião e gostaria muito que pessoas "civilizadas" postassem opiniões contrárias, COM argumentos.
Adoraria CONVERSAR sobre estas questões.
Mas sem palavras de baixo calão (estes comentários serão imediatamente retirados). COM argumentos.
Quero mudanças, SIM.
Quero manifestações, SIM.
Mas SEM violências!

Não quero que tudo pare por causa de centavos ganhos nas passagens! Não foi por 20 centavos e não será pelo não gasto deles que ficarei quieta! Nem que continue sozinha. Mas quero o não à PEC! Quero os corruptos presos. Quero o dinheiro devolvido aos cofres públicos. Quero que os políticos percam suas regalias!
CINCO CAUSAS- ANONYMUS -
Não quero voltar a participar de passeatas com algumas dezenas ou centenas! Quero milhares nas ruas, sempre!
Para fechar, uma frase de Voltaire:
Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

NÃO deslegitimizem os grupos que têm propostas diferentes das suas.
(pensem nisso, pelo menos).

domingo, 16 de junho de 2013

REAL - Verás que um filho teu não foge à luta

Não tem como escrever uma crônica hoje em dia deixando de falar no assunto mais importante da história do Brasil (dos últimos anos). O ano de 2013 fará páginas em futuros livros de história com fotos e textos que, apenas posso supor, hoje.
Nasci nos anos sessenta. Sou filhote da ditadura. Cresci escutando o famoso: “os russos comem criancinhas” (não entendendo isso direito, apenas os associava ao lobo mau de Chapeuzinho Vermelho).
(foto: Diogo Santos)
Passei a adolescência escutando que “brasileiro engole tudo” “Brasileiro é cordeirinho” “Brasileiro aceita tudo” “Brasileiro não faz nada para mudar a situação”.
Escuto as pessoas falando dos outros povos, como Grécia, Espanha, Turquia, que – estes sim – são politizados, são conscientes e reclamam. Vão para as ruas!
Sinceramente? Eu não achava que a geração coca-cola e facebook fosse se mobilizar. Sei que tem vários que ainda ficam no facebook. Apoiando ou criticando, mas muitos estão lá. Na rua, sob chuva de balas de borracha e na pontaria de spray de pimenta.
(Há no FB dicas para se proteger em manifestações)

Agora escuto críticas contrárias: “mas este povo é baderneiro mesmo”, “aposto que são fantoches de outro grupo político que os está comandando”. “Mas que absurdo! Tudo isso por centavos!”
Não! Não é por centavos. Os centavos foram apenas a gota d’água de anos de corrupção, da colocação do Renan Calheiros na cúpula, do Feliciano nos Direitos Humanos, do PEC 37, da Lei do Nascituro, dos ataques homofóbicos ou racistas, dos estupros e assassinatos das mulheres, de um Carli que mata dois rapazes por dirigir bêbado e continua solto, por várias outras violências e PRINCIPALMENTE por uma saúde e educação mais que sucateada.
Escuto pessoas dizendo que há algum grupo político por trás. Que deve ser os próprios corruptos querendo confundir a população. Que isso tudo é orquestrado. Que não é o POVO se unindo.
Por favor, não tirem este prazer mínimo do povo que está sim se aproveitando das redes sociais (como fizemos quando Ratinho era o favorito aqui em Curitiba e conseguimos reverter), mas que está se revelando, sem partidos. O que posso dizer (apenas minha opinião) é que estamos sim aproveitando, por exemplo, os Anonymus.
Escuto as pessoas dizendo: “este grupo deve ser da bandidagem, se usam máscaras”. Incrível! Há uma propaganda que diz que nem todos que usam máscaras são bandidos. Que super-heróis também usam máscaras. Mas no caso da “realidade”, logo são tachados de bandidos.
No facebook achei um texto que infelizmente não encontrei mais devido à imensidão de comentários e postagens. Mas era de um ativista do grupo que pedia que os colegas conversassem com as irmãs, namoradas e esposas para que estas ficassem em casa, apoiando de forma virtual, pois os policiais estavam batendo em todos. Dizia que ver policial batendo em “marmanjo” não doía tanto nele, mas batendo nelas sim. Pedia desculpas para elas, dizendo que NÃO estava as chamando de sexo frágil, mas que nestas horas a violência era muita e que deviam se cuidar. Convocava os colegas com a frase “verás que um filho teu não foge à luta!”
Pergunto: onde está o homem violento aqui? Eles pedem o tempo todo a não-violência!
Tem um texto da Marina Colasanti – “Eu sei, mas não devia” que fala da inércia. Desse “permanecer em zonas de conforto” (por mais que sejam desconfortáveis).
Pois bem. O brasileiro cansou. O gigante adormecido despertou. E, aos que estão criticando, pergunto:
O que devemos fazer então? Se não querem que saiamos para as ruas?
Abaixo-assinados? Fizeram vários. Nada aconteceu.
Passeatas só com gritos? Fizemos várias! Nada aconteceu (sequer na mídia sai).
Movimentos “passivos” de subversão como colar cartazes com os pedidos? Um exemplo: no blog de Adonai ele pediu que os alunos colassem cartazes pelas faculdades federais. Apenas eram retirados. http://adonaisantanna.blogspot.com.br/2012/10/querem-ver-uma-foto.html

Não, pessoal! É de gota em gota que se extravasa. É de ver todos os dias gente morrendo nos hospitais por péssimo atendimento. É de ver professores sendo agredidos por alunos nas escolas, ou com péssimo ensino (professores que mal sabem escrever o português).
Pergunto de novo: isso tudo é orquestrado por alguém? Por quem?
Por favor! É o POVO, gente. Pessoas como eu e você. Nós somos o povo!

Tem alguns baderneiros que se infiltram? CLARO que tem. Sempre teve isso. Afirmo de novo: NÃO sou a favor da violência. Sou pacifista por natureza.
Mas... pergunto:
O que devemos fazer para chamar a atenção sobre a ENORME insatisfação da população que está cansada da falta de respeito? 
O QUE DEVEMOS FAZER?
Não esqueçam que há outros países apoiando o Brasil.

Para fechar, já que falei de literatura, falo também da música. Já que “caminhando e cantando e seguindo a canção” fez parte de minha vida. Há uma música que acompanha a “brincadeira” de V de Vinagre. VINAGRE (cliquem na palavra que abre página para a música)