novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......
convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

terça-feira, 20 de outubro de 2009

FICÇÃO - M



Endaira lhe mostrou, em sonho, o caminho que deveria seguir. Mas acordou e os contornos e a imanência dos simulacros esfumaçaram-se. Permaneceu apenas um viscoso fiozinho de lembrança, mas não identificável: palavra na ponta da língua que não se mostra.


Não suportando a clausura da casa, sai ansioso pelo ar fresco das ruas. Novamente andarilho, vagando por ruas incertas. Um voyeur, um flâneur? Oh francês! Língua da poesia! Se mutaciona de um Baudelaire, para um Cesario Verde, ou um Italo Calvino ou até um brasileiríssimo Dalton Trevisan. O labirinto-cidade existe em todas as línguas. Francês, português, italiano, alemão... as palavras de Benjamin sempre surgem quando vai caminhar por ruas desconhecidas: “Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões de meus cadernos foram os primeiros vestígios...”


Caminhar e caminhar. Os passos vão sozinhos, um seguindo o outro, automatizados. O olhar se deixa seduzir pelas imagens. Seguindo o conselho do velho amigo cronópio levou a máquina fotográfica, pois “entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom, olho e dedos seguros”, uma vez J.C. disse isso.


Como o destino, desenhado na palma da mão pelas linhas tortas dele, os pés iam, atentos e distraídos, críticos e cúmplices, acompanhando o olhar. Aos poucos percebe um fio que vai se desenhando à sua frente. Segue-o, da rachadura da calçada, para o fio de óleo na rua, a hera que se espalha pelo muro, os encaixes das pedras nas ruínas de São Francisco, um fio de tinta vermelha que escorre da parede recém-pintada...


Clic-clic, essa necessidade de fotografar, de passar uma lâmina fina e ficar com a fatia de tempoespaço congelada, para sempre, até que a luz natural vá roubando cada imagem, devolvendo-a ao espaçotempo da natureza. No fim, nada perdido, nada criado, tudo transformado. Sentiu-se transformado também. Do fio mental do cartaz do poste, seu fio de pensamento foi-se embora ao sabor do vento e das lembranças.


Um pedaço de lã azul saído de um pequeno novelo, jogado no saco de lixo que foi aberto pelo cão buscando comida. O fio arrebentado do “gancho” do telefone público. A rachadura na vitrine da loja escancara o vandalismo despedaçado, a casa rachada mostra vidas em ruínas, os fios de sujeira e pó do túmulo abandonado: vidas em decomposição.


Os fios vão se amontoando e aos poucos ele percebe que a clausura da casa também está na rua. Sufocante. A cidade é gaiola, túmulo, claustro, prisão, boqueirão e becos. A cidade é espetáculo vencido, sem espectadores, sem público,


sem privado,


                        com


                               privadas,


                                                ar estagnado,

                                                                          vidas paralisadas,


                                                                                                          cativeiro alquebrado,


                                                            boqueirão nauseabundo


                           becos enegrecidos,   

fios que se enoseiam ao seu redor, o sufocam, prendem-no, cerram os brônquios asmáticos, sugam seu colorido. Seguindo o fio com o olhar percebe que ele termina em sua mão. Ou iniciou-se dela? Endaira mostrou a saída. Corpo inerte, livre do labirinto vivo. Quiçás pertencendo agora a outro labirinto. Caminhante, não há caminho. O caminho se des faz ao andar!
(foto by Susan - ver flickr susanblum63)

2 comentários:

  1. Eu me senti como o minotauro no labirinto ... só que ao invés do fio de Ariadne, denso, concreto, palpável e tangível, somos conduzidos pelas veredas da interioridade ...

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    1. Que bom! Foi justamente esta a intenção!

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