novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

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convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Ficção - O Caso do Dito

 Uma pequena explicação sobre este texto: ele foi escrito nos anos 1990-2000. Achei perdido no meio de outros papeis e resolvi trazer para cá. Na época eu assinava como Satya Rati.



Era um tal de diz que-diz que, que não tinha fim. Uns diziam que ela era, outros juravam veementemente que não. Ninguém sabia ao certo pois só era dito, nunca confirmado. Se foi algo bem dito ou mau dito, ninguém sabia nada. Mas também ninguém falava que ela era maldita ou bendita.

Era só sair na rua onde ela morava que já se ouvia o zum-zum, que estranhamente silenciava quando a dita cuja saía de casa e passava. Daí era um tal de cumprimentos, de sorrisos, de amabilidades... que cessavam imediatamente quando ela virava a esquina.

Diziam uns: "Ora, não é como o dito popular? Falem mal de mim, mas falem mim?". "Não"- dizia a outra vizinha, por sobre o muro - "o correto é : falem de mim, menos mal".

E assim ia a vida, podendo até esta história ter começado com um: Era uma vez um dito... Até que um dia se passou de boca em boca que a melhor amiga da dita cuja sabia da verdade. Espanto geral. Será que ela iria confessar a verdade sobre a melhor amiga?

Todos resolveram procurá-la, para poder enfim saber da verdade.

Encontraram a amiga no bar da esquina e perguntaram se era verdade o que diziam, se era, enfim, bem dito ou mau dito o que da dita cuja se dizia. Quando ela começou a abrir a boca para falar, todos emudeceram de boca aberta, num silêncio indagador.

E ela falou:

- Aquilo? Ficou o dito pelo não dito!




Texto: Susan Blum

Imagem: da internet

domingo, 24 de agosto de 2025

Ficção - real - Não estou em Gaza


Escuto os gritos de fome das crianças, mas não estou em Gaza.

Escuto os gritos das mulheres sendo estupradas, mas não estou em Gaza.

Escuto as bombas explodindo nos hospitais, mas não estou em Gaza.

Escuto os miados e latidos dos animais perdidos que não sabem o que está acontecendo, mas não estou em Gaza.

Escuto os gritos, os tiros e as ordens, mas não estou em Gaza.

Sinto o cheiro de queimado, mas não estou em Gaza.

Sinto o fedor da decomposição, mas não estou em Gaza.

Escuto o choro das crianças, mas não estou em Gaza.

Escuto o choro dos pais e mães que perdem seus filhos, seus bebês... mas não estou em Gaza.

Não consigo parar de ver, de escutar, de sentir e de imaginar... e não estou em Gaza.

Mas Gaza está em mim.

 


Susan Blum – agosto 2025

  

terça-feira, 16 de julho de 2024

Ficção - Crônica de uma manhã sonolenta

O sol desperta meus olhos, me espreguiço com as gatas e desamarroto meus sonhos, com cuidado, para revisá-los.

O aroma do café coado me transporta para as nuvens e logo lembro de ir para o quintal, capturar os raios de sol com minha meditação.
Depois coloco as roupas da insegurança de molho na coragem e estendo as toalhas da satisfação. Recolho antes da tempestade das dúvidas cair.
Faço o almoço e preparo a marmita de sempre, que deixo pendurada no portão da felicidade do reciclador que sempre recolhe meu lixo que não é lixo.
Aproveito para reciclar sentimentos, escrevo gratidões para meu pote do ano. Resgato meu caderno do esquecimento da gaveta e anoto ideias vagas de solidão.
Então me recosto na rede, aconchego-me nas gatas e ronrono esperanças para o amanhã. O coração batendo no ritmo da imprecisão.
Por fim, antes de deitar, encosto meu corpo na parede, um livro na cabeça e marco no beiral da porta o crescimento de minha alma.


(texto: Susan Blum Foto: internet)







Receita de adormecer a dor ou Receita de acordar a poesia

                                                                                    para a poeta Roseana Murray


Rasgo. Cada grão de areia que escorre no tempo me leva a imaginar o antes e o depois. As ampolas do passado e do futuro. Por ali a dor passa e o perdão nasce, em uma receita de olhar para tudo e todos. Uma pequena chave que abre os labirintos da incerteza, do medo e da dúvida. Abrindo o coração para a reconstrução.

Ontem. Mistérios e silêncios que se equilibram na borda de um poema, buscando amores nas dores, abrindo janelas. Tem muita vida pelo caminho, passos incertos de seus sonhos. Tem muita escrita de carinho, remendada, costurada, bisonhos.

Semente. A dança ciranda no tempo de andar para trás, porta da roda da vida e da morte, redemoinho de água no meio do vento. Vento que apaga os trilhos do trem, que iluminam novos caminhos, passarinhos.

Encanto. As estrelas do futuro azul descobrem pétalas e espinhos, nuvens densas que assopram esperanças na alma germinando sereias, crianças e anõezinhos. Acordando palavras que descansavam no fundo do casulo da mariposa.

Acorda. No mundo encantado de Roseana, com firmamentos e labirintos, a criança se descobre no espelho, azul, dourado e vermelho. Todos convivem na cabana da criatividade, no temporal da ilha da Verdade.

Nome. Um pedaço de sol pinta amarelo no labirinto do céu, as três Marias cantam e dançam em roda, mostrando o perdão que apenas, a penas, quer escrever, pintar, desenhar e sorrir. Sua alma sabe encantar.

Assumir. Carregar nas mãos a montanha e o mar, ser barco sendo levado, mas também arrumar as pedras para não afundar. Ou brincar de equilibrar as pedras em uma arquitetura artística.

 

 

Morte. Tempestade e silêncio. Matar sentimentos ruins, deixar morrer a dor. Inventar presentes da vida, com braçadas de flores e pássaros loucos que desamarram os nós. Coisas inúteis que não servem para a poesia cheia de vida e luz.

Ultimato. Arrumar todas as gavetas internas, tirando o pólen guardado, usando as raízes como sinos de cores, criando possibilidades de surpresas do destino, amizades novas, novos passeios.

Receitas. Triturar, misturar, separar, cozinhar, preparar, macerar, bater, colocar no forno, trocar, inventar, escrever, pensar, descansar, dançar, sorrir, crescer, adicionar, espalhar, descansar... viver.

Receber. Navegar nos mistérios dos gatos, fazer um interminável bordado de palavras pequenas que cobrem todo o livro da vida. Com linhas, agulhas, bordando as neblinas com ajuda do vento. Tocar o outro.

Adivinhar. O que a floresta do futuro reserva em cada semente, um fogo que levanta a poeira mágica da amizade, encontrando unicórnios que pousam na menina dos olhos do fio do horizonte, espantando a tristeza para o lado oculto da Lua.

Yahoo! Venceu! O olhar em um longo e apertado abraço derrama as notas musicais na imensa caravela que agora flutua na paz azul do olhar da poeta.  

 

(poema inspirado principalmente no livro Receitas de Olhar, da poeta.)





segunda-feira, 29 de abril de 2024

Lançamento do livro Iara, no 65º Letra de Mulher.

 Só para mostrar que a Fundação também falou do segundo lançamento de meu livro Iara, no 65º Letra de Mulher, na Feira do Poeta.

Dia 07 de abril, das 10 às 13 horas.



https://guia.curitiba.pr.gov.br/evento/65%C2%B0-letra-de-mulher---coletivo-marianas-lancamento-dos-livros-pias-e-gurias---suas-vozes-e-risos-vivem-em-nos-da-escritora-izabel-da-rosa-e-do-livro-iara-da-escritora-susan-blum/3122












domingo, 7 de janeiro de 2024

REAL - 2023 para 2024

 O ano de 2023 foi MUITO bom. Primeiro que todo o Brasil pôde respirar em paz, com mais justiça, educação, saúde e respeito.

Mas, mais importante que tudo, consegui publicar meu livro de contos (escrito durante toda a pandemia).

Aliás, publicação foi o que não faltou para mim...

Participei de quatro coletâneas:

FOLIMPA - 1ª Folia Literária da Mulher Parnanguara - Anadara brasiliana, 2023 (com cinco poemas)

Nove Meandros - Donizela, 2023 (com um conto)

Ampliando Horizontes - Contos - Máquina de Escrever, 2023

Ampliando Horizontes - Poemas - Máquina de Escrever, 2023.


Publiquei meu primeiro livro infantil:

Iara. Medusa, 2023.

Publiquei meu segundo livro de contos:

Segundos em Pó. Donizela, 2023


Escrevi a apresentação do livro Nereidas. Anadara brasiliana, 2023.


Participei de vários eventos como Letra de Mulher, todo mês, na Casa do Poeta. Ou outros como na UFPr ou em outros locais.

Meu livro de contos foi para a FLIP (Paraty - 2023)


Enfim, estou feliz. Mas mais feliz ainda porque já há outros projetos para 2024:

Mais um livro infantil, quem sabe um acadêmico.

Participações em outras coletâneas e até - quem sabe - ser colunista de novo, além de voltar a ministrar minhas oficinas de criação literária (que tanto amo e que ministrei por muitos anos ou na FCC ou no CELIN da UFPr).

Enfim, espero que me acompanhem nestas novas aventuras!

Feliz 2024, pessoal!


Vocês podem pegar o livro comigo (com direito a autógrafo e tudo) ou na editora Donizela. Aliás, tem livros maravilhosos nesta editora incrível!

https://www.donizela.com/product-page/segundos-em-p%C3%B3-susan-blum











terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Poesia - Intermitências

 Corte o não, sem medo!

Oh, grande criança que voa no nada.

A água dá um salto na gente medrosa

O coração do abismo não é pai sábio

O sábio não traz a a dor da faca

No alto de sua pequenez

o pobre fantasma namora a montanha

e o inválido dá comida ao anjo

que namora a morte ferida. 




domingo, 12 de novembro de 2023

REAL FICÇÃO - idade dos parques Continu

 Gostaria de falar de uma experiência de escrita que tive na última oficina de contos da qual participei:

O professor colocou uma cadeira do local de curso no meio do nosso círculo de alunos e pediu: quero que escrevam um texto fantástico sobre a cadeira...

tive uma ideia e comecei a escrever...

ele complementou: quero um texto curto

parei de escrever e arquivei mentalmente a ideia que eu tive ... ia voltar a escrever quando ele falou...

e que contenha uma crítica social...

daí parei de vez. Aguardei para ver se ele falava algo mais e só então escrevi, finalizando o texto antes da meia hora que ele deu para todos nós e cumprindo todos os requisitos que ele pediu. Em homenagem ao Cortázar eu coloquei mais tarde o título:


          idade dos parques   Continu

A cadeira carrega o leitor que carrega o livro que carrega a história de uma formiga que carrega o açúcar para alimentar o fungo que alimentará o formigueiro... pisado pelo leitor ao sair da biblioteca.


Este texto não foi escolhido para sair no livro do final do curso, então posto aqui para dar esta dica de exercício para meus ex-alunos de criação literária.

Por que escrevi isso? Tentei colocar o "trabalho" de todos para satisfazer o leitor que nada faz, ao contrário, destrói. Vejam: alguém fez a cadeira, alguém publicou o livro, alguém escreveu a história, a própria formiga que carrega o açúcar, não aproveita esta doçura, mas alimenta o fungo que será alimento para o formigueiro. E tudo isso é destruído pelo leitor que nada produziu.

Enfim... fica o registro de minha escrita da oficina. 

p.s. havia lido dias antes que a formiga leva açúcar para alimentar o fungo, por isso usei no texto. Vejam como é importante ler sempre, e não só textos de literatura, mas científicos também.








sábado, 4 de novembro de 2023

REAL - Braços marcados

 

Braços marcados para serem identificados

Braços finos, quase esqueléticos

Não tem como fugir

Não tem como sair

Muros, proibições, cercas

Marcas que ficarão na História

Guerras, perseguição, fome, sede

Tiros, mortes, hospital bombardeado

Não tem como fugir

Não tem como sair

Não deixam passar os caminhões

De ajuda humanitária

Não deixam escapar os que querem viver

Outros interesses estão por trás

Os países não tem dinheiro

Para acabar com a fome

Mas sempre há grana para a guerra

Não tem como fugir

Não tem como sair

Há braços marcados com números

Há braços marcados com nomes

Crianças palestinas marcam seus nomes

Nos braços finos, para serem identificadas

caso morram em ataques aéreos.

O horror nunca termina e ainda se repete.

(Foto: internet. Texto: Susan Blum).


quarta-feira, 15 de junho de 2022

REAL - Estou sentindo cheiro...

Para DOM e BRUNO

Estou sentindo cheiro de queimado, fumaça, sangue.

Ah, Amazônia em chamas. O cheiro chega até Curitiba. Agosto de 2019.

Estou sentindo cheiro de sangue e pólvora no ar.

Ah! Anapu, sete tiros que mataram a irmã Dorothy, que protegia os sem-terra e denunciava os grileiros exploradores da terra.  Fevereiro de 2005.

Estou sentindo cheiro de queimado, fumaça e sangue.

Ah. Pantanal em chamas. 2020

17 milhões de animais assassinados. Poucos se salvam, como Amanaci, que vira símbolo, apesar de jamais poder voltar ao Pantanal.

Estou sentindo cheiro de pólvora e sangue no ar.

Ah, Chico Mendes. Xapuri - dezembro de 1988 (leia o *)

Estou sentindo cheiro de fumaça, queimado e sangue no ar.

Que tristeza! Dom e Bruno.

Que horror: cortados e queimados.

Junho de 2022. Brasil não aguenta mais tantas mortes, tanto descaso, tanta proteção do DESgoverno para com grileiros,  garimpeiros, milicianos, especuladores fundiários, pescadores ilegais e e pecuaristas.

 



https://www.brasil247.com/charges/a-luta-continua-ana0nzkj

 

·         A política implantada pelo regime militar na Amazônia, na década de 1970, foi responsável por fomentar conflitos de terra, já que a substituição da borracha pela pecuária intensificou a especulação fundiária (investimento e valorização econômica de propriedades pertencentes aos fazendeiros, dificultando o acesso de pequenos produtores às terras), além de ter aumentado a devastação ambiental, a fim de gerar pastos para a criação de gado.


GGrata, Bruno, por desmantelar o garimpo em 2019, pena que 15 dias depois vc foi demitido da FUNAI. Todos sabemos quem são os culpados de seu assassinato. 

Para saber mais:

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/19/politica/1566248656_245830.html

http://memorialdademocracia.com.br/card/assassinato-de-dorothy-stang-choca-o-pais

https://g1.globo.com/natureza/noticia/2021/09/14/queimadas-mataram-17-milhoes-de-animais-vertebrados-no-pantanal-em-2020-aponta-estudo.ghtml

https://conexaoplaneta.com.br/blog/amanaci-e-guarani-apos-a-tragedia-no-pantanal-que-a-obrigou-a-viver-em-cativeiro-onca-pintada-ganha-um-companheiro/

https://brasilescola.uol.com.br/biografia/chico-mendes.htm

terça-feira, 13 de julho de 2021

 Na escola, a redação da criança faz a professora chorar.

"Eu moro com meus pais, tenho uma cama em que dorme eles, minha irmãzinha e eu.
Gosto de olhar pela janela, ver as pessoas passando, elas nunca me olham.
No armário com gavetas temos nossas roupas limpas e na geladeira temos muita comida e frutas.
Gosto de ver desenhos na TV, como os filmes de super-herói. Quando o vendedor não expulsa a gente.
Temos até um passarinho que sempre canta para afastar os males."

Coitada da professora... ah, se ela soubesse...


(fiz este texto rapidamente, depois de ver esta foto, que me comoveu muito, no twitter. Postei no Facebook hoje e vi que muitas pessoas gostaram, então resolvi colocar aqui no blog).





Ficção - Visita inesperada

 Ontem de noite (meia-noite) escutei um barulho na janela.

Algo batia insistentemente no vidro. E minha gata Miúcha fazia ruídos, como se estivesse vendo um inimigo.
Fui para a sala e acendi a luz da sacada.
Na porta envidraçada da sacada um bicho "caiu" ao chão.
Era um gatinho preto!
AMO gatos, então abri a porta para pegar o bichinho (nem me passou pela cabeça imaginar como ele chegou ao 17° andar).
Antes que eu fizesse qualquer gesto, ele entrou voando no apartamento. Não, não é figura de linguagem. Ele literalmente voou!
Pousou em cima de minha escultura de Iroko.
Só então percebi. Não era um gato. Ou melhor, não era SÓ um gato.
Miúcha, quando o outro bicho voou para dentro, escondeu-se embaixo da poltrona. Ainda fazendo ruídos, porém mais discretos.
Morgana veio correndo para ver o que acontecia e ficou encarando o pretinho.
Fiquei pensando sobre o que faria com o bichinho. Ele parecia assustado.
Tenho o hábito de falar comigo mesma, e com as gatas, em voz alta.
Perguntei para elas:
- E agora, meninas? O que fazemos? Colocamos para fora? Está tão tarde.
Para minha surpresa o pretinho respondeu.
- é tarde.
Meu coração quase pulou da boca. Miúcha foi para baixo do sofá. Morgana deu passos para trás.
Pensei: esta quarentena está me fazendo mal, estou até alucinando.
- olha, não sei quem é você. Mas não pode ir entrando assim na casa dos outros, sem permissão.
- é tarde.
Arrepios. Com um pouco de raiva, reclamei.
- achei você bonitinho, mas agora quero que você saia de minha casa, ouviu? AGORA!
- é tarde.
Lembrei do corvo, de Poe. Mas não lembrava do final do poema. Peguei minhas gatas e fui para o quarto, trancando bem a porta.
Sonhei a noite inteira com o bicho.
De manhã, fui olhar... o tempo tinha passado.
(Continua?)

(escrito originalmente no facebook, em 13 de julho de 2020)



quinta-feira, 8 de abril de 2021

Real - mimimi no BBB

Ontem eu assisti BBB, pela primeira vez..

Vendo algumas postagens de amigos no facebook e vendo certas hashtags no twitter, eu acabei assistindo ontem BBB, pois queria entender o que tinha acontecido para gerar uma certa “briga”, falando de Sai Rodolffo, Fica Rodolffo e mimimi.

Pois bem. Graças que o programa faz uma certa “retrospectiva” (não sei se fazem isso sempre). Assim pude ver tudo que aconteceu. E sim, fiquei na torcida pela saída do Rodolffo.

Vamos lá. Em primeiro lugar quero dizer que não tenho insônia, geralmente durmo muito bem, indo deitar lá pela meia-noite e acordando cedo. Mas esta noite fiquei até 3 da manhã, pensando, sentindo, refletindo. Foram várias memórias ativadas, desde as lembranças e sentimentos até as memórias visuais, auditivas e até olfativas.

Espero conseguir resumir aqui o que foi esta noite com tudo isso...

Em primeiro lugar, quero dizer que não é mimimi.

Bom, logo que entrei na faculdade de Psicologia uma professora disse algo que marcou minha vida pessoal e profissional: a escuta livre de preconceitos. Para mim pode parecer bobagem uma mulher sofrendo por ser acima do peso, com tanta fome no mundo (estou falando de 1982). Mas é um sofrimento dela e devo respeitar. Ou, uma mulher muito rica sofrendo a perda do cachorro a ponto de procurar ajuda psicológica. Esta é a dor dela. As dores são únicas e particulares, devemos ouvir e ajudar a minimizar esta dor. E não ficar falando que é mimimi. Sempre lembro de um ex-namorado que se irritava quando ele reclamava de alguém e eu ficava “defendendo” a pessoa, dizendo que não sabíamos o motivo desta pessoa agir assim, que poderia ser um trauma.

Agora quero partir para o assunto em si. Meu pai era nordestino de pele mais escura, minha mãe uma catarinense filha de alemães. Tiveram 4 filhos, dois claros (de pele, olhos e cabelos claros) e dois mais morenos (de pele, olhos e cabelos escuros e crespos). Em toda a minha vida eu odiava a hora de escovar os cabelos (porque doía), e sempre escutei (até hoje) quando estou com minha irmã: “nossa, mas vocês são irmãs? Não parece!” Claro, ela, de pele clara, cabelo mais claro, olhos verdes. Eu, mais morena, olhos quase pretos, cabelo escuro e crespo. E, para meu “azar”, eu não me maquio (nunca gostei, só passo batom nos lábios e lápis nos olhos) e minha irmã e mãe são chiques ao extremo, se arrumam, se maquiam, etc... gosto de viver de forma mais simples (amo vestidos, mas minhas roupas são mais práticas). Então a diferença é grande mesmo. Uma “piadinha” de meu irmão claro era, quando visitávamos minha mãe: “Chegou o navio negreiro”.

Uma vez, eu estava na casa de praia da família de minha irmã, com ela e outras pessoas (fica em um condomínio fechado). E uma amiga da sogra de minha irmã veio visitar. Ela entrou, cumprimentou a todos e deu uma olhada rápida para mim. Achei que fosse porque não nos conhecíamos, mas minha irmã apresentou e levantei a mão (que foi ignorada). Ela disse, “sua irmã? Nossa, não parece”, e ficou conversando com elas. Não me senti bem e fui para os quartos. Não queria ficar ali. Minha irmã sequer percebeu. Esta é apenas uma situação que passei.

Em várias vezes, dentro de lojas, supermercados, shoppings, eu percebi coisas como: em um supermercado geralmente um segurança me segue; uma vez, em uma loja do shopping, duas mulheres viram que entrei na loja e uma delas segurou a bolsa. E quando eu comentava com a minha irmã ou outras pessoas elas geralmente diziam: “ah, você está imaginando”, “cisma sua”, “não é bem assim”, etc. Gente, eu não sou louca. Eu percebo. E tive a confirmação disso quando passei a alisar o cabelo. A diferença de tratamento é enorme.

Já que falei do alisamento, vamos lá. Em um de meus empregos (em uma editora) conheci uma mulher que me mostrou uma foto antiga dela e reparei que ela tinha um cabelo crespo como o meu (na foto), mas agora era bem liso, solto e brilhante. Perguntei o que ela fazia e ela me deu endereço de um salão afro, onde alisava. Durante vários anos seguintes eu fui alisar meu cabelo lá. Lembram que falei de memórias olfativas? Pois é. Eu sentia o cheiro forte (como se meus cabelos estivessem sendo queimados). Lembro muito bem da primeira vez que saí de lá. Jurei que nunca mais faria isso. No primeiro dia o cabelo ainda ficava meio duro, mas no dia seguinte ele estava liso, caído, balançava quando eu andava... pentear o cabelo? Que facilidade! Quase nem precisava. Eu acordava e ele caía sobre os ombros. Gente! Que maravilha. E os elogios das pessoas? “Nossa, como seu cabelo está lindo!”, “como você está bonita”, etc...

Isso mexe muito com a gente. Foi ali que percebi que não me seguiam mais no supermercado e nas lojas, e as pessoas riam mais para mim. Então percebi claramente a diferença de tratamento e sei que não é imaginação minha, não é loucura minha, não é mimimi meu. Não é a toa que aquele meu juramento de nunca mais alisar, que eu fiz ao sair do salão, se transformou em anos de alisamento. Mas um dia cansei. Resolvi que deixaria meu cabelo crespo de novo. Uma transição difícil já que você tem parte do cabelo liso e a raiz crespa. Mas consegui.

Sobre este caso específico do BBB, quando li comentários de manhã e falei com uma pessoa do caso, ela falou que levam muito a sério, que é semelhante mesmo. Eu me calei (não deveria). Pois é, né? Bombril é semelhante, mas o cabelo não é Bombril! Percebo que é difícil falar certas coisas com quem não passa por isso. Quem é branco, rico, se veste bem, nunca entenderá o que é isso. E como estas coisas vão machucando... aos poucos. Estas coisas vão se infiltrando nos nossos ossos, roendo as nossas bases, até desmoronarmos (como foi o caso no BBB). Imagina se eu ficasse falando do cabelo liso de pessoas loiras: “nossa, seu cabelo parece cu de vaca lambido” É semelhante, então tudo bem, né? Não. Não está tudo bem. Parem com estas “brincadeiras”.

Outra coisa que costumo escutar de pessoas que fazem “piadinhas” e brincadeiras com amigos negros: “ah, mas ele mesmo faz piada de si”. Gente, conhecem o termo introjetar? Temos muitas coisas introjetadas em nós. Isso não significa que são boas. Por vezes podemos fazer piadas para sermos “aceitos”, por vezes fazemos sem perceber o mal disso, por vezes ficamos quietos quando deveríamos falar (pesquisem sobre racismo recreativo). Por exemplo: lembram do me irmão que falei que “brincava” do “navio negreiro que chegou”? Eu sinto uma certa dor ancestral destes negros que foram forçados a vir em navios que muitos morriam no caminho e eram jogados ao mar. Os oceanos são túmulos de várias histórias. Terríveis.

Por que resolvi falar tudo isso e mais um pouco? Vejo meninas (como minha sobrinha-neta) que tem os cabelos bem crespos e se sentem tristes com comentários. Parem! Parem de maltratar as pessoas! Parem de julgar por roupa, cabelo, maquiagem, etc. As pessoas são muito mais que isso tudo. Eu via muitas alunas ricas da Universidade que ficavam fazendo prancha todos os dias nos cabelos para terem os cabelos lisos, que pintavam os cabelos, uma padronização de bonequinhas loiras de cabelo liso. Gente! Somos diferentes. Somos seres humanos. Não se robotizem porque a “sociedade” assim quer. Perdi o número de quantas vezes escutei (e escuto) “por que você não corta o cabelo?” “por que você não arruma o cabelo?” “por que não alisa o cabelo de novo?” de amigos, de familiares. Eu quero o meu cabelo assim. Não me importa se vocês gostam ou não. Chega! Cansa ser julgada pela aparência.

Eu não sou só cabelo, roupa, maquiagem. Não sou só profissão, feitos, formação. Eu sou muito mais. Consegui me “rebelar”, mas tenho 57 anos. E se eu tivesse esta liberdade de hoje (que me dei) nos tempos de adolescência? Quão diferente teria sido minha história de vida?

Parem de querer padronizar. Graças que hoje em dia há negras em comerciais e não só aquelas loiras com cabelos esvoaçantes... eu alisei, meus cabelos balançavam com o vento, mas no fundo eu não era feliz. As crianças merecem que vejam a beleza de seus cabelos e corpos do jeito que são. Não destruam a alma destas crianças. Tenho por hábito elogiar as crianças negras que vejo nas ruas, porque sempre vemos as pessoas elogiando as crianças loiras de olhos claros. E toda vez que eu fazia isso, via os olhos brilhando dos pais, orgulhosos de escutarem um elogio para seus filhos.

Enfim, retornando ao BBB, para finalizar, eu gostei da fala do Thiago lembrando da luta, da resistência. E eu percebia que o Rodolffo não estava entendendo, pois voltava na justificativa do cabelo dele ou do pai negro. Gente, não interessa se eu tenho amigos negros, familiares negros, etc.. se não respeito, se não escuto, se não acolho a causa, estou errada. Vejam que eu não disse que é para dar voz. Nós temos voz. Precisamos de escuta. E isso eu não vi ali. Escutar não é ouvir. Escutar é refletir.

Para terminar, não basta não ser racista. Temos que ser antirracistas. E não, definitivamente, não é mimimi.




segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

FICÇÃO - Sinfonia do caos

 

Sinfonia do caos

 Dezembro de 2020

Madrugada - de novo acordo, quando durmo, com os latidos dos cachorros do bairro. Todos latem, em todas as casas e apartamentos, como se algo quisesse entrar.

Ou então eles sentem o cheiro.

O cheiro da morte.

É uma sinfonia sem ordem. Latidos que nos arrepiam. Colocam nosso corpo em estado de alerta e nossa alma em estado de dúvida.

Dúvida se estamos bem.

Dúvida do número de mortos.

A sinfonia recebe, de vez em quando, novos acordes: as ambulâncias que não sabem para onde ir, já que os hospitais estão lotados. Um ou outro carro ou moto passam em velocidade exacerbada, como que fugindo de algo.

Rolo na cama e vejo o horário no celular: 03:00.

Minhas gatas acordam com meu movimento e me encaram, com ceticismo.

Minha barriga ronca. Não tenho me alimentado bem. Um mosquito zumbe. Era só o que faltava!

Levanto, acendo a luz, procuro um pouco por ele.

Desisto e vou até a cozinha beber água. Não há muito o que comer. Minha fome é outra.

Vou até a sacada, meu único ar nestes últimos dez meses.

Vejo as luzes coloridas de algumas poucas janelas. Farejo o ar, confiante que estou protegida no 17º andar, sem máscaras.

Respiro fundo. Suspiro.

A partitura canina é longa. E dá espetáculos todas as madrugadas.

Começo a observar as estrelas, em busca de um OVNI. 

Uma solução?

Relembro noites ancestrais de acampamentos. As matas, os rios, as estrelas.

Um tempo antigo que não cabe mais em meus dias.

De repente meus pelos se eriçam... minha respiração se suspende... minhas pernas ficam moles...

O que houve? Por um tempo fico perdida.

Até que encontro o motivo:

Silêncio!

Total. Apavorante. Sepulcral.  

Nenhum latido. Nenhuma sirene. nenhum motor.

Até as estrelas parecem ter parado de piscar.

Me sinto sufocada naquela sacada.

Ando de costas, devagar, e entro no apartamento, fechando a porta de vidro.

Coração esmagado.

Deito...

e tento dormir...



para desanuviar um pouco:



quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Ficção (ou real?) Era uma vez...


 Era uma vez um país fervorosamente religioso onde a "pastora" matava, o "padre" roubava e o "espírita" estuprava. Os Centros de religião africana como candomblé eram massacrados e os "diferentes" (negros, homossexuais e bandidos) recebiam punições desde surra até morte. 

Os "cristãos" não usavam máscaras em plena pandemia, compartilhavam inverdades e destilavam discursos de ódio.

FIM. 


LoboMauro no Twitter: "Ficam bradando que a bandeira do Brasil não ...

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Ficção -Lua Cheia

O homem estava apressado, corria muito, queria entrar no mirante da torre panorâmica a todo custo.
Estava tão inquieto que o guarda ficou preocupado. O segurança não queria deixar o homem subir no mirante. Disse que estava fechado por causa da quarentena. 
Mas o homem, ansioso, empurrou o guarda e correu para as escadas....

(texto: Susan Blum. Foto: Daniel Castellano)
Este fotógrafo é maravilhoso e tem muitas fotos belíssimas, recomendo visita ao instagram dele e ao facebook.
Instagram: @dicastellano

sexta-feira, 24 de julho de 2020

REAL-FICÇÃO - Eu não consigo respirar


Eu não consigo respirar
Aos que têm fome de comida, de saúde e de justiça.

Tenho fome.
Não há comida. Então pego terra.
O senhor me castiga.
Este ferro pesa, meu rosto sua e, como tenho sede, bebo o suor que escorre.
Não consigo respirar.

Tenho fome.
Não há saúde. Então uso máscara.
O vírus me pega.
A cama cansa, o tubo machuca, mas ele traz ar que caço sofregamente.
Não consigo respirar.

Tenho fome.
Não há justiça. Então grito por ela.
O policial me sufoca.
O joelho aperta, meu corpo clama, minha bexiga solta, eu sussurro
Não consigo respirar...

ϟ○• História e Sociedade •○ϟ: A máscara de flandres
Máscara de Flanders

Este texto eu escrevi um dia depois da morte de Floyd, nos EUA, em 25 de maio de 2020.
Nos dias seguintes, várias manifestações no mundo todo aconteceram, trazendo luz e reflexão sobre as vidas dos negros e o tratamento dispensado à eles pelos policiais.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Ficção - Isolamento

Em 23 de abril de 2020 o Jornal Plural publicou um conto meu.
Pioneira neste jornal, abri a seção de contos que continuou depois.
Feliz por este feito.
Somente agora trago para vocês este conto.


Isolamento

2020.

Curitiba.

23 de março.

Coronavírus COVID-19

Isolamento voluntário.

Campainha. Desconfiada. Olho mágico. Surpresa. Depois de meses. Ali está o ex-namorado.

Apesar de saber, pergunta:

“Quem é?”

“Sou eu”

A voz ainda mexe com ela.

Abre a porta e quase o cumprimenta. Mas lembra de manter distância. Abaixa a mão. O abraço fica na vontade.

Isolamento social mexe com a gente.

Distância. Álcool gel. Lavar as mãos.

Sentam-se então no sofá. Nos extremos.

Ele pede desculpas, avisa que cortaram a água do seu bairro: precisa tomar um banho.

Que não tem familiares. Que os amigos não abriram a porta. Que lembrou dela.

Estas palavras foram um banho de água fria em seus desejos ardentes. Vontade de expulsá-lo.

O cheiro dele – que sempre a fascinou – fez mudar de ideia.

Isolamento social mexe com a gente.

Ofereceu box, água, sabonete e toalha.

Enquanto ele assoviava feliz no banho, abriu a caixa que estava embaixo da cama. Lá ainda estavam o robe e chinelos.

Deixou em cima da cama. Avisou em voz alta. Foi para a cozinha.

Lá, colocou o vinho na geladeira e preparou noisettes congelados.

“É só para mim” – tentava se convencer.

Mal ouviu o chuveiro desligando, gritou sobre os comes e bebes.

Mordeu a língua…

… mas isolamento social mexe com a gente.

Aquele sorriso gostoso, com cheiro de homem, entrou na cozinha.

Tentou se concentrar na conversa leve sobre cinema, livros e amenidades.

Não queriam falar do assunto recorrente.

As risadas apagaram as distâncias profiláticas.

De repente, já estavam se abraçando.

Isolamento social mexe com a gente.

Abriu os olhos depois do beijo, e já estavam na cama.

Corpos suados felizes repousavam esquecidos do mundo.

Era só um banho. Mas a noite foi brindada com sonos entrelaçados.

Isolamento social mexe com a gente.

Acordam cedo, com os pássaros – agora se escutam até os pássaros!

Vão para a cozinha. Ovos mexidos, chocolate, suco, frutas, coisas da despensa.

Ela nunca vê TV nesta hora, mas é o hábito dele, e ela permite.

Ali a realidade mata o sonho.

Que a pandemia piorou. Que agora é decretada quarentena forçada. Que NINGUÉM deve sair de casa. Que o número de mortos triplicou. Que o número de infectados explodiu. Que o cheiro da doença e da morte parece penetrar em todos os poros.

Sem ar ela vai até a sacada e observa o vazio.

Atrás dela, cheira o medo dele.

Não sabe se é medo da situação lá fora ou aqui dentro.

Isolamento social, não… quarentena mexe com a gente.

Não podem burlar a regra.

Ele fica.

Mas os mantimentos que ela comprou eram para UMA pessoa.

E os dias passam.

E começa a implicar toda vez que ele pega algo para comer ou beber.

E os banhos parecem demorados.

E a TV ligada vai irritando.

E começam a discutir por qualquer coisa.

Quarentena mexe com a gente.

Não precisavam mais da distância. Mas a raiva não permite mais uma aproximação.

Cada refeição, cada banho, cada briga pelo canal diferente, traz distanciamento.

Alimenta a raiva, o ressentimento, o ódio.

Uma noite, ela vai até a cozinha e … ele está comendo o último chocolate.

Ela pula em cima dele.

Leoa feroz com instinto de preservação.

Quarentena mexe com a gente.

No dia seguinte, ela acorda com o som da TV. Nela, avisam que tudo se acalmou.

A quarentena foi revogada.

Levanta devagar do chão da cozinha, pegajosa pelo líquido avermelhado.

Quarentena mexe com a gente.







(Texto e Foto: Susan Blum) Link para o Jornal Plural: https://www.plural.jor.br/noticias/cultura/isolamento/

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

#MulheresExtraordinárias2 - Hipátia

Hoje quero trazer uma mulher que admiro muito e que conheci um pouco tarde na minha vida.
Só fui conhecer Hipátia com 40 anos de idade. Mas foi amor à primeira vista, ou melhor, ao primeiro conhecimento.
Devo isto a um ex-namorado.
Para começar a apresentar esta mulher incrível, trago uma citação na Suda.
"Articulada e lógica nas palavras, prudente e voltada para o bem público nas ações... a cidade acolheu-a apropriadamente e lhe concedeu um respeito especial". (Suda).

Um parênteses se faz necessário? Então lá vai:"A Suda (em grego: ἡ Σοῦδα; transl.: i̱ Soúda) é a primeira enciclopédia do mundo, surgida no século X, em Constantinopla. Compila obras e personagens de forma inovadora, isto é, em ordem alfabética"

Voltemos para esta mulher fantástica. 
Ela foi uma das primeira mulheres a estudar e ensinar matemática.
Aparentemente nasceu em algum momento entre 351/ 370 em Alexandria (Egito) e "faleceu" em 8 de março de 415. 
Por que coloquei faleceu entre aspas?
Simples. Ela foi covardemente assassinada. E, aqui o ponto relevante, principalmente pensando nos tempos atuais do Brasil: por causa da fúria de fundamentalistas cristãos. Ela já poderia ser famosa pela sua vida, mas a morte a transformou em uma lenda.
Mas, vamos por partes. Falei que ela era matemática, mas ela era muito mais que isso.
Especialista em Filosofia e Astronomia também, ela se tornou um símbolo do esclarecimento e do feminismo. O pai dela, Teón, era um erudito que não somente deu uma educação primorosa para a filha, como fez questão de que ela respeitasse a herança e os valores gregos. Teón foi um dos últimos membros da Biblioteca de Alexandria. 

Outro parênteses: a Biblioteca de Alexandria suportou revoltas e guerras, mas foi destruída em 391  D.C., quando o Império Romano tornou o paganismo ilegal.
Vejam os riscos de não se ter tolerância e não se apoiar os estudos e pesquisas.  

Ela lia e estudava muito, sendo curiosa em relação as coisas, buscava conhecimento onde podia. Inclusive gostava de repassar seus conhecimentos, buscando que todos tivessem acesso aos estudos. Ela chegou a discursar em público sobre Aristóteles e Platão.
Um dos retratos dela está no famoso quadro de Rafael, "A Escola de Atenas".

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Algumas curiosidades: Hipátia inventou uma nova versão do Hidrômetro. Trabalhou com o pai em teorias sobre o Sistema Solar. Era conhecida como "A egípcia inteligente".
Ela teve a chance de viver em uma cidade (Alexandria) que era famosa por sua biblioteca e por ser um lugar de aprendizagem.
Mas, infelizmente também era um lugar em que tensões religiosas entre pagãos, judeus e cristãos acabavam em violência.
Justamente por isso era perigoso Hipátia e seu pai Teón concretizarem suas tradições gregas.

Parênteses: não podemos nos esquecer que os gregos estabeleceram tradições de justiça e liberdade individual, que viriam a se tornar base da Democracia contemporânea.

O pai lhe ensinou matemática e astronomia, mas em pouco tempo ela superou o pai, se tornando especialista nas duas ciências (com contribuições importantes à teoria dos números e Geometria).
Mas não era apenas na matemática e astronomia que Hipátia tinha interesses. A Filosofia também a impressionava (principalmente a Platônica).
Ela se tornou uma das primeira professoras de Alexandria e muitas pessoas viajavam de longe para a ouvir e aprender. Os homens que eram seus alunos a respeitavam e eram leais.
Mas... como muitas histórias. Algo muda.

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Com o tempo ela se tornou um alvo, por seus ensinamentos pagãos.

Não devemos nos esquecer que toda religião deve ser respeitada, quando não se respeita alguma religião, estamos cometendo o pior delito. (opinião minha)

Hipátia foi assassinada da pior forma possível. Ela foi morta de forma cruel e torpe. Seu crime? Fazer as pessoas pensarem além de suas crenças, fazer as pessoas refletirem sobre a vida. Mas os que são fechados em suas crenças, veem ao outro como inimigo.
Em 415, uma multidão de extremistas religiosos, com conchas e pedras afiadas, a esfolaram viva. Rasgaram sua pele, como que tentando tirar todo o conhecimento e amor pelas pessoas que ela tinha. A professora foi assassinada por não aceitar crenças fechadas. Por manter a mente aberta. 

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Sua morte foi horrível. Mas sua vida se transformou em um símbolo da EDUCAÇÃO diante da IGNORÂNCIA. Um símbolo de luz e conhecimento.

Trouxe a história de Hipátia pensando nos tempos de hoje no Brasil, quando o estado "deixa" de ser laico, para que um grupo de evangélicos (não todos) sejam levados por um "presidente" que coloca Brasil acima de Tudo, Deus acima de todos.

Parênteses: na Alemanha de Hitler, uma das frases mais repetidas era "Deutschland über alles", que quer dizer "Alemanha acima de tudo"

Uma dica de leitura (clique na frase):
“Deus acima de todos é expressão fascista que esconde sede de poder”

Outra dica de leitura: BBC - assassinato de Hipátia 


Enfim, procurem saber mais sobre esta mulher maravilhosa. Aliás, assistam ao filme Alexandria (link para trailler)

Também há livros e vídeos sobre Hipátia. Uma GRANDE mulher que foi morta pela intolerância. Reflitam sobre isso.



Hipatia de Alejandría (Spanish Edition) por [Luna, Luis De la]